A Perda
Hoje é silente o teu lugar. nada mais me interpela, me ferra à existência como um ato de Sade! o corpo marulha ou se queda nos abismos sinusóides das vagas, estonteado com o sal e os cabelos emaranhados; bofetões de vento e arrepelos expõem as entranhas e os enredos de beijos, que verdes algas levam depois ao fundo e prendem aos cascos de navios pútridos - jazem fora de controlo, suspiram e rangem uma existência dúbia. o corpo afoga o suplício perante os gritos álgicos das gaivotas e os sussurros cúmplices dos golfinhos. procura-te por entre as rajadas em destempero. duvida se passaste por ele acelerado e inconstante. cheirou o teu cheiro. tão imperfeito, não conseguiu capturar-te. incapaz, é sacudido de rompante e atirado à espuma - sossobra na queda e desmaia de dor. dor de te perder em tanta imensidão. vencido, o corpo abandona-se, mistura as moles nos infinitos agudos, nas facadas de luz e súbitas trevas, nos vislumbres de vultos difusos onde não serás avistado. como poderás sê-lo? tão improvável que te encontre neste mar de mundos e de tempos curtos que são as vidas da gente. não mais sorver o sal dos teus lábios devagar - é penoso. afunilaste a existência para fora da minha dimensão e, assim, por mais que me fustigue, nada me leva a ti. foi a morte que se antecipou para nós. arrasta-se a existência de odor amoniacal até que se convença que já é espectro? meu amor! nada será que eu possa acreditar que exista! mundos e mundos falecem em cascata desde que partiste.