INTERMUNDOS
INTERMUNDOS 1
Apresentação
Mário Aesth e Luísa Bósforo vivem em Portugal num ambiente de pós-singularidade
tecnológica, mantendo uma relação frugal e ambígua entre si. Aceitam participar
em experiências científicas que se desenvolvem ao longo de viagens míticas pelo
Mundo e pela história real ou ficcionada em romances ou livros de viagens. Na
verdade não são Luísa, nem Mário, mas as suas instâncias que viajam - uma
clonagem que inclui a experiência vivida até ao momento da separação entre o
ser original, chamado de raiz, e a sua instância. A fractalização acontece
quando se possibilita a reinstanciação sem limite: cada uma pode dar origem a
outras. A trama das relações entre instâncias, a complexidade do espaço-tempo,
a nova ciência que incorpora as artes, ciências físicas, sociais e humanidades
favorece um novo despontar da humanidade. Luísa e Mário protagonizam, além
disso, a sua própria história em possibilidades que apenas acontecem nas vidas
não-lineares.
Nós em Katmandu
(Narração de Luísa
Tempo – 2019)
Sei que te atraí por engano. Pensei que ela estaria por cá. Viemos numa
vertigem. Cá estamos. Acabados de chegar. Moídos. Espreito de soslaio. Estás atraente
com a tua barbicha grisalha e o olhar esbugalhado que te é peculiar emoldurado
pelas elipses dos aros, quase à Lennon. Não deixo que percebas, uso os reflexos
dos meus óculos de aviador. Vamos ao encontro do João, o organizador do
trekking. É comovente porque não nos vemos desde a adolescência, da minha,
porque ele era pouco mais que criança. Afinal a Suse está em Lhasa, não em
Lothse, como me confundi. Mas tu estás animado. Vejo-o naquele esgar interdito.
Mrs Kelly foi-nos recomendada como anfitriã. Os traços british, a pele outrora
pálida e frágil engrossou corroída pelo clima e a idade. Encanta-nos com aquele
toque snob que lhe dá uma réstia de administradora do Império, uma altivez
aristocrática. Levou-nos afinal, não para o seu alojamento, mas para um lodge
local, negócio de um sherpa empreendedor. Deixamos a bagagem por abrir e
fugimos para a rua sequiosos de Katmandu. O bulício atordoa com os aromas, a
estridência das cores, os objetos peculiares, o linguarejar alienígena, os
reclamos artesanais, os improváveis transportes, os desenrascanços, o fulgor
das motas. Sorrimo-nos cúmplices. Afinal é isso que nós somos: cúmplices! Vamos
em ziguezague para fugir à multidão; muitas vezes nos chocamos e acariciamos
sorrateiros as mãos perdidas nos gestos, sem querermos mais nada. Temos tudo:
assim.
Entrámos num café british. Somos covardes ainda para enfrentar a imersão
total... Bebemos um whisky - que tontos! Vogamos pelas ruas metendo o nariz
aleatoriamente nas lojas de souvenirs. Enfadados, partimos para o Stupa. Fixamos
o olhar duvidoso de Buda. Observamos de nariz no ar as orações em papel
colorido dependuradas nos cabos, a lembrar as festas de Santos Populares. Será
que se relacionam? Os sinos de chamar deus, as rodas de rezar... Comentamos os
apontamentos arquitetónicos...Chega o João, com o seu ar tisnado como sempre o
conheci. Tive vontade de lhe perguntar se ainda usava a pesada cruz ao peito,
amuleto na pré puberdade. Mas tive compostura. Tu sempre com ar gentil e
educado. És muito bem posto. Sabes que eu às vezes parto a loiça. Há muita
incompatibilidade entre as nossas posturas no mundo, e no entanto, algo nos
magnetiza em superlativo. O João apresentou-nos o chefe dos carregadores,
trocámos números de telemóvel. Desenrasca-se com o inglês, Thanks Buda! Temos a
lista de equipamento e haveres, no fundo tudo tratado pelo ágil organizador.
Jantamos uma mistela para turista e regressamos cedo ao lodge...
Amanhã iniciamos a subida ao Campo Base. Vamos num trekking de acompanhamento
de himalaístas.
Dirigimo-nos ao hotel do João ainda a tempo de o ouvir contar que acabou de
chegar de Kang Tang, a zona norte de Katmandu onde penetrara o Tibete sem
formalidades. Ficaste muito interessado. Afinal a Suse está por lá. Talvez
queiras também ir. Fá-lo-ás sem mim. Por ora não estou segura o suficiente para
nos reenquadrar numa relação múltipla. Talvez aproveite para visitar o mosteiro
do filho do sherpa que nos aluga o lodge. Preciso recolher algumas informações:
um certo mantra, uma determinada mandala, terão os códigos que procuro. Não
estou certa, porém.
Partimos para as montanhas em dois minibus na direção de Chillas e da famosa
karakourum Highway. A paisagem vai-se tornando escarpada e a estrada estreita.
Cruzamo-nos com vestígios de acidentes por deslizamento de terras, provavelmente
devido a avalanches. Percebo que sorris para dentro com alguma perversidade.
Sei que és assim: uma conquista ética da humanidade. Às vezes com
reminiscências da tua raiz, mas capaz de reconhecer e corrigir. Nunca consegui
explicar esta dualidade. Nem à minha mãe que me entende no além. Após treze
horas de viagem dormimos em Chillas. Apesar do cansaço estávamos estimulados.
Encontramo-nos como é costume. É sempre inolvidável. E acabamos como é comum a
dormir recatados e satisfeitos cada um na sua cama, sem sobressaltos, nem
desejos remanescentes. De manhã retomamos a estrada. Estamos rodeados de
montanhas por todos os lados. Avistamos o Nanga Parbat. A estrada cada vez mais
estreita e inclinada, os vales verdejantes e luxuriosos. Estamos cansados.
Dividimo-nos por jeeps e prosseguimos viagem. Após alguns dias de trekking
chegamos ao Campo Base e juntamo-nos na tenda-messe com os himalaístas. Um
lugar mítico pelo simbolismo, mas desagradável, sujo e inóspito. Fazemos a
viagem de regresso. Está decidido. Irás com o João no regresso ao Tibete e eu
sigo para o mosteiro.
Descansamos uns dias antes de partirmos, tu para o Tibete via Kang Tang com o
João e eu para a via mística do mosteiro. Por estes dias, para além de
sentirmos com calma o pulsar da cidade e nos deliciarmos nos restaurantes de
referência local, menos turísticos, fazemos algumas viagens nos arredores de
Katmandu e aproveitamos para conversar e namorar ao nosso jeito. É necessário
socializar-te na missão, aos poucos. É complicado explicar tudo de rompante.
Irás percebendo. Claro que a nossa relação acabou por ser um fator de escolha,
mas foi a tua matriz cultural que te deu lugar de candidato. A tua finura
analítica, a capacidade de aprofundar qualquer assunto, a clareza racional
temperada por uma sintonia emocional fina. Enfim. És o meu poeta racional.
Serves amiúde de estímulo e diapasão para colaboradores como eu, na missão. A
mim, isso dá-me um particular prazer. Tive que advogar a teu favor. Estavas mal
estruturado, complexado socialmente, em luta interna permanente pela ascensão,
a modelagem e a colagem dominavam a tua vida; uma economia distorcida nas
relações. Tive que puxar dos meus galardões, e tinha alguns, para te garantir a
terapia intensiva com inteligência artificial. Resultou muito bem. Foi
instantânea. Algo inimaginável há uns anos atrás. Nem terias tempo de vida para
fazeres o trabalho de melhoria equivalente. Puseste algumas condições no
contrato de participação na missão. Por exemplo, todo o material da terapia
seria apagado; sempre que fosses instanciado, manterias a possibilidade de
recordar os acontecimentos; a tua raiz teria sempre supremacia sobre as
instâncias - inspiraste-te nas três regras da robótica da obra I Robot, do
escritor Isac Asimov, com a relação raiz-instâncias decalcada a partir da
aplicada a humanos e robôs, e foste nisso uma inspiração para futuros
contratos. Concordámos. Ficou com este articulado:
1ª Lei: Uma instância não pode prejudicar a sua raiz ou, por inação, permitir
que ela sofra algum mal.
2ª Lei: Uma instância deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres
raiz exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
3ª Lei: Uma instância deve proteger sua própria existência desde que tal
proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.
Ainda há a lei suprema, ou “Lei Zero”, acima de todas as outras: uma instância
não pode causar mal à humanidade- raiz ou, por omissão, permitir que a
humanidade-raiz sofra algum mal.
Claro que outras questões se virão a colocar na relação complexa entre
instâncias e seres-raiz. Estão em estudo.
Graças à instanciação, tu e eu podemos viajar e manter a nossa vida primeva
intacta e ainda reinstanciar-nos esporadicamente para fins específicos. É isso
que nos dá tanto prazer interdito, quando nos encontramos a sós e nos apetece.
Na verdade é um processo fractal e sem limite. Ele faz parte da singularidade
tecnológica recentemente alcançada. Contar-te-ei tudo o que sei, aos poucos,
meu querido!
Terei que enviar - estreia absoluta - um OMNI contigo ao Tibete.
Concordaste entusiasmado e apreensivo, mas sabias que isso fazia parte do
acordo. Com aprendizagem automática e conectado a um sistema de consciência
humana, que mais não é que uma rede de voluntários em processamento
subconsciente para as questões da emoção e da consciência. O resto é
processamento de big data recolhido a partir dos inputs da tua instância.
Talvez pareça confuso, um pouco. Por opção, a tua raiz terá algum acesso de
tipo onírico ao conteúdo da tua vivência, o mesmo acontecerá com os voluntários
da rede de consciência. O OMNI irá aprender progressivamente a analisar-te.
Para já, há um compromisso de limite: não irá mais longe que um narrador
omnisciente, no seu estado mais avançado. Foram as tuas condições. Noutros estudos,
os OMNI irão explorar relações complexas entre a ação e a consciência, até
poderem ter um modelo das mesmas para a humanidade. Evidentemente, todos os
dados são trabalhados no sistema quântico, dado o seu volume e as exigências
gigantescas de processamento.
Estamos empolgados. Eu apenas terei acesso a um registo escrito, como se de um
romance se tratasse. Foi isso que tu e eu combinámos. Estou ao mesmo tempo
apreensiva, pois acompanhar as tuas vivências afetivas é um desafio para o qual
não me sinto completamente preparada. Fiz até terapia instantânea para o
efeito. Veremos! Até para a semana!
A tua Viagem ao Tibete
Narração: Luisa
Partiste de madrugada. O João passou para te apanhar. Levaste uma maleta com um
mínimo de haveres. Tu és assim, minimalista. Deixaste um rasto de cheirinho bom
e a memória da noite, da superação, desdobramento em mil nós... Partiste. Sei o
que te move. Sei que devo deixar-te ir e celebrar contigo... Que seja como tanto
queres. O que o OMNI registar, verei mais tarde.
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Nota um. OMNI. Perda temporária de capacidade de processamento. Aproveitou para
síntese e captação de padrões literários. Corrigido. Registo iniciado.
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Narração Omni1
"Viu-a desde a esquina, a sua cabeleira fulva com pequenas labaredas a
desprenderem-se em espirais de uma auréola. Era uma deusa para ele! Estremeceu
por toda a raiz axial do corpo, sentiu a ascensão pelas chacras, um sabor acre
a depositar-se na boca, a garganta urgiu pela saliva, a respiração adensou...antecipou-a
como um relâmpago dispõe do trovão - Suse! Ela, imóvel, olhava-o pelo canto do
olho - o rosto opunha-se retorcendo-se no sentido oposto. Ele avançava felino
com o passo certo em ritmo uniforme, ligeiramente acelerado...já lhe lia os
lábios em flor, entreabertos ao espanto e às memórias, o olhar pleno de
especiarias, a valsa que se avizinhava aos corpos, os beijos fustigados de
vento em rimas e ritmos pejados de químicos de amar, e o desenho em esboço do
sorriso puro, os fios do entreolhar dele e dela a apegar sem liberdade; ouve o
bafo rítmico e sente o marejar ondulante do sangue quente nas veias e
atira-se-lhe para a curva do colo; descai a cabeça sob o peso da saudade a
matar e borboleta-a com os lábios doces de humidade quente e ela cede as pálpebras
e estremece. Logo se agarram sôfregos e correm para onde ela dirige, abraçados,
amarrados ao destino, e no lodge dela assim se transcendem...e se espantam e
replicam centenas de beijos e se descaem ao torpor e se banham na vasilha
império inglês com pétalas de rosas secas e sais perfumados e se intoxicam em
incensos e comem biscoitos, riem e choram, e se confessam. Ela tinha uma
namorada, coisa séria, agora fora um matar de saudades. Ele queria ficar na
vida dela, mas era tarde. Desfizeram os últimos nós e ele saiu cabisbaixo a
tropeçar no capacho da entrada, de tez cinzenta e olhar vazado, os caracóis
retorcidos e a voz embargada, a tossicar. Fez o percurso turístico ali mesmo
por Lhasa, em manada, andou como um zombi, ouviu nada, sumiu deste mundo pelo
vórtice da dor desamparada da impossibilidade. Ainda cheirava a manhãs
submersas quando o real lhe trouxe o João e a perspetiva do regresso a
Katmandu."
Adeus Katmandu
Narração: Luísa
Chegaste do Tibete com um humor irrascível e eu sem pistas sobre a causa. Não
acompanhei os registos do OMNI. Adianta perguntar-te?! Tens mau feitio e isso
não passa com terapias. Enquanto viajaste não fui ao mosteiro, acabei por ficar
a estudar a vida de Alexandra David-Néel (depois explico!) e distraí-me.
Proponho-te a saída de katmandu. Acedes com apatia. Mas que tens tu?! Penso num
plano verdadeiramente ousado. Conto-to por alto. Aquele brilho raiou de novo no
castanho da tua íris. Vamos para uma experiência exploratória, como muitas que
iremos fazer. A minha e a tua estreia absoluta em viagens ao passado:
Alexandria, anos 40, Séc XX. Solicitamos avião urgente ao Centrório. Concedida.
Descansas dois dias e partimos. Não velarei o teu sono. Disfarço, mas estou
amuada com a tua ida entusiástica ao Tibete. Prossigo com a Néel, agora entremeada
com Durrell.
Aproveito para responder a algumas dúvidas sobre o OMNI, o que já devia ter
feito, mas fiquei um pouco depressiva. Bem...OMNI é uma experiência literária
com Inteligência Artificial, um narrador artificial. Mais devagar: é um
software, em rede, com processamento quântico. Até aqui, mais ou menos
pacífico! Narra a partir do cruzamento de informação de tipo big data
contextual (basicamente todos os dados disponíveis na web sobre o local que é o
cenário); acresce dados internos por input instalado nas pessoas
"observadas", mas que geralmente são instâncias, não pessoas reais (a
estas chamamos seres raiz); o processamento da consciência, o que inclui
pensamentos, emoções e sentimentos, controlo executivo e metapensamentos, mas
também intuição e subconsciente, está a ser monitorizado - neste caso há um
processamento intermédio através de uma pequena rede de voluntários de seres
raiz - isto acontece por não ser tecnologicamente ainda viável a reprodução da
consciência humana informaticamente. A tudo isto acrescenta-se a formação
literária e a capacidade de aprendizagem automática que tem o OMNI - designada
por machine learning. Quanto à pergunta: o OMNI tem uma realidade material?
Bem, não propriamente: ocupa um espaço virtual que resulta de uma projeção que
pode ser ligeiramente acima da cabeça do personagem, eventualmente simula o voo
da águia, outras vezes está simplesmente no plano da consciência. Demasiado
confuso? Imaginem para nós!
Não fiquem preocupados. Vamos explicando! O potencial heurístico é enorme e
posso adiantar que a rivalidade entre ciências do mundo físico, ciências
humanas, humanidades e artes, está completamente ultrapassada nesta
pós-singularidade tecnológica. Ah!... Tenho mais umas novidades picantes para
vos contar. Faço-o depois!
Nós
em Alexandria
OMNI assume a narração. Registo OMNI2.
Após o regresso de Katmandu Luísa Bósforo e
Mário Aesth, instanciados, viajam para Alexandria. Estamos em 2019, num dia
quente de julho. Vão em preparatórios de trabalho e em transgressão lúdica
secreta.
Mário: - “a
cidade de Alexandria começa e acaba em nós, lança raízes nos recantos da
nossa memória”, como diz Durrell, e “tal
como ele, também eu sou obrigada a voltar recursivamente - afirma esparsamente
Luísa enquanto recolhem as malas no aeroporto Borg El Arab, onde são aguardados
por Amil, motorista do hotel. Pernoitam no St. Julian: memórias intemporais do
pós-guerra. As fotos no lounge ainda recordam com orgulho essa resiliência.
Tomam um gim como em qualquer outro lugar "para comemorar", dizem.
Espera-os uma aventura sui generis. É a sua primeira. As viagens no
tempo começavam a ser divulgadas com algum furor, não sem despertar a
negatividade de alguns, como os que duvidavam da ida à lua por Amstrong. Eram
já tão sem glória como para o astronauta. Tão chão! Tão "à
funcionário"! Mas eles vinham apenas divertir-se e explorar possibilidades
futuras. O St. Julian era um hotel especial. A sua dignidade permitia
construir camadas de existência exploradas por corporações e governos. A eles
isso nada importava, não que na sua vida raiz não fossem ativistas políticos,
mas tratava-se da sua instanciação. Aqui, apenas lhes cabia explorar alguns dos
novos sistemas, como o da narração OMNI em diversos cenários. São
essencialmente exploradores criativos, o que lhes dá uma enorme abertura de
possibilidades. Luísa, curiosa por natureza, interdisciplinar e empreendedora;
Mário, senhor de uma cultura humanística invejável, criativo - aceita arriscar
enquanto instância, para compensar a personalidade conservadora que mantém na
sua raiz e que ocultou a sua segunda natureza autogenerativa. Adiante, o
casalinho saboreia o álcool destilado, que lhe é concedido por entre um
floreado jazzístico no bar. Enquanto se dirigem para o quarto, Mário, com o seu
arzinho de graça, parafraseia Pursewarden, personagem de Durrell: "nós
vivemos vidas baseadas sobre uma seleção de ficções". – “Certo, Mário! É
essa a base destas nossas vidas!"
Foi estranhamente fácil a reinstanciação que
lhes permitiu mergulhar na Alexandria de Durrell, anos 40. O que mais
estranharam foi o odor da cidade: uma inextrincável mistela de especiarias e
bactérias. Mário e Luísa ficaram atónitos, sem proferir palavra, entre os
pregões, a estereofonia de tudo, o rural misturado com o urbano, os linguarejares
desconhecidos, os bafos escaldantes e ondulados diluindo os contornos da cidade
luxuriante. Os bairros decrétipos e perfeitamente étnicos em manta de retalho:
árabes, judeus...
Foram assediados pela estranha penetração de um
sentimento familiar, uma espécie de saudade no fundo da alma... nunca se
sentiram tão cúmplices como naquele momento. E como crianças em êxtase num
paraíso de brinquedos, o coração saltava do peito enquanto o corpo estarrecia
de desejos contraditórios. Queriam ver tudo, frequentar cafés e salões, andar
de carro nas avenidas, passear a pé pelo bairro árabe, penetrar o Meidan, as
tabernas e os quartos promíscuos, reviver Kavafis, subir à cidade alta
aristocrática e frequentar a barbearia mais cara, aspirar a maresia à sombra
das mesquitas, beber arake nas esplanadas das cosmopolitas avenidas, andar de
elétrico, passear nas margens do Mareotis, participar numa caçada ao pato,
visitar túmulos de santos, ver performances de saltimbancos e, encontrá-los:
Justine, Nessim, Clea...não! Isso era pedir demais... Frequentar a embaixada
britânica, isso sim, era-lhes permitido.
A baía tinha ao fundo ainda a torre de Pharo, a primeva
e estava prenhe de azul ferrete e de marinha de guerra. Mário ficou muito
interessado; Luísa precisou seduzi-lo para dentro de uma loja de chapéus.
Compraram um tarbush para ele, e um véu para ela e foram pirogravando na alma
toda a magnificência das lojas a pluralidade das cores, pregões, aromas, a
profusão de vida pululante. A felicidade disparou a química do amor e ele
beijou-a de surpresa, docemente - tão surpreendente e raro fazê-lo na primeira
instanciação, não na segunda, em que eram amantes. Deslizaram para um café,
pediram um arak para os dois, por entre olhares de observação atenta como os
animais em grupo, a vigiar o estranho - claro! Não tinham guarda roupa
adequado. Pediram ao Centrório para lhes facilitar a adaptação e receberam em
meia hora um guia que passou a integrá-los - linguarejou qualquer coisa que
descansou os atentos vigias e levou-os por salões dentro de salões separados
por pesadas cortinas de veludo, cada sala com um estilo diferente até que lhes
mostrou o quarto onde o poeta da cidade se devaneava com mancebos de belos
músculos que tanto apreciava.
Narração de Luísa
"Fiquei
sentada numa poltrona. Vi-me puxar uma bola de fumo de uma elegante cigarrilha-
um aroma absolutamente divinal. Tu foste visitar o quarto do poeta. Apercebi-me
que te seguiu uma matrona de longos cabelos negros, tão brilhantes como nunca
vira e olhos perfeitamente delineados a khol. Fiquei estarrecida. Fumei
cigarrilhas atrás de cigarrilhas (nem sabia que fumava!). E tu demoraste.
Chegaste desgrenhado, os lábios inchados, possivelmente era só o efeito do
batom. Como? Mário?! Quando te sentaste ao meu lado sorriste e o beijo ardente
foi ímpar. Alexandria estava a corromper-nos!
De seguida deslizámos pela Corniche até ao porto. Tu apreciavas o
castanho-bronze da paisagem e as sombras nacaradas no solo pérola. Deixámos
para trás a poeira a incendiar o céu em congeminação com o sol; os túmulos de
profeta projetados nas dunas em revolução. Sorriste quando te olhei de soslaio
e suspiraste pelo dia que passaremos junto às grandes brechas do lago antigo -
Durrell oferece-nos os charcos celestiais onde vagueiam as núvens, o azul-lilás
tinge o verde Rembrant e os tons de zinco palpitam nos afazeres dos patos; a
humidade quente, o marulhar dos aromas misteriosos, os segredos dos insetos, a
profundidade do espaço povoada por sons a todas as distâncias até adentro da
pele, na zona do afeto.
A noite começa a cair. Os reverberes acendem o teu perfil compassadamente. O
olhar foca-se no ponto de luz diáfana que dobra o cabo e desliza sagaz no veio
de espuma que brilha ao luar. Só depois chega, nostálgico, o som grave do
apito, se refugia no carro e desiste de prosseguir. Somos visitados por
fragmentos do jazz insinuado pelos bares da marginal, leve e sincopado, em
sintonia com o motor do carro, que acabamos de perceber, trazendo-nos para o
real, como se nele não estivéssemos nas últimas horas. O porto cresce ao nosso
redor, povoado de pirilampos à flor da liquidez densa do mar. Na amurada, um
exército de gaivotas vigilante. Os seus gritos a coberto da noite vertem num
queixume que se adoça ao desfalecer numa tonalidade quase melodiosa. Com
graciosidade infantil apontas a lua a escalar os minaretes para o lado sul em
quadros intermitentes permitidos pela deslocação na avenida; concorre com a
impregnação dos aromas de carmodoma, mirra, azeite e canela e lança uma aura de
desejo urgente. Saciamo-nos na esplanada do café Rimbont, amornados pela brisa
que conforta os contornos do rosto no passar lento do tempo. Não temos pressa.
A algaraviada cruzada de linguarejares do mundo é o nosso entorno cosmopolita.
Sorrimos, cúmplices!"
Nós em Alexandria
Registo OMNI3 - 1ª instanciação
Luísa e Mário, instâncias primeiras, aproveitaram a estada em
Alexandria, naqueles dias de julho de 2019, para fazer algum turismo. A cidade
era muito diferente do que imaginaram, certamente muito alterada em relação à
versão de Durrell no seu Quarteto. Cinzenta, gigante e sem o charme de outrora.
A torre de Pharo arruinara-se; as ruas estão sujas e inóspitas; até a
biblioteca, de traça contemporânea, em nada respeita a epifania que foi para a
humanidade a antiga Biblioteca de Alexandria. - "sabias que afinal não
ardeu, mas simplesmente foi depreciada e deixou de ser financiada por motivos
políticos? Hás de ler sobre isso!"- informou Mário com a sua expressão
habitual muito serena e segura, à primeira vista, mas meio perdida se o olharem
no fundo da Íris, que começa a esmorecer e a ficar castanho pardacento... Nada
que importasse especialmente a Luísa que já lhe conhecia os propósitos e o
avesso - adorava-lhe aqueles olhinhos-estrela, até quando se ofuscavam
envergonhados! Era tão tímido o Mário! Desculpava-o sempre!
Apesar dos imprevistos turísticos descritos, apreciaram a
comida exótica e a simpatia árabe. Visitaram as ruínas de Kom Al Dikka, área
residencial rica dos tempos greco-romanos, conhecida na época como o Parque de
Pan, um jardim de prazer..
Viviam entre a leitura dos registos OMNI, a elaboração de
sugestões para protocolos futuros nas viagens pelo tempo, algumas explanações
sobre o estado da arte da tecnologia, tão pregnante nas suas vidas e a fazer
especulações sobre os seus seres-raiz a viver em Portugal: como estariam a
reagir a estas experiências das suas instâncias? A segunda instanciação estava
vedada a uma vivência direta à primeira instanciação, e poderia aparecer, mas
em sonhos e muito raramente, à raiz. No entanto, daqui de Alexandria, 2019,
recebiam os relatos do OMNI – agora, algures pelos anos 40 -, que por vezes
brincava à cedência de perspetiva, simulando ser Luísa. Daqui de 2019, Luísa e
Mário não se esforçavam para compreender o que estariam as suas segundas
instâncias a fazer: seria demasiado perturbador vivenciá-las como algo de
pessoal. Assim, limitavam-se a sorrir, ou mesmo a brejeirar sobre o assunto e,
depois, a fazer uma análise pragmática, no sentido de melhorar os processos
futuros com a experiência atual: assim, a introdução de um interlocutor, guia
ou com outro formato, seria essencial, tal como um tempo de ambientação,
indumentária adequada e um pequeno workshop sobre costumes e informação
prática.
Registo OMNI4 - 2ª instanciação
Mário contactara a Embaixada, e, com auxílio do Centrório,
foram convidados para uma receção na residência de verão do embaixador. O
palacete do séc. XIX ficava na zona alta da cidade implantado num jardim
luxuriante com griff inglesa - o estilo paisagista a refletir o espírito de uma
época, liberal, sem a geometria dos jardins clássicos, com a natureza como
fator principal - as formas orgânicas aproximam-se do estado natural da
paisagem, de toque erudito, inspirado nas Belas Artes, em particular na
pintura. “Dizem que foi concebido por Humphry Repton, mas não pude confirmar”,
esclarecia Mário. Fomos recebidos com distinção, mas alguma informalidade -
soubemos logo ali que se tratava de uma receção ad-hoc de cortesia. Luísa
encantou-se por um gato amarelado que os recebeu carinhoso e soube pelo criado
que se chamava Jock, em tributo ao amigo felino de Sir Churchill, o que ela
achou delicioso. O cheiro a erva cortada e a frescura do lago e seus canais
embeveceram o casal, que desejou de imediato sorver um refresco à sombra do
canavial de bambus. Mas por ora seguiram guiados pelo criado, por salões de pé
alto enorme, afrescos nos tetos, mobiliário discreto mas cheio de história.
Afanados em seguir os passos claudicantes do criado não puderam perscrutar os
inúmeros quadros, certamente muito interessantes, oferecidos na montra das
paredes, nem a china blue por toda a parte. Sobrou o apreço pelo brilho dos
soalhos impecáveis, o aroma a cera e história, os ecos dos passos que se
convenceram por isso, de solenidade. O peso do respeito silenciou-os. Trocavam
aqueles olhares. O gato seguia-os com turrinhas infantis. No salão nobre foram
recebidos por seis gentlemans e suas esposas em traje green-party, com
elevação, sedutora entoação muito british e cocktails deliciosos e frescos. Após
o beberete, Mário ficou absorvido a escutar a conversa entre secretários que,
sem dissimulação, abordavam as orientações recentes do Foreign Office e
especulavam sobre a melhor estratégia, obscura e intriguista, face ao Egito.
Mário reparou no número do Times, ali na mesinha de apoio e sorriu!
Luísa, com o pretexto de seguir Jock, e lhe pedir as
confissões do embaixador - que lhas dava -, dirigiu-se para o adorável jardim.
Estendeu-se numa cadeirinha de tiras de madeira branca com almofadas bordadas,
com o Jock de imediato a apresentar-se no seu colo, e julgou ouvir uma voz
profunda, masculina, esmagada pela emoção, numa cadência de leitura:
"As roupas informais aconchegam-se-me à pele mumificada,
enquanto passeio no jardim contíguo ao palacete de Verão acompanhado pelo rumor
imaginário das vestes de Leila: volúvel como a sombra à direção incerta da
brisa; permeável ao contorno das ervas e árvores junto ao canal. Fui interrompido
pela alegria vivaz do cão Ramuk que me saltou para o peito e o esmagou até uma
dor abrupta se avivar. Senti os olhos humidecerem de gratidão – finalmente uma
clara sensação que contraria a tendência confusa e lúgubre do remorso que se
vem escavando sob os meus pés, como uma invasão assassina em conjuração nas
bases da minha existência. Pude, por momentos, sentir o aroma acre e forte da
vegetação junto ao canal pleno de vida, combinado com os lampejos incendiários
da superfície estrelada de insectos em intenso labor. Suspirei abrindo os
pulmões. O final de tarde captura de catadupa o piar chamativo das fêmeas do
urubu, as cores ocre-pastel do orlado deserto, quase adivinhadas, no horizonte
errático, vencidas por aromas de café e xerez: toques fugazes de essência que
só a memória pode apurar como um vinho delicado aberto após demorada maturação,
pelo seu autor... Perdoa-me Leila!..."
Luísa brandiu a pergunta: aonde está Ramuk? Sem perceber
porque o fazia. O gato olhou para um canteiro nu, num intervalo do canavial.
Aproximou-se e leu a inscrição: Farewell dear friend. I´ll miss you forever.
Mountolive."
OMNI5 ~ Seres raiz
Luísa tem tido pesadelos: relações que a confundem; deslumbramentos que acabam
em vertigens, em quedas de abismos. Estendida sobre a cama-cápsula medita um
pouco sobre o significado destes sonhos, afinal também entremeados com o transe
dos dias - de vez em quando apanha-se em ruminações românticas como se fosse
autora de um romance deceptivo, e às vezes, verte essas monadas da imaginação
em pequenos textos, poemas brancos ou histórias - mas isso está a parecer-lhe
já cacofónico e despropositado! De onde vem toda esta fantasia? Para que serve?
Ela não é escritora, definitivamente! Embora consuma, experimentalmente, um
romance por dia, via osmose, e ainda leia uma crónica da rede social de uma
querida amiga dotada para a escrita, enquanto toma o pequeno almoço
tradicional, que mantém na dimensão museu da sua vida. Para uma transição mais
suave de estilos de existir, o Centrório permite que cada ser raiz opte por
manter aspetos da sua vida anterior, na designada dimensão museu.
Mário tem insónias: - “é do calor”, pensa! Mas tem-se recordado de relações
passadas, umas prolongadas outras mal iniciadas - aparecem juntas nas estórias
oníricas. Ele não entende isso.
O mundo está em reboliço - todos os dias novidades, reformulações societais,
novas estruturas políticas, descobertas científicas, uma explosão de aplicações
tecnológicas, surtos epidémicos biológicos, informáticos ou da web social. Lá
vai o tempo em que web social eram os softwares para fazer contactos e propagar
ideias e opiniões. Hoje é uma tecnologia sofisticada, suportada por uma área
interdisciplinar e é o centro da política.
Os seres raiz não são mais seres humanos no sentido anterior do termo: têm
extensões cognitivas, musculares, emocionais e instâncias. A inteligência não é
mais individual, mas propriedade de redes.
As ciências humanas implodiram e recriaram-se com as amostras artificiais de
sujeitos: os estudos exponenciaram-se; qualquer sondagem é divulgada em tempo
real e altera a seguinte - é uma série, um fluxo permanente; a estatística pôde
evoluir (lá foi o tempo de ser descritiva), é plenamente causal e dá conta da
hipercomplexidade a que se chamava caos. A física e a quântica fundiram-se
finalmente. Os seres humanos, ou o que resta deles, são estudados ao ínfimo
pormenor em big data e inteligência artificial. Atualmente, as novidades provêm
dos estudos das relações intermundos, das redes web e das quânticas (antes
intuídas como morfogenéticas), das relações instanciais entre si e com os seres
raiz e o efeito das extensões nos mesmos.
OMNI6 ~ Alexandria
Em Alexandria, não conseguiram renunciar à tentação da
biblioteca: "O lugar da cura da alma", reza a lenda que era o
conteúdo de uma inscrição na Biblioteca de Alexandria.
Luísa e Mário reinstanciaram-se, desta vez após algum estudo
prévio e encomendaram a indumentária num teatro local. Foi assim que Luísa se
travestiu de homem para melhor poder acompanhar Mário e instalar-se entre os
sábios. O Centrório enviará um intérprete, que os acompanhará: todos sobre o
disfarce de sábios da Além-Gália, como ousaram inventar. Os seus nomes: Mário
era Apolónio; Luísa dava por Sater; e o guia era o Demétrio.
Nem a propósito acordaram no meio do movimentado refeitório
circular com um teto alto e abobadado: o ideal para passar despercebido na fase
de ambientação. O cheiro era intenso, mas curiosamente reconhecível na sua
forte componente de especiarias. Um burburinho entusiástico, mas constante,
denotava a elevação e o estímulo cultural dos comensais. Havia-os de todas as
idades, desde jovens mancebos até curtidos sábios. Emanavam uma juventude e uma
alegria que os contagiou. A sala era lindíssima. O guia foi buscar comida -
tomaram um protetor com a beberagem para contrabalançar as questões da sua
imunidade alienígena. Deleitaram-se com a refeição - o tempo não mudara assim tanto
a alimentação - que curioso! Ergueram-se cabisbaixos, para evitar contactos
paroxísticos, apesar de supostamente não poderem comunicar em grego clássico,
contavam com a cobertura do guia, para não evidenciarem desfasamentos no
protocolo cultural. O desafio era excessivo. Contavam ser muito breves.
Estavam na zona do Brucheion de Alexandria, no complexo
palaciano onde se situava o Museu (Mouseion, literalmente um templo às musas),
com numerosas salas de aula, albergue para a comunidade internacional de sábios:
estudiosos, poetas, filósofos e pesquisadores internacionais bem remunerados.
Aqui fazia-se pesquisa e lecionava-se, como numa moderna universidade.
Explica o nosso sábio Apolónio: "a Biblioteca inseria-se
neste espaço, onde se armazenavam os papiros, aos milhares, recolhidos
peregrinamente pelo mundo culto da altura, com total orçamentação pela geração
dos Ptolomeus, reis do Egito. A ideia de um culto às musas, a simbolizar o
estudo e a investigação científica, provém de Pitágoras e depois da morte de
Aristóteles, Teofrasto organiza no Liceu um Museiom, que foi o verdadeiro
predecessor do Museu de Alexandria."
Deslocaram-se para uma das três passagens que os levou a uma
sala comprida com colunas, em forma de odeão, repleta de estátuas de madeira,
representando litigantes a olhar para os juizes esculpidos ao longo de uma das
paredes, em número de trinta, sem mãos; mais ou menos ao meio estava o juiz
supremo com a verdade pendendo do pescoço e de olhos fechados, e no chão a seu
lado rolos amontoados. O aroma era exultante; o som dos seus passos revelava a
realidade da sua existência, da qual quase duvidavam. Não estavam preparados
para isto! Apressaram o passo para encurtar a experiência que os fazia
sentirem-se a desfalecer, pelo calor e pela força dos aromas desconhecidos, mas
arquetípicos. Sentiram os primeiros eflúvios da transcendência do ego, o que,
convenhamos, não era propício a uma experiência segura, pelo risco de
desencadear uma crise dissociativa. Comentaram em segredo entre eles os
sentimentos despertadores que os acometiam e precipitaram-se quase a correr
para um designado perípato circundado por vãos, ornamentados com relevos
representando alimentos. Ao longo do perípato distribuíam-se baixos-relevos
coloridos.
Chegaram à biblioteca sagrada, por cima da qual estava
escrito "lugar de cura da alma" - Ah sempre existe, ou melhor,
existiu! Imagens de divindades egípcias acompanhavam a sua saga até uma sala
sumptuosa com uma parede partilhada com a Biblioteca. Nessa sala havia um
conjunto de mesas com vinte triclínios, as estátuas de Zeus e de Hera e ainda a
do rei. Por um saguão, os três aventureiros do tempo puderam ver uma sala
hexagonal cheia de papiros. Era baixa e a vertigem dominou-os ao abordarem a
balaustrada, também ela muito abaixo do tamanho normal. Miraram incrédulos para
baixo, para cima, e não viram fim. Julgaram estar dentro de um jogo de
espelhos. Do lado de dentro da sala, duas minúsculas cabines, uma de cada lado
do saguão. Espreitaram uma delas e um cheiro nauseabundo atordoou-os,
fechando-se quase de imediato por reação. No cubículo do outro lado, sentado em
silêncio, estava um velho bonacheirão a olhar o vazio. Após alguns segundos
aperceberam-se dos seus esgares de cego. Borges? Titubeou Mário, o nosso
Apolónio. O velho esgarçou uma risada terrífica e fugiram a toda a velocidade,
solicitando assistência imediata ao Centrório para o término da experiência,
com Luísa, a Sater, a passarem mal, provavelmente da comida ou do surto
emocional pela perspetiva de entrar na biblioteca fractal, intemporal e
infinita do Borges! Foi demais! Vamos embora!"
OMNI7~ 1.ª Instâncias
A saga continua...Luísa Bósforo e Mário Aesth estavam já
satisfeitos - por agora - com Alexandria. Tinham estado no quarto dos amores
profanos de Kaváfis, o poeta da cidade, passeado pelas ruas da mítica
Alexandria do Quarteto de Durrell, foram recebidos na embaixada inglesa e até
se aventuraram na Biblioteca de Alexandria, na época clássica - onde tiveram
uma experiência radicalizante pelos desafios imunitários e pela fractalização
da "biblioteca" sugerida por José Luís Borges.
Por desejo de Mário iniciam uma outra aventura à altura
destes dois protagonistas multifacetados. Vão para Lisboa e Porto nos finais do
século XIX, em plena epidemia de peste bubónica.
Ela iria acompanhar, por uma semana, a menina Luisinha
Pestana, filha do médico e investigador Luís de Câmara Pestana, e ele,
dirigir-se-ia na Mala Posta, para o Porto. Mário fora sensível e compreensivo.
Ele era também isso. Oferecera-se para ser ele a fazer a longa e torturante
viagem, poupando-a. Decidiram, por isso, fazer o "despertar" na
cidade de Lisboa. Um primeiro guia de apoio enviado pelo Centrório instalou-se
num hotel próximo de Luísa e o segundo acompanhou Mário na viagem. Luísa
Bósforo ficou na casa de Luisinha e da sua avó, a Sra D. Helena.
Mário tinha um fundo frio e psicopático, mas numa versão
amenizada trabalhada pela mãe, com algum requinte burguês, que lhe dava uma
ambiçãozinha aristocrática, que mal disfarçava. Com frequência necessitava
recolher-se, quase monástico, para reconciliar os fragmentos de si,
desconjuntados e subjugar à racionalidade as suas tendência egoístas,
refletindo nas reações em espelho dos outros à sua imensa frieza e
desconcertante desumanidade. Condensava então essas tendência em ideologias
políticas, racionalizando e libertando-se delas no quotidiano. Era como pô-las
num livro. Frequentemente escrevia-as para si mesmo, raramente em peças de
opinião em jornais de afinidade política. Mas isso era o Mário raiz. A sua
instância fora submetida a terapia intensiva, estão recordados?!
A casa da família Pestana ficava perto do Martim Moniz e do
Hospital de S. José, aonde estava Luís de Câmara Pestana agonizante. Fora
contaminado no Porto pela peste. Dizem que usava estes últimos dias para garantir
que os seus estudos sobre a peste e outras doenças infecciosas tivessem
continuidade, ao mesmo tempo que procurava não contaminar os colegas de
profissão que o cuidavam, ou quem o visitava. Conta-se que teve uma visita de
monta: nada menos que El-rei D. Carlos, que muito apreço lhe tinha.
Hoje, Luísa Bósforo acompanha Luisinha Pestana na sua visita
diária ao pai Luís, como lhe chamava. Enquanto avançam pelos passeios
lisboetas, a mais nova conta que a mãe falecera no parto, pelo menos era isso
que lhe contavam e que tinha sido criada pelo pai e pela avó, que viera da
Madeira para esse propósito. Faziam uma vida de recato, embora mantendo um
minimalismo social: ópera, música de salão, receções, especialmente literárias,
livrarias e pouco mais. Luisinha vestia com muita decência, padrões ecléticos,
em tons suaves e neutros, com retoques breves de classe, como uma bolsinha ou
um chapéu parisienses, lindíssimos. De resto era sóbria e muito pálida.
Ali avançava ela de sombrinha em riste, a mascar uma folha de
hortelã, não só pelo hálito, mas para afrontar os maus-cheiros da cidade, não
obstante a melhoria no outono, de passo sereno e confiante, até alcançar a
fonte, onde confirmava pelo desenho da sombra na calçada se era a hora certa,
e, dali mesmo em frente à janela do quarto do pai, acenava com o lenço de seda
branco perfumado ao espectro que se deixava ver por entre os reflexos das
vidraças da janela. Uma lágrima diária descia até à comissura do lábio onde era
consumida. A cena não durava mais do que um minuto. De seguida ela retomava o
caminho, na compostura habitual e descia a rua retornando à conversa que lhes
animara a manhã, pudicamente evitando falar sobre a doença do pai que enfrenta
com admirável resignação.
Luisinha tinha uma educação cuidada, em casa, por
perceptores. A sua predileção ia para as ciências e para a matemática.
Deliciava-se com Fermat e o seu amadorismo apaixonado, com o qual se
identificava. Pela conversa da jovem, Luísa Bósforo apercebeu-se do fervilhar
cultural da época, não só nas cidades de Lisboa e Porto, como pela Europa.
Luisinha era admiradora das sociedades cultas, das tertúlias e clubes. Falou
com entusiasmo de Berlim e Zurique para exemplificar. Referiu-se a Lou
Andreas-Salomé e a Carl Jung, para grande surpresa de Luísa!
Ao almoço sentavam-se junto ao varandim, de janela aberta, à
volta de uma mesinha de pé de galo, a saborear os petiscos feitos pelos
criados, mais uns pastéis que os vendedores porta-a-porta traziam. E traziam
também o peixe, o pão, a água, a fruta, tudo com pregões musicais
inextrincáveis, que Luisinha, sorrindo, traduzia para Luísa Bósforo. Estava
muito animada por tê-la por interlocutora e tão desejosa de falar que nem lhe
fazia perguntas. Luísa agradecia no seu íntimo. Tinha umas estórias preparadas
para lhe contar, mas preferia ser o mais sincera possível. Afinal a carência da
garota ajudava-a. Dali do posto do almoço, fruíam da sombra da árvore frondosa,
da música dos pássaros misturada com o burburinho da feira da hora de almoço, o
relinchar dos cavalos de transporte, os gritos orientadores dos seus condutores.
Os criados, com frequência, serviam um jarro de água sobre as
mãos numas bacias pequenas que traziam, que eram depois enxutas, delicadamente,
em toalhetes bordados e perfumados com aroma floral. Parecia uma dança
coreografada em graciosidade. Luísa sorria sereníssima. Era encantadora.
No final da refeição convidava Luísa Bósforo para uma
ginginha feita por D. Helena, que estava fora em ações de caridade, e dava-lhe
uma lição de uso de canapé, rindo deliciada com o ar desconsolado de Luísa.
Estavam a ficar amigas! Aqui Luisinha ganhou coragem para falar do pai Luís,
com orgulho da sua dedicação e do trabalho científico com Pasteur, em Paris, do
apreço do Rei D. Carlos, que o visitara há uns dias no hospital. Luísa teve que
se mostrar virgem ao assunto.
Luisinha acabou de convidar a sua visita para a acompanhar no
dia seguinte à Golegã. Iria mandar fazer uns retratos ao grande Carlos Relvas,
que, dizia, tinha estado a apresentar o seu trabalho na Grande Exposição
Internacional, em Paris, e assistira à inauguração da célebreTorre Eiffel.
No dia seguinte saíram de madrugada. Afinal fazer 100 km em
falua e galeche não é brincadeira. Quando chegaram, foram recebidas com um
recital dado por um dos afilhados do Sr. Carlos, num piano recém comprado,
enquanto se deliciavam com um lanche avantajado oferecido pelo casal. Depois
subiram pela escada de caracol, perfeitamente encerada, até ao salão estúdio,
que era afinal uma grande galeria, com a fachada a nascente completamente
envidraçada: paredes e telhado, assente numa estrutura de ferro. Um sistema de
cordas permitia deslizar longos cortinados, de modo a regular a luz. Divertida,
Luisinha dirigia-se para uma carroça sem rodas no meio do estúdio e disse: - “Veja! É aqui que vamos fazer a foto, nós três, eu a Sra. e o miúdo do piano. Vamos
fazer como aqui” - e mostra a gravura de Lou Andreas-Salomé com Nietzsche e
Paulo Rée. Luísa ia desfalecendo, mas depois libertou-se numa risada ímpar e
convulsiva. Contagiou todos, que se apressaram a imitar os três estranhos
personagens naquela pose erótica e cómica.
Enquanto Carlos foi preparar os químicos para a revelação, os
restantes deliciaram-se com refrescos no jardim elegante, à sombra de uns
álamos, embalados por mais umas peças de piano vindas aos tombos com a brisa e
as longas cortinas, até eles.
Tiveram, entretanto, que regressar, pois esperava-as uma
longa viagem. Quando chegaram, D. Helena, com ar muito consternado, avisou-as
do sucedido: Luís, o seu querido filho, o pai Luís da Luisinha, tinha sucumbido
e não podia haver funeral devido à peste. Luisinha recebeu a notícia com muita
dignidade, libertando um rio de lágrimas que não acompanhou em lamentos. Depois
de repousar um pouco, ajudou a avó na decoração fúnebre da casa para receber
amigos e familiares no velório simbólico. Luísa retirou-se para o seu quarto,
até que Luisinha a surpreendeu com um bilhete. Pedia-lhe para a substituir
naquele evento que já não poderia ir: era uma ópera em D. Maria, à qual a
família real também ia - portanto o rei D. Carlos. E assim, dois dias depois,
lá estava Luísa a absorver uma ópera do séc. XIX e a fisgar o rei D. Carlos e
sua comitiva por entre engraçados binóculos.
OMNI8 ~ Encontro das
Raízes
Passados tantos anos, Luísa e Mário voltaram ao último bar, à beira-rio, para
um dos encontros organizados pelo Centrório.
Luísa encontrou um Mário de olhar vazio e iniciou, de imediato, uma conversa
ensaística, seguramente despropositada, mas a possível para disfarçar a
angústia, o sobressalto do desejo, a vontade de se afogar em lágrimas e de o
derrubar daquele pedestal de arrogânica e frieza.
"Não somos pessoas Mário. Não como acreditávamos ser. Corremos programas
no nosso modo físico e digital e ressoamos no modo quântico. Naquele breve
tempo em que nos contactámos corremos programas. Tu eras obcecado com a
progressão social à qual subordinavas tudo. Amizades, profissão, família,
habitação, hábitos culturais - tudo era feito, escolhido e valorizado de acordo
com o teu programa de ascensão social, que no caso era imitar a aristocracia,
ou pelo menos, adquirir um estatuto já validado, idealmente bem consolidado e
tradicional, se possível. Como compensação permitias-te - sempre em sobressalto
e com arrependimento antecipado - algum aventureirismo.
Eu corria o programa da metamorfose, da aprendizagem continua, da idealização
do ego. Após o toque afetivo, que permeou entretanto a nossa parca relação,
desencadeou-se o programa "amigos" em competição com o de "amor
romântico", e ainda um outro de "amor sábio" à espreita, como
possibilidade de síntese dos dois primeiros. Naturalmente, os nossos programas
e as nossas realidades desencaixavam, "excepto na aventura", pensaste
tu; eu discordei. Mas, o estado quântico de completude entretanto criado, como
uma dinâmica extra-linear, revolucionou a consciência -, do meu lado, claro. Do
teu, foi menos que um corte por uma folha de papel: alguns dia e sarou. Nem
mais pensaste no assunto com dedicação e zelo, creio - produziram-se os
químicos consonantes, os sentimentos e toda a qualia correspondente. Nada de
especial: banalidades - foi o que pensaste!
Onde quero chegar? A instanciação já existia nessa altura, mas a sociedade
tinha criado ao longo dos séc. a ideia de personalidade e de pessoa, que
ajudava a aceitar a projeção social em cada indivíduo. É uma fantasia
narrativa, uma história, uma ficção se quiseres. Vivemos numa matriz, sim. Não
somos pessoas, somos hardware biológico, digital e quântico parcialmente
sobreposto com os seus processamentos típicos. Somos, além disso, uma
coletividade, um enorme enxame com muitas subdivisões, que flui no espaço-tempo
físico e no mundo quântico. É muito. Mas cada um de nós é pouco importante:
apenas uma história 3D num tempo linear. Essa é a ilusão. Depois há isto, este
mundo hipercomplexo de instanciações e de raiz (que, no fundo, não passa de
outra instância também).
Uma nota. Deves ter achado infantil que se contratassem especialistas e
leitores fanáticos de literatura para desenvolvimento científico. Pois, tem
tudo a ver com o que te disse há pouco. O processo de instanciações estava já
intuído em muitos saberes embebidos nas páginas literárias. Esse é na nossa
área funcional, como sabes, no trabalho para o Centrório. Outros exploram a
intuição dos sistemas espirituais e religiosos, por exemplo. A nova ciência é
realmente eclética. Não sei se estás a par da integração de todas as
especialidades e áreas disciplinares?!...
A virtualização das amostras humanas e das outras: clima, floresta, universo,
etc - permitiu acelerar a produção de conhecimento de forma inaudita. Mas o que
eu gostaria ainda de debater contigo - em homenagem ao nosso jeitinho
especulativo ideológico -, era o modo como a política evoluiu, assim como a
estruturação da sociedade. Mas talvez não possamos já retomar os nossos
diálogos... Talvez a trama de conexões quânticas, não-lo permita mais..."
Mário manteve um ar inquisitivo e uma expressão de estranheza durante toda a
audição. Esforçou-se por não interromper. Sorveu um último gole do extenso gim
e disse estar sem mais tempo: tinha uma urgência para fazer. E foi-se!
OMNI ~1ª Instanciação
Paris, 2019
Chegados a Paris em agosto de 2019 à beira da
noite, esperava-nos um jantar frugal, ali mesmo, no hotel onde ficámos
instalados. Tínhamos urgência na 2º instanciação, pelo que a fizemos logo após
a ocupação dos quartos. Depois, passeámos um pouco pelas ruas da cidade. Na
manhã seguinte entretivémo-nos a fazer algum turismo e, ao chegar ao hotel,
esperava-nos um relatório do OMNI, revelador de um sentido de humor
inesperado!
Relatório OMNI:
"Estavam a passar sobre le Pont Neuf, quando sentiram um extremo
arrepio de pele! O seu amor tinha comunalidades extraordinárias e
intensas, frugais e espásticas! Juntos eram delírio e projétil de emoções
explosivas!
Tinham já imaginado aquela viagem, subliminarmente, num ramo ou dois das suas
conversas infinitas, mas agora, estavam a fazê-la, corajosos e impúdicos, nada
os impediria desta aventura sensorial folie-à-deux!
À noite abraçavam-se à janela, embevecendo o olhar na Paris de luz palpitante e
estelar. Depois, ao acaso, calcorreavam as ruas de Montmartre e Pigalle,
bebendo goles de álcool repartidos com beijos voluptuosos; dançavam na rua, de
mãos dadas, num vai-vem de concertina e cantavam Aznavour. Luísa declamou Paul
Elouard quando a moinha lhes colou a pele à roupa. Il pleut, c'est merveieux, je t'aime...e comme ça ... Et La Vie en Rose! Lembras-te?! -
perguntava Mário.
Sisudos e hirtos, já madrugada, segredavam com as mãos por recantos do outro
ainda intactos; tremiam os lábios junto ao bafo, ao alento e à humidade
quentes, que tresloucam! Lá Boheme! Je t´aime!- repetiam um ao outro.
Ao correr do Sena ou por quarteirões onde o frémito do desejo da cidade-luz se
adensava, fizeram cinema! E prometeram no dia seguinte comer bom-bons no
café Brousseau, depois da noite cansada, revista e revirada de beijos e
estertores ao som de Zaz: au lendemain de nos adieux, dans les chemins da ma
vrait vie...! Qué vendrá? Si jamais j' oublie! etc."
Rimo-nos divertidos, com esta zombaria pseudoliterária do atrevido OMNI, mas
foi com muita curiosidade que nos debruçámos nos dias seguintes nos relatórios
das viagens, por se tratar de uma experiência piloto: viagens em tempo circular
ou paradoxal - simultaneamente ao passado e ao futuro.
OMNI 10 ~2ª instanciação
Paris, 1916
Encontramo-nos no Curso Désir com a menina Simone de Beauvoir, aonde
levamos Robbie para uma experiência piloto. Robbie, em homenagem ao primeiro
Robot babby-sitter, da US Robots, era agora uma gentil menina, em nada
diferente em aparência de qualquer garota do início do séc. XX.
Apresentámo-nos como tutores da "criança". Pretendíamos colocá-la num
ambiente prodigioso junto com a menina Simone, sua irmã e a amiga Zaza, entre
outras crianças. O nosso alvo era evidentemente Simone. Através do Centrório
acediamos a aconselhamento com a instanciação da primeira robopsicóloga, Dra.
U. S. Calvin.
" Esperaram que Mademoiselle entrasse e desse início à lição. Robbie foi
apresentada à classe. Tinha estado a ter aulas em casa, numa quinta marselhesa.
Simone ficou curiosa com a sua nova colega de carteira e trocou olhares
cúmplices com a melhor amiga Zaza.
Robbie mostrava-se capaz de prodígios intelectuais e estava entre as melhores
alunas da classe. Rapidamente foi integrada no circuito de amizades de Simone e
Zaza, que incluía os irmãos de ambas. Começou a frequentar a rua Varrene da
família Mabille, que para além do pai e da mãe de Zaza, incluía uma irmã mais
velha, um irmão grande, seis irmãos e irmãs mais jovens que ela e um chorrilho
de primos e amiguinhos. Robbie conquistou a mãe Mabille imitando Zaza com a mãe
de Simone, chamando-a de “Petite Madame” e dizendo-lhe que parecia minha irmã
mais velha da filha - o que a deleitou.
As três garotas gostavam de conversar sossegadamente no escritório do M.
Mabille, pai de Zaza, longe do tumulto. Era para elas um prazer inédito, com
laivos de interdito: tinham conversas de verdade como as entre marido e
mulher à noite. Conversavam sobre os estudos, leituras, camaradas, professores
e sobre o que sabiam do mundo. Não sobre elas mesmas, até aparecer Robbie e com
ela as confidências. Foi com Robbie que o mundo se lhes revelou, a vida como
ela era para os adultos: a política, o dinheiro e o sexo. Criaram um jornal de
brincar: Crónicas da Vida e, nele, vertiam as opiniões e rasas sabedorias inocentes.
Robbie subiu a conversa de nível e confessou o seu extraordinário segredo: não
era afinal menina; também não era menino; era uma máquina, em corpo feminino. A
sua avidez de conhecer sensações humanas levara Robbie a vários jogos e
brincadeiras envolvendo carícias, deixando as crianças muito curiosas e
perplexas. Madame Mabille acabou por apanhar a garotada nestas experiências e
expulsou Robbie das relações dos filhos, não sem antes alertar Mademoiselle.
Robbie em breve deixou de aparecer no Curso Desir. Madame Luise Bósforo foi
alertada, em estado de consternação, pela docente e de imediato enviou Robbie
para estudos com a Drª Susan Calvin, robopsicóloga do Centrório. A experiência
parecia ter sido um fracasso".
Luísa Bósforo, 2019, Paris, está a começar a ler o livro de Simone Beauvoir: O
3º Sexo, comentando com Mário a curiosa antecipação da teoria de género feita
pela intelectual. Mário emendou-a; - “queres dizer, o 2º Sexo!" E sorriu
irónico. – “Não", retorquiu Luísa, olha, e mostrou-lhe a capa do livro.
Ficaram os dois com um ar estupefacto, deram-se um tempo para emprestar algum
sentido ao equívoco - ficaram em silêncio e trocaram depois, aquele seu
entreolhar cúmplice. O presente tinha sido alterado pela viagem ao passado:
acontecera o paradoxo. Estariam numa realidade paralela? Ainda bem que não eram
eles os cientistas para dar conta daquele imbróglio!
Interlúdio na Bretanha
Omni10
Luísa Bósforo sentiu uma vontade súbita de viajar ao encontro
de Gauguin em Pont-Aven, na Bretanha de 1888. Pediu uns dias, dois ou três, sem
justificação. Contra a sua expetativa, criou-se um incidente ao nível do
Centrório. O motivo, desconhecido por Luísa, estava na coincidência do súbito
desejo com um interesse recente que Mário raiz evidenciara. Como Luísa raiz o
soubera, não era motivo de conjectura. Porém, tratava-se da primeira instância,
despertada desde há alguns meses atrás, antes da viagem para Katmandu. Ora,
como poderia a raiz ter influenciado a instância? Teriam raiz e instância
contactado entre si contra as orientações? Haveria algum processo desconhecido
envolvido? Será que através de ressonância mórfica ou algum processo quântico
seria possível instâncias passarem memórias, expetativas ou outros processos e
produtos mentais com as raízes? Até onde nos levaria tal possibilidade? Luísa
recebeu a autorização, após alguns dias de espera, o que considerou estranho,
pois desconhecia o motivo.
Interlúdio na Bretanha - Encontro com Eugène
Em meados de outubro a Bretanha começa a ter um tempo
cinzento e desbotado, mas naquele ano de 1888 os dias solarengos estenderam-se
por mais umas semanas.
Em Pont-Aven, madame Marie Jeanne Gloanec jubilava com o
retorno dos seus hóspedes especiais - os pintores -, particularmente Eugène,
que regressara após dois anos. Émile Bernard e Paul Serusier partilhavam um
quartinho pequeno na Pension Gloanec, conhecida pelos preços acessíveis ou
mesmo dispensa de pagamento pela compreensiva proprietária. Eram os tempos de
fuga, em que os artistas abandonavam a cidade de Paris com as suas referências
culturais... este grupo "bretão" rebelava-se contra o impressionismo
e, em intensa tertúlia e experimentalismo, criava novos conceitos artísticos.
Daqui surgiu o movimento Les Nabis e o sincretismo. Naqueles dias, Luísa foi
também recebida por madame Gloanec, que se lhe apresentou como uma mulher
prática, sem simpatias desmesuradas ao primeiro contacto. Atribuiu-lhe um
cómodo pequeno e muito humilde. A higiene era aterradora. Sem água canalizada,
era feita em bacios e vasos, com a água vertida de vasilhas. O cheiro era
campestre. Por todo o lado o odor de animais. Luísa jantou ali mesmo na maison,
uma comida aguada, com aroma estranhíssimo que se entranhava na roupa. A
cozinha era feita por madame Roulle. Ela permitia aos hóspedes um tour à
descrição para pedir petiscos e iguarias ou simplesmente conversar. Tudo na
casa sinalizava uma tranquila transgressão. Até a permissão de visitas
especiais.
As paredes estavam repletas de pequenos óleos de acabamento
duvidoso. Não seria de admirar que voltassem ao retoque. As tintas, cavaletes e
pincéis acamavam-se pelos cantos.
Na cozinha, as panelas de todos os tamanhos pendiam em
cascata desde o teto e o fogão oferecia um aroma a lenha muito agradável.
Roulle servia com orgulho uma sopa soberba, com carnes e ervas aromáticas.
Após a noite mal dormida, Luísa, fez questão de acordar bem
cedo. Tal como previra, Gauguin era madrugador, consequência das
responsabilidades profissionais que tivera anteriormente. Mais maduro que os
outros pintores, Gauguin andava entusiasmado com Paul Serusier a quem dava
aulas ou tutoria, - assim o partilhava agora com Luísa, na cozinha de Roulle,
enquanto comiam uma mistela saborosa como primeira refeição ao som dos galos e
das primeiras hordas de ovelhas para a pastagem - uma chuva de sinetas. Gauguin
ofereceu-se para mostrar o bosque aonde pintam habitualmente - Bosque D' Amour
- e demorou-se a explicar as suas ideias para uma nova arte desempoeirada
da tirania da luz. Queria contornos, queria desenho, planura, queria expressar
sentimentos e ideias e não ser mero recipiente passivo. Falou das estampas
japonesas, de um estilo mais puro, menos retratista, menos vencido pela luz,
mais - diríamos hoje -, conceitual, sintético, entre o desenho e a
pintura. Gauguin era um homem muito afável, que gostava de conversar; pareceu
um pouco paternalista até. Luísa sentiu vontade de se tornar sua discípula, mas
apercebeu-se que, afinal, pintar era coisa de homens, mesmo aos olhos do diferenciado
Gauguin. -" Porquê?", questionou-se interiormente Luísa, sem ousar
ferir a sensibilidade do interlocutor ou levantar suspeitas sobre si... outra
sorte tivera Paul Serusier- Luísa pôde apreciar o seu mais recente pequeno
quadro a óleo sobre madeira, tutorado por Eugène, enquanto o grupo de pintores
sugeria possíveis títulos - escolheram por fim: o talismã! No dia
seguinte Luísa regressou a Paris onde se reencontrou com Mário e se
desinstanciaram temporariamente.
Mensagem de Luísa Bósforo a Mário Aesth,
nas versões raízes. Tempos atuais.
Tomamos o individualismo como realidade. Não o é. Tu e eu demos mostra de
potencialidades de influência recíproca, em modo diapasão, que nos permitem
aspirar a algumas experiências de transcendência ontológica, do individual a um
espaço comum de participação. Não sei ainda se só de nós dois, ou comum a mais
gente ou seres, mas acredito que é isso mesmo. Intuo-o.
Para além do jardim maravilhoso a que teremos acesso, o sentido de missão
diz-me que poderemos trazer algo de importante à humanidade, deixando o vivido
em modo de transcendência permear as nossas invenções, onde elas se ousarem
expressar: ciência, opinião, literatura..., e mais ainda, aumentar o património
de memória da humanidade, possivelmente ingressado nos campos de ressonância
mórfica ou afins, ainda não se sabe, embora haja vários sinais da sua
existência. Lembro-me de Rilke, o poeta alemão, no-lo dizer nas suas Cartas a
um Jovem Poeta.
Já sabias que a realidade era a ilusão - não te assustes, portanto - a fórmula
de entrada é simples: o amor, ainda que em variadas expressões, mas
possivelmente a mais potente envolva os químicos do amor físico.
Não me estranhes, nem me tomes por louca. Sabes que sou - somos os dois - feita
dessa matéria que levou muitos à fogueira, ao escrutínio, à delação, ao
confinamento, à prisão e à tortura... sabes como os nossos pensares se
constituem perigo percecionado pelos normalizadores, usurpadores de direitos e
poderes, pelos domesticadores de humanos. Sabes como somos inventores, sem
sermos super ou sobre humanos. Somos só humanos conscientes. Meu querido Mário,
não fujas, não obliteres esta experiência, não sufoques esta lava que vem da noosfera
dos seres. Deixa que se misturem as duas essências que em ti e em mim vibram.
Por nós e pela humanidade! Porque a morte tem-nos de encomenda, e não falta
muito. Só ficarão essas instâncias por aí perdidas, em romances, em memórias
dos outros, explícitas ou no coletivo inconsciente, massificado, pecando na
indiferenciação - como sabes! Se as vivermos e de seguida as incluirmos ou
explicitarmos em projecto humanos, damos-lhe a vida que merecem e validamos
através disso também a nossa existência. Espero que tenhas compreendido o que
quis dizer, que é tão codificado, mas de certo modo, é a nossa linguagem já
experimentada. Acredito que entendes. Difícil será venceres o medo."
Luísa Bósforo ~1ª instanciação
Pediste-me, Mário, que te esclarecesse como foi vencido o cancro após a
distopia tecnológica, a singularidade, dado que ficaste em coma e recuperaste
grande parte do conhecimento por osmose, mas não todo. Aqui vai.
Afinal era mais simples do que se pensava. Recordas que em 2019 não se sabia
como se especializavam as células em tecidos, em órgãos, etc., nem porque o
sistema imunitário reagia em excesso uma vezes, provocando doenças autoimunes e
noutras vezes relaxava a vigilância, permitindo, por exemplo, o desenvolvimento
do cancro. Foi assumido que o humano tem pelo menos dois fenótipos: o corpo,
com a sua diferenciação em órgãos, tecidos... e o fenótipo unicelular, a que se
chamava a doença do cancro. Num golpe foi descoberta o funcionamento da
autopoiética (lembras-te de Maturana e Varela?) que levava à especialização dos
tecidos a partir das células germinativas (unicelulares) e a cura para o cancro
(fenótipo unicelular) e para as autoimunes e deficiências de desenvolvimento -
na verdade descobriu-se que o sistema imunitário tem um mapa topográfico de
permissões, uma espécie de molde do corpo. Este mapa faz parte de um sistema de
controlo com qualidades de conscientização (embora sem legibilidade pela mente
humana), que julga, aprende, decide e que funciona de modo descentralizado -
portanto não topográfico - e em modalidade quântica. Após a compreensão do
fenómeno, uma intensa investigação conseguiu reprogramar o sistema imunitário -
na verdade atualmente consegue-se a leitura tecnológica do sistema e a gestão
do mesmo, embora geralmente em modo semiautomático. Foi maravilhoso. Estou
muito contente de poder partilhar este avanço contigo.
Já reparaste que não temos apenas um sistema consciente, mas vários? Foi
necessário assumir que havia consciência em função de um referencial. Por
exemplo, o primeiro sistema a ser conhecido era consciente intuitivamente
através da nossa perceção subjetiva. No entanto, outros sistemas conscientes e
inteligentes existem nos indivíduos e também em conjuntos (constelações) de
indivíduos, intuída por Sheldrake (do nosso tempo, recordas-te?) como Campos de
Ressonância Morfogenética, ou ainda por místicos teosóficos como Helena
Blavatsky que acedia a bibliotecas de modo telepático, etc.
Ah! E para acabar em beleza, sabes que o fenótipo unicelular é que é enviado
para as colonizações extra espaciais, havendo já prova de que foi assim que a
Terra foi colonizada. Já percebeste que o mesmo se passa com outras espécies! É
que na versão unicelular, o fenótipo é muito mais resistente à radiação. Ainda
assim, frágil o suficiente para o fenómeno ser raro.
Gosto muito de ti Mário! Espero que estejamos juntos brevemente, no passado ou
no futuro. Sempre em instanciação, claro, face à impossibilidade da nossa
relação no mundo "real- raiz".