INTERMUNDOS

INTERMUNDOS 1


Apresentação


Mário Aesth e Luísa Bósforo vivem em Portugal num ambiente de pós-singularidade tecnológica, mantendo uma relação frugal e ambígua entre si. Aceitam participar em experiências científicas que se desenvolvem ao longo de viagens míticas pelo Mundo e pela história real ou ficcionada em romances ou livros de viagens. Na verdade não são Luísa, nem Mário, mas as suas instâncias que viajam - uma clonagem que inclui a experiência vivida até ao momento da separação entre o ser original, chamado de raiz, e a sua instância. A fractalização acontece quando se possibilita a reinstanciação sem limite: cada uma pode dar origem a outras. A trama das relações entre instâncias, a complexidade do espaço-tempo, a nova ciência que incorpora as artes, ciências físicas, sociais e humanidades favorece um novo despontar da humanidade. Luísa e Mário protagonizam, além disso, a sua própria história em possibilidades que apenas acontecem nas vidas não-lineares.

Nós em Katmandu

 

(Narração de Luísa

Tempo – 2019)

Sei que te atraí por engano. Pensei que ela estaria por cá. Viemos numa vertigem. Cá estamos. Acabados de chegar. Moídos. Espreito de soslaio. Estás atraente com a tua barbicha grisalha e o olhar esbugalhado que te é peculiar emoldurado pelas elipses dos aros, quase à Lennon. Não deixo que percebas, uso os reflexos dos meus óculos de aviador. Vamos ao encontro do João, o organizador do trekking. É comovente porque não nos vemos desde a adolescência, da minha, porque ele era pouco mais que criança. Afinal a Suse está em Lhasa, não em Lothse, como me confundi. Mas tu estás animado. Vejo-o naquele esgar interdito. Mrs Kelly foi-nos recomendada como anfitriã. Os traços british, a pele outrora pálida e frágil engrossou corroída pelo clima e a idade. Encanta-nos com aquele toque snob que lhe dá uma réstia de administradora do Império, uma altivez aristocrática. Levou-nos afinal, não para o seu alojamento, mas para um lodge local, negócio de um sherpa empreendedor. Deixamos a bagagem por abrir e fugimos para a rua sequiosos de Katmandu. O bulício atordoa com os aromas, a estridência das cores, os objetos peculiares, o linguarejar alienígena, os reclamos artesanais, os improváveis transportes, os desenrascanços, o fulgor das motas. Sorrimo-nos cúmplices. Afinal é isso que nós somos: cúmplices! Vamos em ziguezague para fugir à multidão; muitas vezes nos chocamos e acariciamos sorrateiros as mãos perdidas nos gestos, sem querermos mais nada. Temos tudo: assim.
Entrámos num café british. Somos covardes ainda para enfrentar a imersão total... Bebemos um whisky - que tontos! Vogamos pelas ruas metendo o nariz aleatoriamente nas lojas de souvenirs. Enfadados, partimos para o Stupa. Fixamos o olhar duvidoso de Buda. Observamos de nariz no ar as orações em papel colorido dependuradas nos cabos, a lembrar as festas de Santos Populares. Será que se relacionam? Os sinos de chamar deus, as rodas de rezar... Comentamos os apontamentos arquitetónicos...Chega o João, com o seu ar tisnado como sempre o conheci. Tive vontade de lhe perguntar se ainda usava a pesada cruz ao peito, amuleto na pré puberdade. Mas tive compostura. Tu sempre com ar gentil e educado. És muito bem posto. Sabes que eu às vezes parto a loiça. Há muita incompatibilidade entre as nossas posturas no mundo, e no entanto, algo nos magnetiza em superlativo. O João apresentou-nos o chefe dos carregadores, trocámos números de telemóvel. Desenrasca-se com o inglês, Thanks Buda! Temos a lista de equipamento e haveres, no fundo tudo tratado pelo ágil organizador. Jantamos uma mistela para turista e regressamos cedo ao lodge...
Amanhã iniciamos a subida ao Campo Base. Vamos num trekking de acompanhamento de himalaístas.
Dirigimo-nos ao hotel do João ainda a tempo de o ouvir contar que acabou de chegar de Kang Tang, a zona norte de Katmandu onde penetrara o Tibete sem formalidades. Ficaste muito interessado. Afinal a Suse está por lá. Talvez queiras também ir. Fá-lo-ás sem mim. Por ora não estou segura o suficiente para nos reenquadrar numa relação múltipla. Talvez aproveite para visitar o mosteiro do filho do sherpa que nos aluga o lodge. Preciso recolher algumas informações: um certo mantra, uma determinada mandala, terão os códigos que procuro. Não estou certa, porém.
Partimos para as montanhas em dois minibus na direção de Chillas e da famosa karakourum Highway. A paisagem vai-se tornando escarpada e a estrada estreita. Cruzamo-nos com vestígios de acidentes por deslizamento de terras, provavelmente devido a avalanches. Percebo que sorris para dentro com alguma perversidade. Sei que és assim: uma conquista ética da humanidade. Às vezes com reminiscências da tua raiz, mas capaz de reconhecer e corrigir. Nunca consegui explicar esta dualidade. Nem à minha mãe que me entende no além. Após treze horas de viagem dormimos em Chillas. Apesar do cansaço estávamos estimulados. Encontramo-nos como é costume. É sempre inolvidável. E acabamos como é comum a dormir recatados e satisfeitos cada um na sua cama, sem sobressaltos, nem desejos remanescentes. De manhã retomamos a estrada. Estamos rodeados de montanhas por todos os lados. Avistamos o Nanga Parbat. A estrada cada vez mais estreita e inclinada, os vales verdejantes e luxuriosos. Estamos cansados. Dividimo-nos por jeeps e prosseguimos viagem. Após alguns dias de trekking chegamos ao Campo Base e juntamo-nos na tenda-messe com os himalaístas. Um lugar mítico pelo simbolismo, mas desagradável, sujo e inóspito. Fazemos a viagem de regresso. Está decidido. Irás com o João no regresso ao Tibete e eu sigo para o mosteiro.

Descansamos uns dias antes de partirmos, tu para o Tibete via Kang Tang com o João e eu para a via mística do mosteiro. Por estes dias, para além de sentirmos com calma o pulsar da cidade e nos deliciarmos nos restaurantes de referência local, menos turísticos, fazemos algumas viagens nos arredores de Katmandu e aproveitamos para conversar e namorar ao nosso jeito. É necessário socializar-te na missão, aos poucos. É complicado explicar tudo de rompante. Irás percebendo. Claro que a nossa relação acabou por ser um fator de escolha, mas foi a tua matriz cultural que te deu lugar de candidato. A tua finura analítica, a capacidade de aprofundar qualquer assunto, a clareza racional temperada por uma sintonia emocional fina. Enfim. És o meu poeta racional. Serves amiúde de estímulo e diapasão para colaboradores como eu, na missão. A mim, isso dá-me um particular prazer. Tive que advogar a teu favor. Estavas mal estruturado, complexado socialmente, em luta interna permanente pela ascensão, a modelagem e a colagem dominavam a tua vida; uma economia distorcida nas relações. Tive que puxar dos meus galardões, e tinha alguns, para te garantir a terapia intensiva com inteligência artificial. Resultou muito bem. Foi instantânea. Algo inimaginável há uns anos atrás. Nem terias tempo de vida para fazeres o trabalho de melhoria equivalente. Puseste algumas condições no contrato de participação na missão. Por exemplo, todo o material da terapia seria apagado; sempre que fosses instanciado, manterias a possibilidade de recordar os acontecimentos; a tua raiz teria sempre supremacia sobre as instâncias - inspiraste-te nas três regras da robótica da obra I Robot, do escritor Isac Asimov, com a relação raiz-instâncias decalcada a partir da aplicada a humanos e robôs, e foste nisso uma inspiração para futuros contratos. Concordámos. Ficou com este articulado:
1ª Lei: Uma instância não pode prejudicar a sua raiz ou, por inação, permitir que ela sofra algum mal.
2ª Lei: Uma instância deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres raiz exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
3ª Lei: Uma instância deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.
Ainda há a lei suprema, ou “Lei Zero”, acima de todas as outras: uma instância não pode causar mal à humanidade- raiz ou, por omissão, permitir que a humanidade-raiz sofra algum mal.
Claro que outras questões se virão a colocar na relação complexa entre instâncias e seres-raiz. Estão em estudo.
Graças à instanciação, tu e eu podemos viajar e manter a nossa vida primeva intacta e ainda reinstanciar-nos esporadicamente para fins específicos. É isso que nos dá tanto prazer interdito, quando nos encontramos a sós e nos apetece. Na verdade é um processo fractal e sem limite. Ele faz parte da singularidade tecnológica recentemente alcançada. Contar-te-ei tudo o que sei, aos poucos, meu querido!

 

Terei que enviar - estreia absoluta - um OMNI contigo ao Tibete. Concordaste entusiasmado e apreensivo, mas sabias que isso fazia parte do acordo. Com aprendizagem automática e conectado a um sistema de consciência humana, que mais não é que uma rede de voluntários em processamento subconsciente para as questões da emoção e da consciência. O resto é processamento de big data recolhido a partir dos inputs da tua instância. Talvez pareça confuso, um pouco. Por opção, a tua raiz terá algum acesso de tipo onírico ao conteúdo da tua vivência, o mesmo acontecerá com os voluntários da rede de consciência. O OMNI irá aprender progressivamente a analisar-te. Para já, há um compromisso de limite: não irá mais longe que um narrador omnisciente, no seu estado mais avançado. Foram as tuas condições. Noutros estudos, os OMNI irão explorar relações complexas entre a ação e a consciência, até poderem ter um modelo das mesmas para a humanidade. Evidentemente, todos os dados são trabalhados no sistema quântico, dado o seu volume e as exigências gigantescas de processamento.
Estamos empolgados. Eu apenas terei acesso a um registo escrito, como se de um romance se tratasse. Foi isso que tu e eu combinámos. Estou ao mesmo tempo apreensiva, pois acompanhar as tuas vivências afetivas é um desafio para o qual não me sinto completamente preparada. Fiz até terapia instantânea para o efeito. Veremos! Até para a semana!

 

 

A tua Viagem ao Tibete

Narração: Luisa


Partiste de madrugada. O João passou para te apanhar. Levaste uma maleta com um mínimo de haveres. Tu és assim, minimalista. Deixaste um rasto de cheirinho bom e a memória da noite, da superação, desdobramento em mil nós... Partiste. Sei o que te move. Sei que devo deixar-te ir e celebrar contigo... Que seja como tanto queres. O que o OMNI registar, verei mais tarde.
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Nota um. OMNI. Perda temporária de capacidade de processamento. Aproveitou para síntese e captação de padrões literários. Corrigido. Registo iniciado.
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Narração Omni1


"Viu-a desde a esquina, a sua cabeleira fulva com pequenas labaredas a desprenderem-se em espirais de uma auréola. Era uma deusa para ele! Estremeceu por toda a raiz axial do corpo, sentiu a ascensão pelas chacras, um sabor acre a depositar-se na boca, a garganta urgiu pela saliva, a respiração adensou...antecipou-a como um relâmpago dispõe do trovão - Suse! Ela, imóvel, olhava-o pelo canto do olho - o rosto opunha-se retorcendo-se no sentido oposto. Ele avançava felino com o passo certo em ritmo uniforme, ligeiramente acelerado...já lhe lia os lábios em flor, entreabertos ao espanto e às memórias, o olhar pleno de especiarias, a valsa que se avizinhava aos corpos, os beijos fustigados de vento em rimas e ritmos pejados de químicos de amar, e o desenho em esboço do sorriso puro, os fios do entreolhar dele e dela a apegar sem liberdade; ouve o bafo rítmico e sente o marejar ondulante do sangue quente nas veias e atira-se-lhe para a curva do colo; descai a cabeça sob o peso da saudade a matar e borboleta-a com os lábios doces de humidade quente e ela cede as pálpebras e estremece. Logo se agarram sôfregos e correm para onde ela dirige, abraçados, amarrados ao destino, e no lodge dela assim se transcendem...e se espantam e replicam centenas de beijos e se descaem ao torpor e se banham na vasilha império inglês com pétalas de rosas secas e sais perfumados e se intoxicam em incensos e comem biscoitos, riem e choram, e se confessam. Ela tinha uma namorada, coisa séria, agora fora um matar de saudades. Ele queria ficar na vida dela, mas era tarde. Desfizeram os últimos nós e ele saiu cabisbaixo a tropeçar no capacho da entrada, de tez cinzenta e olhar vazado, os caracóis retorcidos e a voz embargada, a tossicar. Fez o percurso turístico ali mesmo por Lhasa, em manada, andou como um zombi, ouviu nada, sumiu deste mundo pelo vórtice da dor desamparada da impossibilidade. Ainda cheirava a manhãs submersas quando o real lhe trouxe o João e a perspetiva do regresso a Katmandu."


Adeus Katmandu

Narração: Luísa

Chegaste do Tibete com um humor irrascível e eu sem pistas sobre a causa. Não acompanhei os registos do OMNI. Adianta perguntar-te?! Tens mau feitio e isso não passa com terapias. Enquanto viajaste não fui ao mosteiro, acabei por ficar a estudar a vida de Alexandra David-Néel (depois explico!) e distraí-me.
Proponho-te a saída de katmandu. Acedes com apatia. Mas que tens tu?! Penso num plano verdadeiramente ousado. Conto-to por alto. Aquele brilho raiou de novo no castanho da tua íris. Vamos para uma experiência exploratória, como muitas que iremos fazer. A minha e a tua estreia absoluta em viagens ao passado: Alexandria, anos 40, Séc XX. Solicitamos avião urgente ao Centrório. Concedida. Descansas dois dias e partimos. Não velarei o teu sono. Disfarço, mas estou amuada com a tua ida entusiástica ao Tibete. Prossigo com a Néel, agora entremeada com Durrell.
Aproveito para responder a algumas dúvidas sobre o OMNI, o que já devia ter feito, mas fiquei um pouco depressiva. Bem...OMNI é uma experiência literária com Inteligência Artificial, um narrador artificial. Mais devagar: é um software, em rede, com processamento quântico. Até aqui, mais ou menos pacífico! Narra a partir do cruzamento de informação de tipo big data contextual (basicamente todos os dados disponíveis na web sobre o local que é o cenário); acresce dados internos por input instalado nas pessoas "observadas", mas que geralmente são instâncias, não pessoas reais (a estas chamamos seres raiz); o processamento da consciência, o que inclui pensamentos, emoções e sentimentos, controlo executivo e metapensamentos, mas também intuição e subconsciente, está a ser monitorizado - neste caso há um processamento intermédio através de uma pequena rede de voluntários de seres raiz - isto acontece por não ser tecnologicamente ainda viável a reprodução da consciência humana informaticamente. A tudo isto acrescenta-se a formação literária e a capacidade de aprendizagem automática que tem o OMNI - designada por machine learning. Quanto à pergunta: o OMNI tem uma realidade material? Bem, não propriamente: ocupa um espaço virtual que resulta de uma projeção que pode ser ligeiramente acima da cabeça do personagem, eventualmente simula o voo da águia, outras vezes está simplesmente no plano da consciência. Demasiado confuso? Imaginem para nós!
Não fiquem preocupados. Vamos explicando! O potencial heurístico é enorme e posso adiantar que a rivalidade entre ciências do mundo físico, ciências humanas, humanidades e artes, está completamente ultrapassada nesta pós-singularidade tecnológica. Ah!... Tenho mais umas novidades picantes para vos contar. Faço-o depois!

 

Nós em Alexandria

OMNI assume a narração. Registo OMNI2.

Após o regresso de Katmandu Luísa Bósforo e Mário Aesth, instanciados, viajam para Alexandria. Estamos em 2019, num dia quente de julho. Vão em preparatórios de trabalho e em transgressão lúdica secreta.

Mário: -  “a cidade de Alexandria começa e acaba em nós, lança raízes nos  recantos da nossa memória”, como diz Durrell, e  “tal como ele, também eu sou obrigada a voltar recursivamente - afirma esparsamente Luísa enquanto recolhem as malas no aeroporto Borg El Arab, onde são aguardados por Amil, motorista do hotel. Pernoitam no St. Julian: memórias intemporais do pós-guerra. As fotos no lounge ainda recordam com orgulho essa resiliência. Tomam um gim como em qualquer outro lugar "para comemorar", dizem. Espera-os uma aventura sui generis. É a sua primeira. As viagens no tempo começavam a ser divulgadas com algum furor, não sem despertar a negatividade de alguns, como os que duvidavam da ida à lua por Amstrong. Eram já tão sem glória como para o astronauta. Tão chão! Tão "à funcionário"! Mas eles vinham apenas divertir-se e explorar possibilidades futuras. O  St. Julian era um hotel especial. A sua dignidade permitia construir camadas de existência exploradas por corporações e governos. A eles isso nada importava, não que na sua vida raiz não fossem ativistas políticos, mas tratava-se da sua instanciação. Aqui, apenas lhes cabia explorar alguns dos novos sistemas, como o da narração OMNI em diversos cenários. São essencialmente exploradores criativos, o que lhes dá uma enorme abertura de possibilidades. Luísa, curiosa por natureza, interdisciplinar e empreendedora; Mário, senhor de uma cultura humanística invejável, criativo - aceita arriscar enquanto instância, para compensar a personalidade conservadora que mantém na sua raiz e que ocultou a sua segunda natureza autogenerativa.  Adiante, o casalinho saboreia o álcool destilado, que lhe é concedido por entre um floreado jazzístico no bar. Enquanto se dirigem para o quarto, Mário, com o seu arzinho de graça, parafraseia Pursewarden, personagem de Durrell: "nós vivemos vidas baseadas sobre uma seleção de ficções". – “Certo, Mário! É essa a base destas nossas vidas!"

Foi estranhamente fácil a reinstanciação que lhes permitiu mergulhar na Alexandria de Durrell, anos 40. O que mais estranharam foi o odor da cidade: uma inextrincável mistela de especiarias e bactérias. Mário e Luísa ficaram atónitos, sem proferir palavra, entre os pregões, a estereofonia de tudo, o rural misturado com o urbano, os linguarejares desconhecidos, os bafos escaldantes e ondulados diluindo os contornos da cidade luxuriante. Os bairros decrétipos e perfeitamente étnicos em manta de retalho: árabes, judeus...

Foram assediados pela estranha penetração de um sentimento familiar, uma espécie de saudade no fundo da alma... nunca se sentiram tão cúmplices como naquele momento. E como crianças em êxtase num paraíso de brinquedos, o coração saltava do peito enquanto o corpo estarrecia de desejos contraditórios. Queriam ver tudo, frequentar cafés e salões, andar de carro nas avenidas, passear a pé pelo bairro árabe, penetrar o Meidan, as tabernas e os quartos promíscuos, reviver Kavafis, subir à cidade alta aristocrática e frequentar a barbearia mais cara, aspirar a maresia à sombra das mesquitas, beber arake nas esplanadas das cosmopolitas avenidas, andar de elétrico, passear nas margens do Mareotis, participar numa caçada ao pato, visitar túmulos de santos, ver performances de saltimbancos e, encontrá-los: Justine, Nessim, Clea...não! Isso era pedir demais... Frequentar a embaixada britânica, isso sim, era-lhes permitido.

A baía tinha ao fundo ainda a torre de Pharo, a primeva e estava prenhe de azul ferrete e de marinha de guerra. Mário ficou muito interessado; Luísa precisou seduzi-lo para dentro de uma loja de chapéus. Compraram um tarbush para ele, e um véu para ela e foram pirogravando na alma toda a magnificência das lojas a pluralidade das cores, pregões, aromas, a profusão de vida pululante. A felicidade disparou a química do amor e ele beijou-a de surpresa, docemente - tão surpreendente e raro fazê-lo na primeira instanciação, não na segunda, em que eram amantes. Deslizaram para um café, pediram um arak para os dois, por entre olhares de observação atenta como os animais em grupo, a vigiar o estranho - claro! Não tinham guarda roupa adequado. Pediram ao Centrório para lhes facilitar a adaptação e receberam em meia hora um guia que passou a integrá-los - linguarejou qualquer coisa que descansou os atentos vigias e levou-os por salões dentro de salões separados por pesadas cortinas de veludo, cada sala com um estilo diferente até que lhes mostrou o quarto onde o poeta da cidade se devaneava com mancebos de belos músculos que tanto apreciava.

Narração de Luísa

"Fiquei sentada numa poltrona. Vi-me puxar uma bola de fumo de uma elegante cigarrilha- um aroma absolutamente divinal. Tu foste visitar o quarto do poeta. Apercebi-me que te seguiu uma matrona de longos cabelos negros, tão brilhantes como nunca vira e olhos perfeitamente delineados a khol. Fiquei estarrecida. Fumei cigarrilhas atrás de cigarrilhas (nem sabia que fumava!). E tu demoraste. Chegaste desgrenhado, os lábios inchados, possivelmente era só o efeito do batom. Como? Mário?! Quando te sentaste ao meu lado sorriste e o beijo ardente foi ímpar. Alexandria estava a corromper-nos!


De seguida deslizámos pela Corniche até ao porto. Tu apreciavas o castanho-bronze da paisagem e as sombras nacaradas no solo pérola. Deixámos para trás a poeira a incendiar o céu em congeminação com o sol; os túmulos de profeta projetados nas dunas em revolução. Sorriste quando te olhei de soslaio e suspiraste pelo dia que passaremos junto às grandes brechas do lago antigo - Durrell oferece-nos os charcos celestiais onde vagueiam as núvens, o azul-lilás tinge o verde Rembrant e os tons de zinco palpitam nos afazeres dos patos; a humidade quente, o marulhar dos aromas misteriosos, os segredos dos insetos, a profundidade do espaço povoada por sons a todas as distâncias até adentro da pele, na zona do afeto.

A noite começa a cair. Os reverberes acendem o teu perfil compassadamente. O olhar foca-se no ponto de luz diáfana que dobra o cabo e desliza sagaz no veio de espuma que brilha ao luar. Só depois chega, nostálgico, o som grave do apito, se refugia no carro e desiste de prosseguir. Somos visitados por fragmentos do jazz insinuado pelos bares da marginal, leve e sincopado, em sintonia com o motor do carro, que acabamos de perceber, trazendo-nos para o real, como se nele não estivéssemos nas últimas horas. O porto cresce ao nosso redor, povoado de pirilampos à flor da liquidez densa do mar. Na amurada, um exército de gaivotas vigilante. Os seus gritos a coberto da noite vertem num queixume que se adoça ao desfalecer numa tonalidade quase melodiosa. Com graciosidade infantil apontas a lua a escalar os minaretes para o lado sul em quadros intermitentes permitidos pela deslocação na avenida; concorre com a impregnação dos aromas de carmodoma, mirra, azeite e canela e lança uma aura de desejo urgente. Saciamo-nos na esplanada do café Rimbont, amornados pela brisa que conforta os contornos do rosto no passar lento do tempo. Não temos pressa. A algaraviada cruzada de linguarejares do mundo é o nosso entorno cosmopolita. Sorrimos, cúmplices!"

Nós em Alexandria

Registo OMNI3 - 1ª instanciação

Luísa e Mário, instâncias primeiras, aproveitaram a estada em Alexandria, naqueles dias de julho de 2019, para fazer algum turismo. A cidade era muito diferente do que imaginaram, certamente muito alterada em relação à versão de Durrell no seu Quarteto. Cinzenta, gigante e sem o charme de outrora. A torre de Pharo arruinara-se; as ruas estão sujas e inóspitas; até a biblioteca, de traça contemporânea, em nada respeita a epifania que foi para a humanidade a antiga Biblioteca de Alexandria. - "sabias que afinal não ardeu, mas simplesmente foi depreciada e deixou de ser financiada por motivos políticos? Hás de ler sobre isso!"- informou Mário com a sua expressão habitual muito serena e segura, à primeira vista, mas meio perdida se o olharem no fundo da Íris, que começa a esmorecer e a ficar castanho pardacento... Nada que importasse especialmente a Luísa que já lhe conhecia os propósitos e o avesso - adorava-lhe aqueles olhinhos-estrela, até quando se ofuscavam envergonhados! Era tão tímido o Mário! Desculpava-o sempre!

Apesar dos imprevistos turísticos descritos, apreciaram a comida exótica e a simpatia árabe. Visitaram as ruínas de Kom Al Dikka, área residencial rica dos tempos greco-romanos, conhecida na época como o Parque de Pan, um jardim de prazer..

Viviam entre a leitura dos registos OMNI, a elaboração de sugestões para protocolos futuros nas viagens pelo tempo, algumas explanações sobre o estado da arte da tecnologia, tão pregnante nas suas vidas e a fazer especulações sobre os seus seres-raiz a viver em Portugal: como estariam a reagir a estas experiências das suas instâncias? A segunda instanciação estava vedada a uma vivência direta à primeira instanciação, e poderia aparecer, mas em sonhos e muito raramente, à raiz. No entanto, daqui de Alexandria, 2019, recebiam os relatos do OMNI – agora, algures pelos anos 40 -, que por vezes brincava à cedência de perspetiva, simulando ser Luísa. Daqui de 2019, Luísa e Mário não se esforçavam para compreender o que estariam as suas segundas instâncias a fazer: seria demasiado perturbador vivenciá-las como algo de pessoal. Assim, limitavam-se a sorrir, ou mesmo a brejeirar sobre o assunto e, depois, a fazer uma análise pragmática, no sentido de melhorar os processos futuros com a experiência atual: assim, a introdução de um interlocutor, guia ou com outro formato, seria essencial, tal como um tempo de ambientação, indumentária adequada e um pequeno workshop sobre costumes e informação prática.


Registo OMNI4 - 2ª instanciação

Mário contactara a Embaixada, e, com auxílio do Centrório, foram convidados para uma receção na residência de verão do embaixador. O palacete do séc. XIX ficava na zona alta da cidade implantado num jardim luxuriante com griff inglesa - o estilo paisagista a refletir o espírito de uma época, liberal, sem a geometria dos jardins clássicos, com a natureza como fator principal - as formas orgânicas aproximam-se do estado natural da paisagem, de toque erudito, inspirado nas Belas Artes, em particular na pintura. “Dizem que foi concebido por Humphry Repton, mas não pude confirmar”, esclarecia Mário. Fomos recebidos com distinção, mas alguma informalidade - soubemos logo ali que se tratava de uma receção ad-hoc de cortesia. Luísa encantou-se por um gato amarelado que os recebeu carinhoso e soube pelo criado que se chamava Jock, em tributo ao amigo felino de Sir Churchill, o que ela achou delicioso. O cheiro a erva cortada e a frescura do lago e seus canais embeveceram o casal, que desejou de imediato sorver um refresco à sombra do canavial de bambus. Mas por ora seguiram guiados pelo criado, por salões de pé alto enorme, afrescos nos tetos, mobiliário discreto mas cheio de história. Afanados em seguir os passos claudicantes do criado não puderam perscrutar os inúmeros quadros, certamente muito interessantes, oferecidos na montra das paredes, nem a china blue por toda a parte. Sobrou o apreço pelo brilho dos soalhos impecáveis, o aroma a cera e história, os ecos dos passos que se convenceram por isso, de solenidade. O peso do respeito silenciou-os. Trocavam aqueles olhares. O gato seguia-os com turrinhas infantis. No salão nobre foram recebidos por seis gentlemans e suas esposas em traje green-party, com elevação, sedutora entoação muito british e cocktails deliciosos e frescos. Após o beberete, Mário ficou absorvido a escutar a conversa entre secretários que, sem dissimulação, abordavam as orientações recentes do Foreign Office e especulavam sobre a melhor estratégia, obscura e intriguista, face ao Egito. Mário reparou no número do Times, ali na mesinha de apoio e sorriu!
Luísa, com o pretexto de seguir Jock, e lhe pedir as confissões do embaixador - que lhas dava -, dirigiu-se para o adorável jardim. Estendeu-se numa cadeirinha de tiras de madeira branca com almofadas bordadas, com o Jock de imediato a apresentar-se no seu colo, e julgou ouvir uma voz profunda, masculina, esmagada pela emoção, numa cadência de leitura:
"As roupas informais aconchegam-se-me à pele mumificada, enquanto passeio no jardim contíguo ao palacete de Verão acompanhado pelo rumor imaginário das vestes de Leila: volúvel como a sombra à direção incerta da brisa; permeável ao contorno das ervas e árvores junto ao canal. Fui interrompido pela alegria vivaz do cão Ramuk que me saltou para o peito e o esmagou até uma dor abrupta se avivar. Senti os olhos humidecerem de gratidão – finalmente uma clara sensação que contraria a tendência confusa e lúgubre do remorso que se vem escavando sob os meus pés, como uma invasão assassina em conjuração nas bases da minha existência. Pude, por momentos, sentir o aroma acre e forte da vegetação junto ao canal pleno de vida, combinado com os lampejos incendiários da superfície estrelada de insectos em intenso labor. Suspirei abrindo os pulmões. O final de tarde captura de catadupa o piar chamativo das fêmeas do urubu, as cores ocre-pastel do orlado deserto, quase adivinhadas, no horizonte errático, vencidas por aromas de café e xerez: toques fugazes de essência que só a memória pode apurar como um vinho delicado aberto após demorada maturação, pelo seu autor... Perdoa-me Leila!..."
Luísa brandiu a pergunta: aonde está Ramuk? Sem perceber porque o fazia. O gato olhou para um canteiro nu, num intervalo do canavial. Aproximou-se e leu a inscrição: Farewell dear friend. I´ll miss you forever. Mountolive."

 

OMNI5 ~ Seres raiz


Luísa tem tido pesadelos: relações que a confundem; deslumbramentos que acabam em vertigens, em quedas de abismos. Estendida sobre a cama-cápsula medita um pouco sobre o significado destes sonhos, afinal também entremeados com o transe dos dias - de vez em quando apanha-se em ruminações românticas como se fosse autora de um romance deceptivo, e às vezes, verte essas monadas da imaginação em pequenos textos, poemas brancos ou histórias - mas isso está a parecer-lhe já cacofónico e despropositado! De onde vem toda esta fantasia? Para que serve? Ela não é escritora, definitivamente! Embora consuma, experimentalmente, um romance por dia, via osmose, e ainda leia uma crónica da rede social de uma querida amiga dotada para a escrita, enquanto toma o pequeno almoço tradicional, que mantém na dimensão museu da sua vida. Para uma transição mais suave de estilos de existir, o Centrório permite que cada ser raiz opte por manter aspetos da sua vida anterior, na designada dimensão museu.


Mário tem insónias: - “é do calor”, pensa! Mas tem-se recordado de relações passadas, umas prolongadas outras mal iniciadas - aparecem juntas nas estórias oníricas. Ele não entende isso.


O mundo está em reboliço - todos os dias novidades, reformulações societais, novas estruturas políticas, descobertas científicas, uma explosão de aplicações tecnológicas, surtos epidémicos biológicos, informáticos ou da web social. Lá vai o tempo em que web social eram os softwares para fazer contactos e propagar ideias e opiniões. Hoje é uma tecnologia sofisticada, suportada por uma área interdisciplinar e é o centro da política.
Os seres raiz não são mais seres humanos no sentido anterior do termo: têm extensões cognitivas, musculares, emocionais e instâncias. A inteligência não é mais individual, mas propriedade de redes.
As ciências humanas implodiram e recriaram-se com as amostras artificiais de sujeitos: os estudos exponenciaram-se; qualquer sondagem é divulgada em tempo real e altera a seguinte - é uma série, um fluxo permanente; a estatística pôde evoluir (lá foi o tempo de ser descritiva), é plenamente causal e dá conta da hipercomplexidade a que se chamava caos. A física e a quântica fundiram-se finalmente. Os seres humanos, ou o que resta deles, são estudados ao ínfimo pormenor em big data e inteligência artificial. Atualmente, as novidades provêm dos estudos das relações intermundos, das redes web e das quânticas (antes intuídas como morfogenéticas), das relações instanciais entre si e com os seres raiz e o efeito das extensões nos mesmos.

 

OMNI6 ~ Alexandria

Em Alexandria, não conseguiram renunciar à tentação da biblioteca: "O lugar da cura da alma", reza a lenda que era o conteúdo de uma inscrição na Biblioteca de Alexandria.
Luísa e Mário reinstanciaram-se, desta vez após algum estudo prévio e encomendaram a indumentária num teatro local. Foi assim que Luísa se travestiu de homem para melhor poder acompanhar Mário e instalar-se entre os sábios. O Centrório enviará um intérprete, que os acompanhará: todos sobre o disfarce de sábios da Além-Gália, como ousaram inventar. Os seus nomes: Mário era Apolónio; Luísa dava por Sater; e o guia era o Demétrio.
Nem a propósito acordaram no meio do movimentado refeitório circular com um teto alto e abobadado: o ideal para passar despercebido na fase de ambientação. O cheiro era intenso, mas curiosamente reconhecível na sua forte componente de especiarias. Um burburinho entusiástico, mas constante, denotava a elevação e o estímulo cultural dos comensais. Havia-os de todas as idades, desde jovens mancebos até curtidos sábios. Emanavam uma juventude e uma alegria que os contagiou. A sala era lindíssima. O guia foi buscar comida - tomaram um protetor com a beberagem para contrabalançar as questões da sua imunidade alienígena. Deleitaram-se com a refeição - o tempo não mudara assim tanto a alimentação - que curioso! Ergueram-se cabisbaixos, para evitar contactos paroxísticos, apesar de supostamente não poderem comunicar em grego clássico, contavam com a cobertura do guia, para não evidenciarem desfasamentos no protocolo cultural. O desafio era excessivo. Contavam ser muito breves.
Estavam na zona do Brucheion de Alexandria, no complexo palaciano onde se situava o Museu (Mouseion, literalmente um templo às musas), com numerosas salas de aula, albergue para a comunidade internacional de sábios: estudiosos, poetas, filósofos e pesquisadores internacionais bem remunerados. Aqui fazia-se pesquisa e lecionava-se, como numa moderna universidade.
Explica o nosso sábio Apolónio: "a Biblioteca inseria-se neste espaço, onde se armazenavam os papiros, aos milhares, recolhidos peregrinamente pelo mundo culto da altura, com total orçamentação pela geração dos Ptolomeus, reis do Egito. A ideia de um culto às musas, a simbolizar o estudo e a investigação científica, provém de Pitágoras e depois da morte de Aristóteles, Teofrasto organiza no Liceu um Museiom, que foi o verdadeiro predecessor do Museu de Alexandria."
Deslocaram-se para uma das três passagens que os levou a uma sala comprida com colunas, em forma de odeão, repleta de estátuas de madeira, representando litigantes a olhar para os juizes esculpidos ao longo de uma das paredes, em número de trinta, sem mãos; mais ou menos ao meio estava o juiz supremo com a verdade pendendo do pescoço e de olhos fechados, e no chão a seu lado rolos amontoados. O aroma era exultante; o som dos seus passos revelava a realidade da sua existência, da qual quase duvidavam. Não estavam preparados para isto! Apressaram o passo para encurtar a experiência que os fazia sentirem-se a desfalecer, pelo calor e pela força dos aromas desconhecidos, mas arquetípicos. Sentiram os primeiros eflúvios da transcendência do ego, o que, convenhamos, não era propício a uma experiência segura, pelo risco de desencadear uma crise dissociativa. Comentaram em segredo entre eles os sentimentos despertadores que os acometiam e precipitaram-se quase a correr para um designado perípato circundado por vãos, ornamentados com relevos representando alimentos. Ao longo do perípato distribuíam-se baixos-relevos coloridos.
Chegaram à biblioteca sagrada, por cima da qual estava escrito "lugar de cura da alma" - Ah sempre existe, ou melhor, existiu! Imagens de divindades egípcias acompanhavam a sua saga até uma sala sumptuosa com uma parede partilhada com a Biblioteca. Nessa sala havia um conjunto de mesas com vinte triclínios, as estátuas de Zeus e de Hera e ainda a do rei. Por um saguão, os três aventureiros do tempo puderam ver uma sala hexagonal cheia de papiros. Era baixa e a vertigem dominou-os ao abordarem a balaustrada, também ela muito abaixo do tamanho normal. Miraram incrédulos para baixo, para cima, e não viram fim. Julgaram estar dentro de um jogo de espelhos. Do lado de dentro da sala, duas minúsculas cabines, uma de cada lado do saguão. Espreitaram uma delas e um cheiro nauseabundo atordoou-os, fechando-se quase de imediato por reação. No cubículo do outro lado, sentado em silêncio, estava um velho bonacheirão a olhar o vazio. Após alguns segundos aperceberam-se dos seus esgares de cego. Borges? Titubeou Mário, o nosso Apolónio. O velho esgarçou uma risada terrífica e fugiram a toda a velocidade, solicitando assistência imediata ao Centrório para o término da experiência, com Luísa, a Sater, a passarem mal, provavelmente da comida ou do surto emocional pela perspetiva de entrar na biblioteca fractal, intemporal e infinita do Borges! Foi demais! Vamos embora!"


OMNI7~ 1.ª Instâncias


A saga continua...Luísa Bósforo e Mário Aesth estavam já satisfeitos - por agora - com Alexandria. Tinham estado no quarto dos amores profanos de Kaváfis, o poeta da cidade, passeado pelas ruas da mítica Alexandria do Quarteto de Durrell, foram recebidos na embaixada inglesa e até se aventuraram na Biblioteca de Alexandria, na época clássica - onde tiveram uma experiência radicalizante pelos desafios imunitários e pela fractalização da "biblioteca" sugerida por José Luís Borges.

Por desejo de Mário iniciam uma outra aventura à altura destes dois protagonistas multifacetados. Vão para Lisboa e Porto nos finais do século XIX, em plena epidemia de peste bubónica.

Ela iria acompanhar, por uma semana, a menina Luisinha Pestana, filha do médico e investigador Luís de Câmara Pestana, e ele, dirigir-se-ia na Mala Posta, para o Porto. Mário fora sensível e compreensivo. Ele era também isso. Oferecera-se para ser ele a fazer a longa e torturante viagem, poupando-a. Decidiram, por isso, fazer o "despertar" na cidade de Lisboa. Um primeiro guia de apoio enviado pelo Centrório instalou-se num hotel próximo de Luísa e o segundo acompanhou Mário na viagem. Luísa Bósforo ficou na casa de Luisinha e da sua avó, a Sra D. Helena.

Mário tinha um fundo frio e psicopático, mas numa versão amenizada trabalhada pela mãe, com algum requinte burguês, que lhe dava uma ambiçãozinha aristocrática, que mal disfarçava. Com frequência necessitava recolher-se, quase monástico, para reconciliar os fragmentos de si, desconjuntados e subjugar à racionalidade as suas tendência egoístas, refletindo nas reações em espelho dos outros à sua imensa frieza e desconcertante desumanidade. Condensava então essas tendência em ideologias políticas, racionalizando e libertando-se delas no quotidiano. Era como pô-las num livro. Frequentemente escrevia-as para si mesmo, raramente em peças de opinião em jornais de afinidade política. Mas isso era o Mário raiz. A sua instância fora submetida a terapia intensiva, estão recordados?!

A casa da família Pestana ficava perto do Martim Moniz e do Hospital de S. José, aonde estava Luís de Câmara Pestana agonizante. Fora contaminado no Porto pela peste. Dizem que usava estes últimos dias para garantir que os seus estudos sobre a peste e outras doenças infecciosas tivessem continuidade, ao mesmo tempo que procurava não contaminar os colegas de profissão que o cuidavam, ou quem o visitava. Conta-se que teve uma visita de monta: nada menos que El-rei D. Carlos, que muito apreço lhe tinha.

Hoje, Luísa Bósforo acompanha Luisinha Pestana na sua visita diária ao pai Luís, como lhe chamava. Enquanto avançam pelos passeios lisboetas, a mais nova conta que a mãe falecera no parto, pelo menos era isso que lhe contavam e que tinha sido criada pelo pai e pela avó, que viera da Madeira para esse propósito. Faziam uma vida de recato, embora mantendo um minimalismo social: ópera, música de salão, receções, especialmente literárias, livrarias e pouco mais. Luisinha vestia com muita decência, padrões ecléticos, em tons suaves e neutros, com retoques breves de classe, como uma bolsinha ou um chapéu parisienses, lindíssimos. De resto era sóbria e muito pálida.

Ali avançava ela de sombrinha em riste, a mascar uma folha de hortelã, não só pelo hálito, mas para afrontar os maus-cheiros da cidade, não obstante a melhoria no outono, de passo sereno e confiante, até alcançar a fonte, onde confirmava pelo desenho da sombra na calçada se era a hora certa, e, dali mesmo em frente à janela do quarto do pai, acenava com o lenço de seda branco perfumado ao espectro que se deixava ver por entre os reflexos das vidraças da janela. Uma lágrima diária descia até à comissura do lábio onde era consumida. A cena não durava mais do que um minuto. De seguida ela retomava o caminho, na compostura habitual e descia a rua retornando à conversa que lhes animara a manhã, pudicamente evitando falar sobre a doença do pai que enfrenta com admirável resignação.

Luisinha tinha uma educação cuidada, em casa, por perceptores. A sua predileção ia para as ciências e para a matemática. Deliciava-se com Fermat e o seu amadorismo apaixonado, com o qual se identificava. Pela conversa da jovem, Luísa Bósforo apercebeu-se do fervilhar cultural da época, não só nas cidades de Lisboa e Porto, como pela Europa. Luisinha era admiradora das sociedades cultas, das tertúlias e clubes. Falou com entusiasmo de Berlim e Zurique para exemplificar. Referiu-se a Lou Andreas-Salomé e a Carl Jung, para grande surpresa de Luísa!

Ao almoço sentavam-se junto ao varandim, de janela aberta, à volta de uma mesinha de pé de galo, a saborear os petiscos feitos pelos criados, mais uns pastéis que os vendedores porta-a-porta traziam. E traziam também o peixe, o pão, a água, a fruta, tudo com pregões musicais inextrincáveis, que Luisinha, sorrindo, traduzia para Luísa Bósforo. Estava muito animada por tê-la por interlocutora e tão desejosa de falar que nem lhe fazia perguntas. Luísa agradecia no seu íntimo. Tinha umas estórias preparadas para lhe contar, mas preferia ser o mais sincera possível. Afinal a carência da garota ajudava-a. Dali do posto do almoço, fruíam da sombra da árvore frondosa, da música dos pássaros misturada com o burburinho da feira da hora de almoço, o relinchar dos cavalos de transporte, os gritos orientadores dos seus condutores.

Os criados, com frequência, serviam um jarro de água sobre as mãos numas bacias pequenas que traziam, que eram depois enxutas, delicadamente, em toalhetes bordados e perfumados com aroma floral. Parecia uma dança coreografada em graciosidade. Luísa sorria sereníssima. Era encantadora.

No final da refeição convidava Luísa Bósforo para uma ginginha feita por D. Helena, que estava fora em ações de caridade, e dava-lhe uma lição de uso de canapé, rindo deliciada com o ar desconsolado de Luísa. Estavam a ficar amigas! Aqui Luisinha ganhou coragem para falar do pai Luís, com orgulho da sua dedicação e do trabalho científico com Pasteur, em Paris, do apreço do Rei D. Carlos, que o visitara há uns dias no hospital. Luísa teve que se mostrar virgem ao assunto.

Luisinha acabou de convidar a sua visita para a acompanhar no dia seguinte à Golegã. Iria mandar fazer uns retratos ao grande Carlos Relvas, que, dizia, tinha estado a apresentar o seu trabalho na Grande Exposição Internacional, em Paris, e assistira à inauguração da célebreTorre Eiffel.

No dia seguinte saíram de madrugada. Afinal fazer 100 km em falua e galeche não é brincadeira. Quando chegaram, foram recebidas com um recital dado por um dos afilhados do Sr. Carlos, num piano recém comprado, enquanto se deliciavam com um lanche avantajado oferecido pelo casal. Depois subiram pela escada de caracol, perfeitamente encerada, até ao salão estúdio, que era afinal uma grande galeria, com a fachada a nascente completamente envidraçada: paredes e telhado, assente numa estrutura de ferro. Um sistema de cordas permitia deslizar longos cortinados, de modo a regular a luz. Divertida, Luisinha dirigia-se para uma carroça sem rodas no meio do estúdio e disse: - “Veja! É aqui que vamos fazer a foto, nós três, eu a Sra. e o miúdo do piano. Vamos fazer como aqui” - e mostra a gravura de Lou Andreas-Salomé com Nietzsche e Paulo Rée. Luísa ia desfalecendo, mas depois libertou-se numa risada ímpar e convulsiva. Contagiou todos, que se apressaram a imitar os três estranhos personagens naquela pose erótica e cómica.

Enquanto Carlos foi preparar os químicos para a revelação, os restantes deliciaram-se com refrescos no jardim elegante, à sombra de uns álamos, embalados por mais umas peças de piano vindas aos tombos com a brisa e as longas cortinas, até eles.

Tiveram, entretanto, que regressar, pois esperava-as uma longa viagem. Quando chegaram, D. Helena, com ar muito consternado, avisou-as do sucedido: Luís, o seu querido filho, o pai Luís da Luisinha, tinha sucumbido e não podia haver funeral devido à peste. Luisinha recebeu a notícia com muita dignidade, libertando um rio de lágrimas que não acompanhou em lamentos. Depois de repousar um pouco, ajudou a avó na decoração fúnebre da casa para receber amigos e familiares no velório simbólico. Luísa retirou-se para o seu quarto, até que Luisinha a surpreendeu com um bilhete. Pedia-lhe para a substituir naquele evento que já não poderia ir: era uma ópera em D. Maria, à qual a família real também ia - portanto o rei D. Carlos. E assim, dois dias depois, lá estava Luísa a absorver uma ópera do séc. XIX e a fisgar o rei D. Carlos e sua comitiva por entre engraçados binóculos.

OMNI8 ~ Encontro das Raízes

Passados tantos anos, Luísa e Mário voltaram ao último bar, à beira-rio, para um dos encontros organizados pelo Centrório.

Luísa encontrou um Mário de olhar vazio e iniciou, de imediato, uma conversa ensaística, seguramente despropositada, mas a possível para disfarçar a angústia, o sobressalto do desejo, a vontade de se afogar em lágrimas e de o derrubar daquele pedestal de arrogânica e frieza.

"Não somos pessoas Mário. Não como acreditávamos ser. Corremos programas no nosso modo físico e digital e ressoamos no modo quântico. Naquele breve tempo em que nos contactámos corremos programas. Tu eras obcecado com a progressão social à qual subordinavas tudo. Amizades, profissão, família, habitação, hábitos culturais - tudo era feito, escolhido e valorizado de acordo com o teu programa de ascensão social, que no caso era imitar a aristocracia, ou pelo menos, adquirir um estatuto já validado, idealmente bem consolidado e tradicional, se possível. Como compensação permitias-te - sempre em sobressalto e com arrependimento antecipado - algum aventureirismo.

Eu corria o programa da metamorfose, da aprendizagem continua, da idealização do ego. Após o toque afetivo, que permeou entretanto a nossa parca relação, desencadeou-se o programa "amigos" em competição com o de "amor romântico", e ainda um outro de "amor sábio" à espreita, como possibilidade de síntese dos dois primeiros. Naturalmente, os nossos programas e as nossas realidades desencaixavam, "excepto na aventura", pensaste tu; eu discordei. Mas, o estado quântico de completude entretanto criado, como uma dinâmica extra-linear, revolucionou a consciência -, do meu lado, claro. Do teu, foi menos que um corte por uma folha de papel: alguns dia e sarou. Nem mais pensaste no assunto com dedicação e zelo, creio - produziram-se os químicos consonantes, os sentimentos e toda a qualia correspondente. Nada de especial: banalidades - foi o que pensaste!

Onde quero chegar? A instanciação já existia nessa altura, mas a sociedade tinha criado ao longo dos séc. a ideia de personalidade e de pessoa, que ajudava a aceitar a projeção social em cada indivíduo. É uma fantasia narrativa, uma história, uma ficção se quiseres. Vivemos numa matriz, sim. Não somos pessoas, somos hardware biológico, digital e quântico parcialmente sobreposto com os seus processamentos típicos. Somos, além disso, uma coletividade, um enorme enxame com muitas subdivisões, que flui no espaço-tempo físico e no mundo quântico. É muito. Mas cada um de nós é pouco importante: apenas uma história 3D num tempo linear. Essa é a ilusão. Depois há isto, este mundo hipercomplexo de instanciações e de raiz (que, no fundo, não passa de outra instância também).

Uma nota. Deves ter achado infantil que se contratassem especialistas e leitores fanáticos de literatura para desenvolvimento científico. Pois, tem tudo a ver com o que te disse há pouco. O processo de instanciações estava já intuído em muitos saberes embebidos nas páginas literárias. Esse é na nossa área funcional, como sabes, no trabalho para o Centrório. Outros exploram a intuição dos sistemas espirituais e religiosos, por exemplo. A nova ciência é realmente eclética. Não sei se estás a par da integração de todas as especialidades e áreas disciplinares?!...

A virtualização das amostras humanas e das outras: clima, floresta, universo, etc - permitiu acelerar a produção de conhecimento de forma inaudita. Mas o que eu gostaria ainda de debater contigo - em homenagem ao nosso jeitinho especulativo ideológico -, era o modo como a política evoluiu, assim como a estruturação da sociedade. Mas talvez não possamos já retomar os nossos diálogos... Talvez a trama de conexões quânticas, não-lo permita mais..."

Mário manteve um ar inquisitivo e uma expressão de estranheza durante toda a audição. Esforçou-se por não interromper. Sorveu um último gole do extenso gim e disse estar sem mais tempo: tinha uma urgência para fazer. E foi-se!

 

OMNI ~1ª Instanciação

Paris, 2019

Chegados a Paris em agosto de 2019 à beira da noite, esperava-nos um jantar frugal, ali mesmo, no hotel onde ficámos instalados. Tínhamos urgência na 2º instanciação, pelo que a fizemos logo após a ocupação dos quartos. Depois, passeámos um pouco pelas ruas da cidade. Na manhã seguinte entretivémo-nos a fazer algum turismo e, ao chegar ao hotel, esperava-nos um relatório do OMNI,  revelador de um sentido de humor inesperado!

Relatório OMNI:

"Estavam a passar sobre le Pont Neuf, quando sentiram um extremo arrepio de pele! O seu amor tinha comunalidades extraordinárias e intensas,  frugais e espásticas! Juntos eram delírio e projétil de emoções explosivas!

Tinham já imaginado aquela viagem, subliminarmente, num ramo ou dois das suas conversas infinitas, mas agora, estavam a fazê-la, corajosos e impúdicos, nada os impediria desta aventura sensorial folie-à-deux!

À noite abraçavam-se à janela, embevecendo o olhar na Paris de luz palpitante e estelar. Depois, ao acaso, calcorreavam as ruas de Montmartre e Pigalle, bebendo goles de álcool repartidos com beijos voluptuosos; dançavam na rua, de mãos dadas, num vai-vem de concertina e cantavam Aznavour. Luísa declamou Paul Elouard quando a moinha lhes colou a pele à roupa.
Il pleut, c'est merveieux, je t'aime...e comme ça ... Et La Vie en Rose! Lembras-te?! - perguntava Mário.

Sisudos e hirtos, já madrugada, segredavam com as mãos por recantos do outro ainda intactos; tremiam os lábios junto ao bafo, ao alento e à humidade quentes, que tresloucam! Lá Boheme! Je t´aime!- repetiam um ao outro.

Ao correr do Sena ou por quarteirões onde o frémito do desejo da cidade-luz se adensava, fizeram  cinema! E prometeram no dia seguinte comer bom-bons no café Brousseau, depois da noite cansada, revista e revirada de beijos e estertores ao som de Zaz: au lendemain de nos adieux, dans les chemins da ma vrait vie...! Qué vendrá? Si jamais j' oublie!  etc."

Rimo-nos divertidos, com esta zombaria pseudoliterária do atrevido OMNI, mas foi com muita curiosidade que nos debruçámos nos dias seguintes nos relatórios das viagens, por se tratar de uma experiência piloto: viagens em tempo circular ou paradoxal - simultaneamente ao passado e ao futuro.

 

OMNI 10 ~2ª instanciação

 

Paris, 1916

 

Encontramo-nos no Curso Désir com a menina Simone de Beauvoir, aonde levamos Robbie para uma experiência piloto. Robbie, em homenagem ao primeiro Robot babby-sitter, da US Robots, era agora uma gentil menina, em nada diferente em aparência de qualquer garota do início do séc. XX.  Apresentámo-nos como tutores da "criança". Pretendíamos colocá-la num ambiente prodigioso junto com a menina Simone, sua irmã e a amiga Zaza, entre outras crianças. O nosso alvo era evidentemente Simone. Através do Centrório acediamos a aconselhamento com a instanciação da primeira robopsicóloga, Dra. U. S. Calvin.


" Esperaram que Mademoiselle entrasse e desse início à lição. Robbie foi apresentada à classe. Tinha estado a ter aulas em casa, numa quinta marselhesa. Simone ficou curiosa com a sua nova colega de carteira e trocou olhares cúmplices com a melhor amiga Zaza.

Robbie mostrava-se capaz de prodígios intelectuais e estava entre as melhores alunas da classe. Rapidamente foi integrada no circuito de amizades de Simone e Zaza, que incluía os irmãos de ambas. Começou a frequentar a rua Varrene da família Mabille, que para além do pai e da mãe de Zaza, incluía uma irmã mais velha, um irmão grande, seis irmãos e irmãs mais jovens que ela e um chorrilho de primos e amiguinhos. Robbie conquistou a mãe Mabille imitando Zaza com a mãe de Simone, chamando-a de “Petite Madame” e dizendo-lhe que parecia minha irmã mais velha da filha - o que a deleitou.

As três garotas gostavam de conversar sossegadamente no escritório do M. Mabille, pai de Zaza, longe do tumulto. Era para elas um prazer inédito, com laivos de interdito:  tinham conversas de verdade como as entre marido e mulher à noite. Conversavam sobre os estudos, leituras, camaradas, professores e sobre o que sabiam do mundo. Não sobre elas mesmas, até aparecer Robbie e com ela as confidências. Foi com Robbie que o mundo se lhes revelou, a vida como ela era para os adultos: a política, o dinheiro e o sexo. Criaram um jornal de brincar: Crónicas da Vida e, nele, vertiam as opiniões e rasas sabedorias inocentes. Robbie subiu a conversa de nível e confessou o seu extraordinário segredo: não era afinal menina; também não era menino; era uma máquina, em corpo feminino. A sua avidez de conhecer sensações humanas levara Robbie a vários jogos e brincadeiras envolvendo carícias, deixando as crianças muito curiosas e perplexas. Madame Mabille acabou por apanhar a garotada nestas experiências e expulsou Robbie das relações dos filhos, não sem antes alertar Mademoiselle. Robbie em breve deixou de aparecer no Curso Desir. Madame Luise Bósforo foi alertada, em estado de consternação, pela docente e de imediato enviou Robbie para estudos com a Drª Susan Calvin, robopsicóloga do Centrório. A experiência parecia ter sido um fracasso".

Luísa Bósforo, 2019, Paris, está a começar a ler o livro de Simone Beauvoir: O 3º Sexo, comentando com Mário a curiosa antecipação da teoria de género feita pela intelectual. Mário emendou-a; - “queres dizer, o 2º Sexo!" E sorriu irónico. – “Não", retorquiu Luísa, olha, e mostrou-lhe a capa do livro.

Ficaram os dois com um ar estupefacto, deram-se um tempo para emprestar algum sentido ao equívoco - ficaram em silêncio e trocaram depois, aquele seu entreolhar cúmplice. O presente tinha sido alterado pela viagem ao passado: acontecera o paradoxo. Estariam numa realidade paralela? Ainda bem que não eram eles os cientistas para dar conta daquele imbróglio!



Interlúdio na Bretanha
Omni10

Luísa Bósforo sentiu uma vontade súbita de viajar ao encontro de Gauguin em Pont-Aven, na Bretanha de 1888. Pediu uns dias, dois ou três, sem justificação. Contra a sua expetativa, criou-se um incidente ao nível do Centrório. O motivo, desconhecido por Luísa, estava na coincidência do súbito desejo com um interesse recente que Mário raiz evidenciara. Como Luísa raiz o soubera, não era motivo de conjectura. Porém, tratava-se da primeira instância, despertada desde há alguns meses atrás, antes da viagem para Katmandu. Ora, como poderia a raiz ter influenciado a instância? Teriam raiz e instância contactado entre si contra as orientações? Haveria algum processo desconhecido envolvido? Será que através de ressonância mórfica ou algum processo quântico seria possível instâncias passarem memórias, expetativas ou outros processos e produtos mentais com as raízes? Até onde nos levaria tal possibilidade? Luísa recebeu a autorização, após alguns dias de espera, o que considerou estranho, pois desconhecia o motivo.


Interlúdio na Bretanha - Encontro com Eugène

Em meados de outubro a Bretanha começa a ter um tempo cinzento e desbotado, mas naquele ano de 1888 os dias solarengos estenderam-se por mais umas semanas.
Em Pont-Aven, madame Marie Jeanne Gloanec jubilava com o retorno dos seus hóspedes especiais - os pintores -, particularmente Eugène, que regressara após dois anos. Émile Bernard e Paul Serusier partilhavam um quartinho pequeno na Pension Gloanec, conhecida pelos preços acessíveis ou mesmo dispensa de pagamento pela compreensiva proprietária. Eram os tempos de fuga, em que os artistas abandonavam a cidade de Paris com as suas referências culturais... este grupo "bretão" rebelava-se contra o impressionismo e, em intensa tertúlia e experimentalismo, criava novos conceitos artísticos. Daqui surgiu o movimento Les Nabis e o sincretismo. Naqueles dias, Luísa foi também recebida por madame Gloanec, que se lhe apresentou como uma mulher prática, sem simpatias desmesuradas ao primeiro contacto. Atribuiu-lhe um cómodo pequeno e muito humilde. A higiene era aterradora. Sem água canalizada, era feita em bacios e vasos, com a água vertida de vasilhas. O cheiro era campestre. Por todo o lado o odor de animais. Luísa jantou ali mesmo na maison, uma comida aguada, com aroma estranhíssimo que se entranhava na roupa. A cozinha era feita por madame Roulle. Ela permitia aos hóspedes um tour à descrição para pedir petiscos e iguarias ou simplesmente conversar. Tudo na casa sinalizava uma tranquila transgressão.  Até a permissão de visitas especiais.
As paredes estavam repletas de pequenos óleos de acabamento duvidoso. Não seria de admirar que voltassem ao retoque. As tintas, cavaletes e pincéis acamavam-se pelos cantos.
Na cozinha, as panelas de todos os tamanhos pendiam em cascata desde o teto e o fogão oferecia um aroma a lenha muito agradável. Roulle servia com orgulho uma sopa  soberba, com carnes e ervas aromáticas.
Após a noite mal dormida, Luísa, fez questão de acordar bem cedo. Tal  como previra, Gauguin era madrugador, consequência das responsabilidades profissionais que tivera anteriormente. Mais maduro que os outros pintores, Gauguin andava entusiasmado com Paul Serusier a quem dava aulas ou tutoria, - assim o partilhava agora com Luísa, na cozinha de Roulle, enquanto comiam uma mistela saborosa como primeira refeição ao som dos galos e das primeiras hordas de ovelhas para a pastagem - uma chuva de sinetas. Gauguin ofereceu-se para mostrar o bosque aonde pintam habitualmente - Bosque D' Amour - e  demorou-se a explicar as suas ideias para uma nova arte desempoeirada da tirania da luz. Queria contornos, queria desenho, planura, queria expressar sentimentos e ideias e não ser mero recipiente passivo. Falou das estampas japonesas, de um estilo mais puro, menos retratista, menos vencido pela luz, mais -  diríamos hoje -, conceitual, sintético, entre o desenho e a pintura. Gauguin era um homem muito afável, que gostava de conversar; pareceu um pouco paternalista até. Luísa sentiu vontade de se tornar sua discípula, mas apercebeu-se que, afinal, pintar era coisa de homens, mesmo aos olhos do diferenciado Gauguin. -" Porquê?", questionou-se interiormente Luísa, sem ousar ferir a sensibilidade do interlocutor ou levantar suspeitas sobre si... outra sorte tivera Paul Serusier- Luísa pôde apreciar o seu mais recente pequeno quadro a óleo sobre madeira, tutorado por Eugène, enquanto o grupo de pintores sugeria  possíveis títulos - escolheram por fim:  o talismã! No dia seguinte Luísa regressou a Paris onde se reencontrou com Mário e se desinstanciaram temporariamente.

Mensagem de Luísa Bósforo a Mário Aesth, nas versões raízes. Tempos atuais.

Tomamos o individualismo como realidade. Não o é. Tu e eu demos mostra de potencialidades de influência recíproca, em modo diapasão, que nos permitem aspirar a algumas experiências de transcendência ontológica, do individual a um espaço comum de participação. Não sei ainda se só de nós dois, ou comum a mais gente ou seres, mas acredito que é isso mesmo. Intuo-o.

Para além do jardim maravilhoso a que teremos acesso, o sentido de missão diz-me que poderemos trazer algo de importante à humanidade, deixando o vivido em modo de transcendência permear as nossas invenções, onde elas se ousarem expressar: ciência, opinião, literatura..., e mais ainda, aumentar o património de memória da humanidade, possivelmente ingressado nos campos de ressonância mórfica ou afins, ainda não se sabe, embora haja vários sinais da sua existência. Lembro-me de Rilke, o poeta alemão, no-lo dizer nas suas Cartas a um Jovem Poeta.

Já sabias que a realidade era a ilusão - não te assustes, portanto - a fórmula de entrada é simples: o amor, ainda que em variadas expressões, mas possivelmente a mais potente envolva os químicos do amor físico.

Não me estranhes, nem me tomes por louca. Sabes que sou - somos os dois - feita dessa matéria que levou muitos à fogueira, ao escrutínio, à delação, ao confinamento, à prisão e à tortura... sabes como os nossos pensares se constituem perigo percecionado pelos normalizadores, usurpadores de direitos e poderes, pelos domesticadores de humanos. Sabes como somos inventores, sem sermos super ou sobre humanos. Somos só humanos conscientes. Meu querido Mário, não fujas, não obliteres esta experiência, não sufoques esta lava que vem da noosfera dos seres. Deixa que se misturem as duas essências que em ti e em mim vibram. Por nós e pela humanidade! Porque a morte tem-nos de encomenda, e não falta muito. Só ficarão essas instâncias por aí perdidas, em romances, em memórias dos outros, explícitas ou no coletivo inconsciente, massificado, pecando na indiferenciação - como sabes! Se as vivermos e de seguida as incluirmos ou explicitarmos em projecto humanos, damos-lhe a vida que merecem e validamos através disso também a nossa existência. Espero que tenhas compreendido o que quis dizer, que é tão codificado, mas de certo modo, é a nossa linguagem já experimentada. Acredito que entendes. Difícil será venceres o medo."

 

Luísa Bósforo ~1ª instanciação

Pediste-me, Mário, que te esclarecesse como foi vencido o cancro após a distopia tecnológica, a singularidade, dado que ficaste em coma e recuperaste grande parte do conhecimento por osmose, mas não todo. Aqui vai.

Afinal era mais simples do que se pensava. Recordas que em 2019 não se sabia como se especializavam as células em tecidos, em órgãos, etc., nem porque o sistema imunitário reagia em excesso uma vezes, provocando doenças autoimunes e noutras vezes relaxava a vigilância, permitindo, por exemplo, o desenvolvimento do cancro. Foi assumido que o humano tem pelo menos dois fenótipos: o corpo, com a sua diferenciação em órgãos, tecidos... e o fenótipo unicelular, a que se chamava a doença do cancro. Num golpe foi descoberta o funcionamento da autopoiética (lembras-te de Maturana e Varela?) que levava à especialização dos tecidos a partir das células germinativas (unicelulares) e a cura para o cancro (fenótipo unicelular) e para as autoimunes e deficiências de desenvolvimento - na verdade descobriu-se que o sistema imunitário tem um mapa topográfico de permissões, uma espécie de molde do corpo. Este mapa faz parte de um sistema de controlo com qualidades de conscientização (embora sem legibilidade pela mente humana), que julga, aprende, decide e que funciona de modo descentralizado - portanto não topográfico - e em modalidade quântica. Após a compreensão do fenómeno, uma intensa investigação conseguiu reprogramar o sistema imunitário - na verdade atualmente consegue-se a leitura tecnológica do sistema e a gestão do mesmo, embora geralmente em modo semiautomático. Foi maravilhoso. Estou muito contente de poder partilhar este avanço contigo.
Já reparaste que não temos apenas um sistema consciente, mas vários? Foi necessário assumir que havia consciência em função de um referencial. Por exemplo, o primeiro sistema a ser conhecido era consciente intuitivamente através da nossa perceção subjetiva. No entanto, outros sistemas conscientes e inteligentes existem nos indivíduos e também em conjuntos (constelações) de indivíduos, intuída por Sheldrake (do nosso tempo, recordas-te?) como Campos de Ressonância Morfogenética, ou ainda por místicos teosóficos como Helena Blavatsky que acedia a bibliotecas de modo telepático, etc.
Ah! E para acabar em beleza, sabes que o fenótipo unicelular é que é enviado para as colonizações extra espaciais, havendo já prova de que foi assim que a Terra foi colonizada. Já percebeste que o mesmo se passa com outras espécies! É que na versão unicelular, o fenótipo é muito mais resistente à radiação. Ainda assim, frágil o suficiente para o fenómeno ser raro.
Gosto muito de ti Mário! Espero que estejamos juntos brevemente, no passado ou no futuro. Sempre em instanciação, claro, face à impossibilidade da nossa relação no mundo "real- raiz".

 







 

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