As partes boas da estória
Se me tivesse lembrado que certos momentos são validados mais tarde como especiais, talvez tivesse prestado mais atenção aos detalhes, plasmado momentos em algumas fotos, ou to tivesse dito - mas ia parecer alarve, presunçosa - tolices e irracionalidades banais...Eram dias quase comuns, poderiam ser eternos... tão glamourosos e fincados no presente como costumam ser as experiências totalizantes...
Eu não poderia saber que ia guardar esses tesouros num aposento especial da memória, bem aclimatado, reconfortante...e o leque.
Vadiar em ruas enfeitadas para as festas populares, mirar o Tejo com minúsculos fios de contas douradas e navegadores solitários por entre o esvoaçar dos teu cabelos - tão giros -, que me tocavam no rosto, atrevidos. Em esplanadas e ruelas - labirintos sem pressa de solução -, os puzzles eram subjetivos. Seguia o teu discorrer sem importância pelo fio condutor da voz entremeada no linguarejar cosmopolita de Lisboa, animado pelo álcool, os aromas e os sabores eróticos da comida portuguesa...
Guiavas-me pelo teu ecossistema: passarinhávamos as ruelas, cansávamo-nos nas escadinhas, espreitávamos os recantos sombrios para pequenas escapadas; as mão que se tocavam sem se darem, as curiosidades da noite e dos timbres, os abraços simples, as nossas ousadias adolescentes nos bares... até me pegaste ao colo para me sentares no parapeito do quiosque.
Os fados. A casa de fados. A passagem de gente famosa, e outra, ali mesmo na nossa mesa a desvendar a sua vida privada; nós sentados em contramão... Quantas vezes te surpreendi a mirar-me ao longe no disfarce de uma fumaça de cigarro....
Frequentemente, em tua casa, as massagens na cabeça e o olhar de mago - tão profundo que uma vez me desenraizou e irrompi em prantos! Sem ao menos imaginar porquê. Nunca me olharam assim: não veio da carne aquele olhar que no fundo de mim se esgueirou, sem se explicar.
Ai aquele salgueiro ou chorão do teu jardim...Ao fundo, o palácio de Sintra. Quem tem este cenário para uma dança latina, guiada por um muchacho ardente e bem, muito bem ritmado, cruzando as taças de champanhe, naquele páteo mediterrânico, velado pela lua, as ceras tremeluzentes e os animais de estimação?!....
Cozinhavas o jantar com mimo; queimávamos o incenso; dançávamos...e depois eu fugia aos beijos e de ti, mas só no limite, aventurando-me nas contracurvas de Colares até à autoestrada de Cascais.
Hoje lembrei-me de ti: vi o leque que foste comprar num ápice quando me afrontei nos fados, e que guardei...
Fazias telefonemas sedutores, mas poucas vezes. Pronto! Não vou agora contar as coisas menos boas. Fica assim!