O Relógio de Sala
Era um senhor, o relógio de sala herdado. Posava cheio de dignidade dentro do seu nicho de madeira muito patinada! Ao abrir a portinhola: "cuidado para que não se quebre o vidro" - parecia arrepiar-se a sua voz rangente. Mas eu só ia fazer-lhe cócegas na intimidade das rodas dentadas e procurar a chave da sua vida de corda. Havia um buraco para o tlão e outro buraco para o tempo. Ele ria-se da minha atrapalhação: confesso não saber bem o que a chave faz acionar. Assim desnudado, via-lhe a pele do mostrador de papel com ligeiras imperfeições, os dois ponteiros autoritários e a roda dos números pasmados, cansados da observação. "Agora é uma; agora são duas", ensinara-me a ver o tempo quando eu era pequena. "Tlão-tlão" disse incansável a cada hora da minha vida e de todos da família; conseguiu compensar com primor as horas em correria com as interminavelmente lentas: o balanço deu sempre certo, sem sobras ou défices.
Ah e aquele enervante rigor de tic-tac, era só para aparência! Eu e o pequerrucho da casa escangalhávamos o riso com a batida atrevida e modernaça que ele fazia só para nós: tic tic tac, tic tic tac. O espírito renovado que havia nele, apaixonara-se, definitivamente, pelo rock!