Ghassan do mIRC
Hi. Iam Ghassan, from Lebanon. Iam a palestinian guy, living in Lahore.
Criei o canal Mirna no mIRC, onde sou o administrador. Vejam: @ghassan. Mirna em homenagem à minha prometida que morreu num bombardeamento em Shatila. Agora estudo engenharia civil na universidade de Lahore. Divirto-me a conviver com os meus conterrâneos da Palestina nos canais do mIRC. A partir dele conversamos também com ocidentais, geralmente mulheres. Somos sedutores e gentis. Convidamo-los a apoiar a nossa causa, a fazer manifestações à porta das embaixadas de Israel, namoriscamos, combinamos encontros. Os meus amigos já se encontraram com alemãs, eu tenho uma canadiana; há também raparigas dos Estados Unidos e de outros locais. Alguns dos meus amigos conseguem ir em comitivas visitar países europeus. É uma honra saber que o castelo de Lisboa foi construído pelos nossos, ou ir a Alhambra e sentir-se em casa...
Sou fluente em inglês e aprendo web design - dizem que é o futuro! Quando me formar vou para o Sudão fazer auto-estradas. Pagam bem! Depois, talvez para Riade e finalmente regressarei para casar. Aqui mesmo em Lahore. Não posso voltar ao Líbano.
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Ela tinha lido Inchalah, de Oriana Falacci e vira o filme Valsa com Bashir - ambos sobre os conflitos e destruição em Beirute. Ghassan era um personagem daquelas paragens - não lhe parecia real!
Pelo contrário, Zayn trabalhava no aeroporto de Beirute, vivia ainda com os pais depois de uma relação falhada e falava da realidade que ela reconhecia: da cidade de Beirute, do seu desenvolvimento, os centros comerciais, as avenidas, a cultura, o turismo... Era muito comedido ao falar dos refugiados palestinianos e parecia guardar algum ressentimento, que mal deixava escapar.
Em Jerusalém, vivia Habib que era cristão palestino. Doce, moderado, culto, era também ele real. Fazia questão de se mostrar integrado na sociedade israelita.
Para testar o avatar Ghassan, ela convidou-o a participar num encontro virtual no mIRC com um professor de história espanhol, sindicalista, um auxiliar de laboratório da universidade de Londrina e um professora universitária tunisina. O libanês preferiu ficar de fora. O palestino cristão não pôde comparecer. O brasileiro intitulou de A Torre de Babel aquele espaço. O espanhol precisava de tradutor. E conversaram... Ali, três homens e duas mulheres do Mundo, debateram questões culturais, étnicas e políticas. E Ghassan tornou-se real!
A justeza das quatro esposas e a virtude do véu. "Quem?! Freud? Não conheço!" Recebi The Litle Prince de oferta de uma europeia - deixem ver - escrito por um Saint-Exupery; um livro para crianças, não percebo a ideia de mo oferecerem... E muita conversa mais aconteceu.
Nos anos que se seguiram, o mIRC desapareceu, Ghassan evaporou-se no éter digital, mas o seu realismo cresceu cortante à medida que a Jihad se dava a conhecer e as torres gémeas estouraram. Que ligação poderia haver entre as conversas ingénuas do quotidiano virtual e aquele tipo de realidade?
Toda!