O Chapéu Desejado

A história começou em Madrid, por causa de um chapéu. Não era sequer um chapéu extraordinário. Era vermelho, o que já era bastante, e tinha aquela espécie de presença que alguns objetos adquirem quando não precisamos deles para nada. A mulher viu-o numa montra, experimentou-o, achou-o bonito e, por qualquer razão que só mais tarde haveria de perceber, não o comprou.


Disse às amigas:


— Devia ter comprado aquele chapéu vermelho.


E assim começou a viagem.


De Madrid seguiram para Oviedo. Depois vieram as excursões, as vilas piscatórias, as cidades históricas, as paisagens do norte, o mar Cantábrico e aquelas pequenas localidades onde parece que o tempo teve o bom senso de parar antes de estragar tudo.


As outras mulheres olhavam para igrejas, praças, casas antigas, portos, montanhas, mar.


Ela também.


Mas, de vez em quando, desaparecia.


— Onde está ela?


— Foi ver uma coisa.


A coisa era um chapéu.


Um chapéu giro, naturalmente.


Porque o chapéu vermelho de Madrid começara a adquirir uma importância desproporcionada. Já não era apenas um chapéu que ela não comprara. Um objeto que não compramos desaparece rapidamente da nossa vida. Mas um objeto que decidimos que devíamos ter comprado pode acompanhar-nos durante anos como uma história inacabada. Às vezes, uma vida inteira.


Em cada paragem, portanto, ela afastava-se das amigas e entrava numa loja.


Não procurava um chapéu.


Procurava "aquele" chapéu.


Ou, pelo menos, a possibilidade de encontrar outro que pudesse ocupar o seu lugar no desejo.


E dizia sempre o mesmo:


— Não vi nada de jeito!

— Vi um, mas não era tão giro.


As amigas começavam talvez a perceber que a viagem já não era exatamente uma viagem com paisagens, gastronomia, etc. Era uma ancoragem interior misteriosa.


Madrid tinha produzido o mistério. Oviedo dera-lhe continuidade. E o Cantábrico fornecia agora uma quantidade absurda de cenários para uma mulher procurar um chapéu que talvez nem sequer precisasse.


É uma das coisas mais curiosas dos seres humanos: conseguimos atravessar centenas de quilómetros para conhecer lugares que nunca vimos e, ao mesmo tempo, passar metade do tempo a procurar uma coisa que deixámos para trás.


Visitámos lugares históricos, vimos o mar, atravessámos vilas piscatórias, olhámos para paisagens que provavelmente mereciam uma atenção muito maior do que a que lhes demos.


Mas ela continuava a pensar no chapéu.


Talvez seja isto viajar.


Não vemos necessariamente aquilo que existe.


Vemos aquilo que levamos connosco.


No regresso, voltaram a Madrid.


E alguém, com uma generosidade talvez excessiva, talvez apenas cansada de ouvir falar no assunto, disse:


— Agora tens de ir comprar o chapéu.


Era uma oportunidade única.


O chapéu ainda podia estar lá.


Ou outro parecido.


Ou outro vermelho.


Ou simplesmente outro.


A mulher disse apenas: não! É  demasiado caro!


Era um pouco caro. A mulher podia pagá-lo! Mas já se apegara ao desejo. Construíra fantasias, mas reassomara à realidade: para que lhe serviria um chapéu  vermelho?


O chapéu vermelho tinha passado a representar uma oportunidade perdida, uma decisão adiada. Era agora quase um companheiro da viagem.


Fiquei a pensar nela.


Naquela mulher que atravessou Madrid, Oviedo, o norte de Espanha e o Cantábrico à procura de um chapéu vermelho. 


Talvez seja esse o verdadeiro problema das oportunidades perdidas: quando voltamos para as recuperar, trazemos connosco toda a viagem que entretanto fizemos.


O chapéu continua a ser vermelho.


Nós é que já não somos os mesmos.


No fundo, a vida está cheia de chapéus vermelhos.


Coisas que vimos.


Que quisemos.


Que deixámos.


Que depois procurámos noutros lugares.


E que, quando finalmente voltámos a encontrá-las, já não sabíamos muito bem se ainda as queríamos fora dos sonhos.

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