As roupas informais aconchegam-se-lhe à pele mumificada enquanto passeia no jardim contíguo ao palacete de Verão acompanhado pelo rumor imaginário das vestes de Leila, volúvel como a sombra à direção incerta da brisa, permeável ao contorno das ervas e árvores junto ao canal. É interrompido pela alegria vivaz de Ramuk que salta até ao peito e o esmaga até uma dor abrupta se avivar. Sente os olhos humidecerem de gratidão pela clareza da sensação que contraria a tendência confusa e lúgubre do remorso que se vem escavando sob os seus pés, como uma invasão assassina em conjuração nas bases da sua existência. Pode por momentos sentir o aroma acre e forte da vegetação junto ao canal pleno de vida, combinado com os lampejos incendiários da superfície estrelada de insectos em intenso labor. Suspira abrindo os pulmões. Captura de catadupa o piar chamativo das fêmeas do urubu, as cores ocre-pastel do orlado deserto quase adivinhadas no horizonte errático, vencidas por aromas de café e xerez. Toques fugazes de essência que só a memória pode apurar como um vinho delicado aberto após demorada maturação pelo seu autor... Leila!...
O Rio
Ao fundo, o rio parece uma serpente de prata a esgueirar-se na paisagem. A mulher está debruçada na margem da piscina de borda infinita a olhar o rio que se afasta devagar, cone após cone de montanha riscado por pés de videira escorreitos, sem míldio ou ferrugem, enfileirados e orgulhosos da sua casta. Ah! Quem vir o rio escorrer assim, inocente, não imagina o molde frio que envolve o homem que nele mergulha, que inesperadamente se sente só e descobre o cheiro a verde-podre e o lodaçal que chega a puxar-lhe os pés com avidez; as ervas a prender-lhe os cabelos; laços e enredos junto aos tornozelos e às mãos que os desemaranham, enquanto os peixes curiosos e indiferentes debicam a pele num toca e foge... mas o homem desimpede todas as ramificações do próprio corpo e forma depois um conjunto harmonioso com a superfície do rio deslizando nela; a barriga bronzeada virada para cima, agora que já se sente seguro, descansa, respira fundo. A mulher não o vê nem ele a vê a ela, tão longe qu...