O Amigo de Peniche.
A conhecida expressão que remonta à aliança mal honrada entre Portugal - Inglaterra, também lhe aconteceu a ela, já lá vão umas décadas.
Recebeu o amigo em sua casa, com rasgados elogios à sua criatividade, a pedir ajuda: uma peça de teatro infantil, a ser produzida por uma associação com fundos europeus. Pelo meio de boa conversa e um jantar, lá se foram alinhando algumas ideias. Na segunda visita, o amigo pediu-lhe para assumir a criação integral do texto da peça, porque arranjara emprego noutro ponto do país.
Ela assim o fez, teve muitas reuniões na dita associação com a presidente, a autora do livro de base, uma conhecida escritora de livros infantis - o diretor de uma companhia de teatro infantil e ouviu falar de um célebre músico português fazer a composição da banda sonora (e o valor milionário que levara). Depois de tudo articulado e da peça escrita, houve lugar ao pagamento.
Quando o amigo perguntou quanto cobrou, ficou escandalizado por ser tão barato e instruiu-a para levar quatro vezes mais. Mas ela achou que não devia, pois era a sua primeira peça e era completamente caloira. Combinaram que iriam assistir à estreia juntos. Ela ficou à espera que a avisassem. Esperou... convenceu-se que não fora a palco, mas em conversa telefónica com o amigo ele disse que já tinha ido assistir com a sobrinha. Ela ficou sem palavras.
Durante muitos anos guardou os rascunhos como uma espécie de prova de que alguma vez tinha feito uma peça que foi representada profissionalmente e no Maria Matos. Um dia desistiu e mandou os papéis fora. Ocorreu-lhe o seguinte: o amigo de Peniche tinha-se com certeza feito passar pelo autor da peça e ela seria a ghost writer (ou quase, neste caso) e recebido os 3/4 que lhe recomendara. Como não queria enfrentar a realidade, nomeadamente o nome que aparecia em cartaz, não a avisou. Mas só ele saberá se foi assim mesmo e se um dia ler esta história no FB, poderá esclarecer!