O ciclo de luz
A 30 de março decidiu acabar-se nas trevas. Fechar o nó.
Despediu-se do cão, escreveu o bilhete aos filhos e aos pais. A mais ninguém.
Dois dias antes soubera do casamento da filha, para abril. Não tinha dinheiro para a prenda.
Duas semanas antes convidara a amiga Ana para jantar lá em casa, três antes também. Sem resposta, depois resposta vaga. Em fevereiro não conseguia fazer nada se não dormir e pastar sempre o mesmo documentário que punha na TV, para dar ambiente. Em janeiro pedira conselhos para deixar o medicamento psiquiátrico, detestava-o, limitava-lhe a libido. Queria ler sobre antipsiquiatria. Não, não estava deprimido, felizmente. Voltar ao psicoterapeuta pago pela irmã? Não. Gostara, mas não havia mais nada para fazer com ele.
A 31 de dezembro deixara a amiga Ana pendurada na passagem de ano, trocara-a pela amiga Bela, que lhe telefonava todos os dias e com quem tivera um namoro tórrido recente. Mas voltou cedo para casa. Só. A meio de dezembro jantara por várias vezes com a amiga Ana. Pedira-lhe os beijos, aqueles "só deles". Pedira também desculpa pela relação "parva" tida no ano anterior. Explicara-lhe que ela não tinha nenhum problema, que conhecia várias mulheres impecáveis e interessantes sob todos os pontos de vista, que estavam sozinhas involuntariamente.
Falaram da vida. Falaram da morte, em particular do suicídio. Mas não namoraram.
Em outubro retomara o contacto com Ana, que não via há quase um ano. Fora também ao psiquiatra. Andava a perder o controlo, chegava a perder a noção do que fizera durante horas. Livrara-se de objetos que adorava. Metera-se em brigas violentas.
Em abril descontrolara tudo. Voltou ao álcool. Separa-se de Bela. Entre dezembro e abril tivera uma paixão por ela e chegaram a viver juntos. Reconciliou-se, finalmente, ao fim de anos, com o filho mais novo, a quem agredira, porque ousara namorar na casa de família, sem discrição.
Em outubro e novembro namorou com Ana, que queria ver todos os dias, menos quartas para descanso e quintas reservada para os três filhos. Ao mesmo tempo alimentava os perfis nos sites de encontros e namoros. Tivera casos e casos nos últimos anos, com os contactos feitos neles. Quatro anos atrás vivera com a Cristina, impecável, transgressora, que o mimava com classe. Foi um caso sério. Viviam na linha do Estoril, num condomínio "bem". Ele divorciara-se há pouco, fora despedido com uma enorme indemnização, andava a labutar com um doutoramento para saltar para a universidade privada. Recebia a bolsa de investigação, que foi suspensa. Perdeu o pé. Desistiu. Tentou aplicar o dinheiro, visitou feiras internacionais, esteve para fazer um bar em Alfama, mas desistiu. O dinheiro desapareceu. Os pais deram-lhe uma das suas casas. Arranjou um emprego menor para sobreviver com o ordenado mínimo. Nunca se restabelecera de perder a vida familiar - as saudades dos filhos consumiam-no.
Cinco anos antes vivia com a esposa de há duas décadas e os três filhos numa vivenda em Alvalade. Deixara-a para eles. Na grande corporação internacional ascendera até ao topo, mas a informática não se compadecia com a idade! Pagaram-lhe milionariamente para sair.
Durante o casamento, não suportava a monotonia da relação e enchia-a de amantes, prostitutas e drogas. Na adultícia jovem juntara-se com ex-colegas de curso e criaram, o que viria a ser, uma empresa de sucesso, cotada na bolsa. Mas expulsaram-no, traíram-no. O álcool ajudou!
Casara-se com uma mulher muito animada e bonita. Riquíssima! Inteligente! Mas não gostava tanto dela na cama como das outras, amantes, prostitutas...
Fora um aluno razoável no Instituto e fizera boas amizades com quem desenvolveria futuramente negócios e investigação. Em adolescente praticava os desportos mais finos da cidade, como bom burguês que era. Os pais floresciam em prosperidade num negócio de pronto-a-vestir. Fora uma criança mimada. A irmã, futura médica de sucesso, apaparicava-o. Era feliz!
Nasceu desejado, saudável. Veio à luz! Veio das trevas.
Fechou-se o ciclo, o nó.
Despediu-se do cão, escreveu o bilhete aos filhos e aos pais. A mais ninguém.
Dois dias antes soubera do casamento da filha, para abril. Não tinha dinheiro para a prenda.
Duas semanas antes convidara a amiga Ana para jantar lá em casa, três antes também. Sem resposta, depois resposta vaga. Em fevereiro não conseguia fazer nada se não dormir e pastar sempre o mesmo documentário que punha na TV, para dar ambiente. Em janeiro pedira conselhos para deixar o medicamento psiquiátrico, detestava-o, limitava-lhe a libido. Queria ler sobre antipsiquiatria. Não, não estava deprimido, felizmente. Voltar ao psicoterapeuta pago pela irmã? Não. Gostara, mas não havia mais nada para fazer com ele.
A 31 de dezembro deixara a amiga Ana pendurada na passagem de ano, trocara-a pela amiga Bela, que lhe telefonava todos os dias e com quem tivera um namoro tórrido recente. Mas voltou cedo para casa. Só. A meio de dezembro jantara por várias vezes com a amiga Ana. Pedira-lhe os beijos, aqueles "só deles". Pedira também desculpa pela relação "parva" tida no ano anterior. Explicara-lhe que ela não tinha nenhum problema, que conhecia várias mulheres impecáveis e interessantes sob todos os pontos de vista, que estavam sozinhas involuntariamente.
Falaram da vida. Falaram da morte, em particular do suicídio. Mas não namoraram.
Em outubro retomara o contacto com Ana, que não via há quase um ano. Fora também ao psiquiatra. Andava a perder o controlo, chegava a perder a noção do que fizera durante horas. Livrara-se de objetos que adorava. Metera-se em brigas violentas.
Em abril descontrolara tudo. Voltou ao álcool. Separa-se de Bela. Entre dezembro e abril tivera uma paixão por ela e chegaram a viver juntos. Reconciliou-se, finalmente, ao fim de anos, com o filho mais novo, a quem agredira, porque ousara namorar na casa de família, sem discrição.
Em outubro e novembro namorou com Ana, que queria ver todos os dias, menos quartas para descanso e quintas reservada para os três filhos. Ao mesmo tempo alimentava os perfis nos sites de encontros e namoros. Tivera casos e casos nos últimos anos, com os contactos feitos neles. Quatro anos atrás vivera com a Cristina, impecável, transgressora, que o mimava com classe. Foi um caso sério. Viviam na linha do Estoril, num condomínio "bem". Ele divorciara-se há pouco, fora despedido com uma enorme indemnização, andava a labutar com um doutoramento para saltar para a universidade privada. Recebia a bolsa de investigação, que foi suspensa. Perdeu o pé. Desistiu. Tentou aplicar o dinheiro, visitou feiras internacionais, esteve para fazer um bar em Alfama, mas desistiu. O dinheiro desapareceu. Os pais deram-lhe uma das suas casas. Arranjou um emprego menor para sobreviver com o ordenado mínimo. Nunca se restabelecera de perder a vida familiar - as saudades dos filhos consumiam-no.
Cinco anos antes vivia com a esposa de há duas décadas e os três filhos numa vivenda em Alvalade. Deixara-a para eles. Na grande corporação internacional ascendera até ao topo, mas a informática não se compadecia com a idade! Pagaram-lhe milionariamente para sair.
Durante o casamento, não suportava a monotonia da relação e enchia-a de amantes, prostitutas e drogas. Na adultícia jovem juntara-se com ex-colegas de curso e criaram, o que viria a ser, uma empresa de sucesso, cotada na bolsa. Mas expulsaram-no, traíram-no. O álcool ajudou!
Casara-se com uma mulher muito animada e bonita. Riquíssima! Inteligente! Mas não gostava tanto dela na cama como das outras, amantes, prostitutas...
Fora um aluno razoável no Instituto e fizera boas amizades com quem desenvolveria futuramente negócios e investigação. Em adolescente praticava os desportos mais finos da cidade, como bom burguês que era. Os pais floresciam em prosperidade num negócio de pronto-a-vestir. Fora uma criança mimada. A irmã, futura médica de sucesso, apaparicava-o. Era feliz!
Nasceu desejado, saudável. Veio à luz! Veio das trevas.
Fechou-se o ciclo, o nó.