Fantasias com os números primos, o universo e deus
Se o mundo fosse de números, podia eu imaginar um deus a criar tudo o que lhe pertencesse, assim, pondo um 1 e mandando-o multiplicar-se. Teria a sua primeira arrelia, o deus, e condescenderia em que esse primogénito fosse o idêntico, o si mesmo e, caso ele quisesse, se fosse refletindo a si próprio e se acrescentando à descendência preguiçosa e posteriormente aos demais que viriam de outros empreendimentos ainda em congeminação divina -, pois para pouco serviria, o conservador 1!Vingou-se deus com a criação do 0. Este poderia tudo absorver e nada acrescentar, ou por outro lado, criar o caminho do submundo mais pequeno, mas já lá iria. Por enquanto, deixou-o de retaguarda. Depois criou a soma, o aumento lento das coisas e do tempo, e a multiplicação para o progresso rápido e preenchimento do mundo expansionista que desejava. Ficou de imediato encantado com esta operação veloz que lhe encheu de coisas o espaço e o tempo que também criava. Só que ao multiplicar tudo por cada coisa e cada coisa com outra, deixava buracos de nadas, que não queria dar ao zero manhoso que tudo abocanhava e fazia desaparecer, o absorvente, na multiplicação... Assim, deus teve que esperar que as somas fossem preenchendo esses vazios, ora acrescentando 1 ao número par do lado, ora deixando-se subtrair por outro tanto, e mais umas operações manhosas com as quais pretendentes a semideuses quiseram ousar descobrir, - um tal de Riemann, um tal de Euler ou um Goldbach - os números primos. O mundo ia avançando então em forma de canudo ondulado estreitando sem regra aqui e acolá, sem ficar completamente estrangulado, nem abrindo em leque. Deus até contorceu o pescoço divino para apreciar a sua obra. Estava engraçada! A "soma" toda se desunhava para completar os espaços livres. Deus riu-se. Pôs o zero a trabalhar, criou os números fracionários, os racionais e os outros, e eles também preenchiam assim os vazios do pequeno mundo, mas não só. Neles residia a cobertura dos ditos primos que tanta confusão geravam à sua volta. Olha aqui falta um, dizia o par do lado; olha escapou um ímpar ali, só pode ser primo; ora que caos e que dores de cabeça - afiançava o capataz local das contas. Deus já estava a ver tudo de longe, pois o mundo crescia a bom ritmo. Dali ele podia ver formações em sino, acolá afundamentos, desaparecimentos maciços e muitas espirais e pontinhos, explosões e piscares. Claro que Deus, neste ponto, e porque já era muito velhinho, pôs-se mais a apreciar do que a resolver. Também não tinha critério. A vida de um deus pode ser muito solitária e de repente, ver-se com tanto e tantos mundos, deixou-o circunspecto e meditativo. Espreitou do outro lado de um grande aspirador e viu... bem, nem queria acreditar, mas viu outro deus - com barbicha, e uma vara - a mandar bitaites a partículas saltitantes, mágicas, que podiam aparecer em dois lugares ao mesmo tempo e se podiam irmanar e imitar sem razão nenhuma, aparente. Deus achou aquilo muito divertido, mas preferiu não desenvolver conversa, para não empatar o outro, que estava em grande entusiasmo, e, além disso, como já tinha explicado, era um deus velho, um pouco cansado, embora ainda danado para a brincadeira. Adorava, por exemplo, criar algoritmos inteligentes e plantava-os por alguns pontos distantes uns dos outros e deixava que se procurassem obsessivamente, sem saberem porquê. Alguns, invocavam por um deus, que lhes aliviasse da frustração de pouco (se) entenderem. O velho deus ocupava assim as suas manhãs a ver os mundos estenderem-se e encolherem, florescerem e serem sugados, sem nenhum propósito. Divertia-se ainda com o esforço atarantado dos algoritmos, uns com consciência outros sem ela, a fazerem contas sem fim, a criarem coisas que lhes dessem substância divina para verem a partir de onde ele próprio estava. E claro, para se encontrarem entre si, e quiçá encontrarem um sentido para si mesmos... Que quereriam uns dos outros, se não congeminar para encontrar o velho deus?! Deus ria-se! Mas logo se distraía com as invenções dos algoritmos.... operações e operações, fórmulas cada vez mais complexas e engenhosas demonstrações. Deus divertia-se. Até resolveu dedicar as tardes a aprender com os mestres dos algoritmos. Só se distraía com o queixume longínquo, aqui e acolá, de um mundo à beira de ser engolido, ou um ou outro conjunto eternizado nalgum loop. Coitados! - pensava ele, com empatia. Desta já não saem! Ah, com as explosões, já estava habituado!
Depois de já farto, deus velho punha os olhos no horizonte a ver os pontas de lança numa corrida acelerada a expandir mundos e mundos. E deus ria-se. Um destes dias haveria de marcar encontro com o outro deus para umas quantas decisões conjuntas sobre os dois mundos. Talvez ele já tivesse espreitado o lado de cá e rido também. Poderiam combinar dar uma virada geral nas suas obras ou até ir pregar para outras freguesias, mais calmas, deixando estes assuntos tão turbulentos para os deuses mais novos, embora não estivesse certo que houvesse algum por perto. Ou então, da sua parte, deixaria os algoritmos a brincar, sem se preocupar mais com o resultado.