Mari Requêta
Hoje comprei nêsperas. Ao comê-las, com gosto, captei no meu pensamento a lembrança da Mari Requêta, que tinha uma nespereira no quintal.
De cabelo à rapazinho, fungando com a permanente alergia, era magricela independentemente do que comesse e tinha a pele áspera e ressequida, o que a levava a peniscar as frações que se soltavam e a espalhar metodicamente o creme hidratante: Nívea, pois claro! Falava pelos cotovelos e repetia tudo, quando ao grupo se juntasse mais alguém. Sempre sorridente, tanto passava informações úteis como as maiores maledicências alheias. Como era inocente, todos lhe perdoavam, embora partilhassem o desejo de lhe mandar um trapo à boca. Por isso mesmo, era considerada uma boca de trapos!
A Mari Requêta tinha uma família diferente do comum. O pai, embora da terra, era uma pessoa diferenciada, muito educada, quase urbana. Ouvi que, no passado, fora denunciado por um vizinho à PIDE. Terá ido para a prisão?
Lembro o pai da Mari Requêta a chamá-la frequentemente - filha única, quase lhe gastavam o nome lá em casa. Era altíssimo para o meu ponto de vista. Vendia pão e outras poucas coisas de mercearia, penso, sem alaridos ou marketing, sem pressas, como um life style!... Debruçado sobre a bancada patinada, clamava contra governos e governantes e opinava sobre o que pudesse estar por resolver. Tinha portanto o seu quórum político, embora eu não me lembre de ninguém. Talvez fizesse conversa com os clientes, um chit-chat azedo para acompanhar o pão comprado. Sei lá eu - que era tão criança!
A mãe da Mari Requêta tinha postura de professora primária: uma distinta prosódia, uma excelente articulação. Pouco falava e estava sempre zangada com qualquer imperfeição do seu pequeno, minúsculo mundo entre a casa e o quintal. Era adoentada e muito volumosa.
Pouco frequentei a sua casa - era a Mari Requêta que vinha para o grupo de primos e tios que tínhamos em comum - mas lembro-me bem desses momentos. A sala de estar - o local mais profundo da casa aonde me foi permitida a entrada, tinha um aroma forte a limpador de móveis, um brilho impecável por tudo o que pudesse ser polido. Diria que me fazia lembrar uma igreja pelo tabu, e pelos aromas quase incensuais... Curiosamente era o casal mais agnóstico da região!
A Mari Requêta estava sempre a ser repreendida pela mãe. Na cozinha, podíamos brincar, nós as duas e mais a Lena, com chorões de cabelo sedoso e cabeça de borracha, olhos semifechados e corpos de tecido, que os deixava pender sobre os nossos ombros maternais. Brincávamos às casinhas, mas os chorões eram o nosso encanto - debruçados, choravam para nós, suas mães enternecidas. Nada mais nos era permitido pela mãe da Requêta, para não não sujarmos - nem sequer brincar no pátio!
A casa de banho, externa, era uma delícia, o ex-libris da casa e o orgulho da sua dona. Parecia um antiquário. O lavatório, o jarro, o alguidar de enorme diâmetro, os linhos, os naperons, tudo branco marfim à exceção dos naperons, que eram em cores pastel; os sabonetes tinham um aroma encantador, talvez Lux, talvez Feno de Portugal, talvez franceses. Espreitar a casa de banho, ou ter o privilégio de ver preparar um banho, era como ir a uma sessão de SPA inteirinha. Nesse momento, a mãe da Requêta, quando já éramos púberes, aproveitava para nos alarmar com as gravíssimas consequências para a saúde mental, de se tomar banho durante o período menstrual.
Mais à frente da dulcíssima casa de banho, havia uma arribana com lenha e outros arrumos. Era o local de eleição para as gatas parirem. A família da Mari Requêta já tinha alguns gatos e para não matarem os recém-nascidos, dedicavam-se a encontrar donos para eles. Lá conseguiram convencer a minha família a aceitar um gato que fui escolher à arribana. Pus os olhos num amarelo, depois identificado como gata, e eis a minha primeira: era arisca e grande safada. Mas lá viveu connosco ora em Lisboa ora na terra, até morrer, muitos anos depois!
A morte dos gatinhos bebés não era escondida das crianças e recordo bem a aflição dos animais, que faz parte da minha coleção de traumas com os maus tratos aos animais, assistidos na aldeia, praticados despudoradamente. Era uma atividade como outra qualquer!
A Mari Requêta tinha umas tias ricas nas Caldas da Rainha, irmãs da mãe. Não deviam concordar com o casamento pois não me lembro delas terem visitado a família. E penso que era isso que se dizia. Mas gostavam da Mari Requêta e apoiaram a sua escolarização nas Caldas da Rainha. Faziam também férias com ela na Foz do Arelho. Eu e os meus grupos de adolescentes, todos amantes do bronzeado da pele, não percebíamos como a Mari Requêta fazia quinze dias de praia e ficava como a lixívia. Bom! um pouco encardida!
Um dia, encontrei-me com ela e percebi porquê. Iam sempre para o pé do mar alto. Nunca se misturavam com a trupe da lagoa. Alugavam barraquinha e ficavam lá dentro a bater o dente com frio. Em raros momentos de trégua de ventania, molhavam o pezinho, a medo, nas ondas gigantes e poderosas, ávidas de atrevidos idiotas. Coisa que elas não eram. Besuntavam-se com Nívea Solar e, eram assim, as pessoas mais racionais que eu conhecia! E mandonas! pois até aos outros familiares ou não, crianças, adolescentes ou adultos, elas repreendiam e davam orientações irrevogáveis.
Curiosamente, foi com a Mari Requêta, um ano mais velha do que eu, que tive a primeira aula de educação sexual: foi num dia em que nos afundámos pelos armazéns alugados pelo pai dela, onde tinha a loja. Caminhámos pelo armazém fora, pelo meio da escuridão com cautela, por entre barrotes, sacas de serapilheira cheias de qualquer produto, e então, ela sussurrante, informou-me de que "as mulheres diziam que era pior fazê-los do que tê-los", aos filhos! Pedi de imediato detalhadas explicações, mas a professora só sabia o que ouvira! Desisti! Para me animar, informou-me de que o filho do Tonho de qualquer coisa, andava interessado na Lena e algo mais de que já não me lembro! Mas fiquei seriamente preocupada, até que um dia mais tarde tirei a limpo com outras mais informadas e descredibilizei, cá para mim, a Mari Requêta, que era obviamente uma boca de trapos. Amorosa!
Muitos anos mais tarde, alguém me disse que a jovem que estava à minha frente, era a Mari Requêta: uma sorridente e linda mulher!