Tremeliques

No ano em que vivi com a avó na aldeia, ela um dia acordou aos gritos. Assustei-me e perguntei o que se passava. Ela respondeu com mais gritos!.. Uns instantes depois foi para a porta da rua modulando o grito inicial e começou a ser acompanhada por outras mulheres que a diferentes distâncias faziam o mesmo. 

Eu estava habituada a que a avó ficasse perturbada com fenómenos naturais como trovoadas, mas nunca o fizera em coro.

Fiquei perplexa: seria alguma festa, algum ritual como o enterro do entrudo, ou outra das muitas novidades que eu observava na aldeia durante aquele ano?!

Não ouves?! Disse-me ela por fim! Os tambores? Perguntei eu.

Não são tambores! É a terra a tremer!

Ora bem..tinha tanto sono e estavam ali umas mulheres gritar por causa da terra - para mim terra era a camada mais fina, solta dos caminhos, que se desfazia em poeira.... 

São uns tambores, teimava eu! Onde estão? Rapidamente comecei a sentir a fina terra a cair-me no rosto vinda das tábuas do teto, que estavam dançarinas: achei graça, mas também se começou a desenhar um cenário de estranheza na minha mente!

Por fim, a avó acalmou e voltou para a cama - como se tivesse sido acometida por uma ataque de histeria, estava exausta e dorida com Deus. 

Foi um tremor de terra, é a terra toda a abanar, pode- nos engolir, disse, mais calma. Que fantástico, pensei eu!

Na manhã seguinte vi casas com rasgões de cima a baixo, uma das partes tinha deslizado em relação à outra e percebi que era algo de sério. Não se falava de outra coisa e corriam notícias dos estragos aqui e ali!

Os meus pais chegaram de Lisboa, com o mano e acompanhantes a quem tinham dado boleia e alojamento para irem a consultas médicas. Estavam todos transtornados. Uns tinham desmaiado, outros tinham feito uma conversão rápida ao cristianismo. Só o meu irmão, bebezinho, não dera conta de nada!

E foi assim que vivi o meu primeiro e maior tremor de terra: quase divertida!

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