Gaivotas

Chegou a vez da Rainha, recolhida para uma cova na areia e abandonada a morrer à sede, à fome, não chegando a tolher completamente da doença. Primeiro, apareceu a jovem Fonte, filha da Telha, inexperiente. Ficou alarmada: - Rainha. Rainha, sai daí, que te prenderam, anda, foge! Num ímpeto, a Rainha cedeu àquela ideia louca e saltou para fora da cova, mas mais não conseguiu fazer. 

Os humanos passavam sem lhe ligar. Ficou muito surpreendida: era a primeira vez. Ela que sempre mediu boas distâncias com eles, mesmo após ser adotada no bando Champions da Pesca, da pesca dos pescadores e da caça à sobra, em que tinham o convívio possível com gente. Sempre teve cuidados redobrados, a quem por detrás surja, geralmente os mais pequenos, uma correria gritada, insane. Muito diferente dos avisos, cantos, e noticiário entre gaivotas. Dali não se esperaria nada se não fazê-las assustar e levantar vôo em debandada. E olhavam os mais velhos para um pedaço escuro que punham entre eles e nós. Para quê?! Ultimamente, era assim! Fotos, diz a Telha, que ouviu dizer da Mata, conhecimento de gerações, a perder de vista.

Mas ela era a Rainha e foi acometida pelo entrevamento das patas. Ainda há poucas horas caminhava desengonçada, sem conseguir levantar vôo. Quedava-se então especada no meio da areia molhada, só, em comportamento suspeito! Assustou-se de morte! E soube que era isso mesmo, o seu dia estava a chegar, pela tortura. Perdeu o apetite. Um humano deixou-lhe uns restos, mas nem lhe vai tocar. Tem sede. Ainda agora é noite. Amanhã, ao sol, nem quer pensar! Quem dera morrer rápido!

A Rivera e sua trupe fizeram-lhe voos rasantes e ovais. - Que tens tu pobre Rainha?! Ai desgraça, calhou-te agora a ti! Chegou o teu dia. Ninguém toca nos alimentos da Rainha, ouviram?! - advertiu as mais gulosas e aprendizes da moral das gaivotas... Já a Fonte, filha da Telha, chamada em momentos formais por Fonte da Telha, passara-lhe pela cabeça de vento aproveitar a salsicha que secava ao lado da Rainha, mas depois tomou a decisão certa. - Leva-me contigo , amiga, suplicou a Rainha à petiz. Ela não podia, claro, e aspergiu uns pingos lamentando não ter o dom dos humanos de fazer milagres, verdadeiros milagres. Elas, as gaivotas, só podem passar e desejar um rápido fim! E Fonte da Telha levantou um vôo decidido e foi avisar o Rei e o Pescador, que por lá também passaram em elegante ritual circular sobre a pobre Rainha, dizendo-lhe adeus. - Foste uma boa companheira. Vai com Deus. O Deus dos espíritos dos homens. Lembra-te que podes voltar num deles, que foste bom membro da nossa sociedade. Não te lamentes, aceita. Tiveste uma vida boa. A Rainha rodou a sua cabeça a trezentos e sessenta graus e viu o último pôr do sol, a neblina de setembro a enrolar-se desde além, cheirou a maresia, lembrou flashes da sua vida e fechou os olhos no escuro da noite e dormiu!

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