Lembrança Solta
Por todo o lado a caliça era muito criativa ao cair deixava figuras de desenho animado ou de terror a gosto particularmente no inverno era rainha da atenção meditativa. No verão as espigas eram bonitas loiras formosas emanavam um bafo quente e dançavam rock ao vento. Da pedreira sacava pequenas rochas que granulavam pedindo formas a esculpir de brincadeira. As rosas espinhosas e de pequena corola ficavam dependuradas na argola da santa da estrada num nicho onde parávamos para descansar da subida e reforçar os ramos compor-lhes a inclinação e espreitar de soslaio o olhar de Maria e o manto azul as contas penduradas das mãos magras e compridas. Nem sempre as bermas da estrada nacional eram banais havia uma que parecia cortada à faca e era senhora da enormidade e dos mesmos mistérios estéreis das minas cavadas rasas de água que brota por todo o lado até na primavera fica inerte a pedra ferrosa de ambas.
Já em casa cheira a azeite coagulado na garrafa sacado com impulso vem benzer as batatas e o peixe que agora abunda os comensais gostam de lembrar quando dividiam uma sardinha e havia guerra lá fora embora eu tivesse visto ou ouvido os funerais com morteiros de outra guerra que não parecia afetar a refeição da tarde, o jantar, mas invadia a ceia com pedidos dos soldados do ultramar e as suas canções na rádio de que me lembro uma "mamãe...
https://youtu.be/yNKea_eRVYE