A Psicologia Escolar está a fazer as perguntas erradas?
A Psicologia Escolar está a fazer as perguntas erradas?
Notas de leitura inspiradas em Hiperpolítica, de Anton Jäger
Há livros que nos oferecem respostas.
Outros têm um efeito mais perturbador: fazem-nos desconfiar das perguntas que sempre fizemos.
É isso que me está a acontecer ao ler Hiperpolítica, de Anton Jäger.
Não porque o livro fale de Psicologia Escolar – não fala –, mas porque me levou a colocar uma hipótese que me parece cada vez mais difícil de ignorar.
E se a Psicologia Escolar estiver, em muitos aspetos, a tentar resolver problemas do século XXI com categorias construídas para uma sociedade que já não existe?
A pergunta pode parecer excessiva. Talvez seja. Mas vale a pena experimentá-la.
Quando uma criança revela ansiedade, quando um adolescente parece desmotivado, quando um aluno não consegue concentrar-se ou apresenta dificuldades de relacionamento, a Psicologia procura – legitimamente – compreender o indivíduo.
Olha para a história de vida.
Para a família.
Para a escola.
Para as características cognitivas.
Para os aspetos emocionais.
Tudo isto continua a ser indispensável.
Mas será suficiente?
Ou estaremos a ignorar o maior contexto de todos: a transformação da própria sociedade?
A Psicologia tende a perguntar:
"O que se passa com este aluno?"
Talvez devêssemos começar, mais vezes, por perguntar:
"O que se passa com o mundo em que este aluno está a crescer?"
O indivíduo nunca existiu sozinho
Durante décadas, habituámo-nos a pensar que o comportamento resulta do encontro entre a personalidade e o ambiente próximo.
Mas o "ambiente" mudou profundamente.
Hoje, um aluno chega à escola já moldado por milhares de horas de experiências digitais, por uma cultura de exposição permanente, por ritmos acelerados, por fluxos contínuos de informação e por formas de participação completamente diferentes das que existiam há apenas duas ou três décadas.
Não é apenas uma questão de tecnologia.
É uma transformação da forma como pertencemos, comunicamos, construímos identidade e damos sentido à experiência.
Será possível compreender os problemas psicológicos ignorando esta mudança?
Psicologizar aquilo que é estrutural
Talvez estejamos a cometer um erro subtil.
Perante dificuldades que têm raízes culturais e sociais profundas, respondemos quase sempre com categorias individuais.
Fala-se de autoestima.
De motivação.
De ansiedade.
De défices de competências.
Tudo isto existe.
Mas talvez represente apenas a superfície.
Talvez uma parte crescente do sofrimento psicológico seja produzida por condições estruturais que raramente entram na consulta do psicólogo ou na sala de aula.
Não porque não existam.
Mas porque ainda não aprendemos a vê-las.
A ilusão de que basta falar
Há outra questão que me inquieta.
Grande parte da Psicologia continua organizada em torno da linguagem.
Compreender.
Interpretar.
Narrar.
Reformular.
Falar.
Tudo isto é importante.
Mas será suficiente para compreender um ser humano que vive permanentemente exposto a estímulos, aceleração, comparação e exigência?
Ou será que continuamos demasiado presos a uma visão racionalista da pessoa?
O grande esquecimento: o corpo
Curiosamente, vivemos na época do culto do corpo.
Nunca houve tantos ginásios.
Nunca se venderam tantos suplementos.
Nunca houve tantas cirurgias estéticas.
Nunca se mediu tanto o corpo.
Mas talvez nunca o tenhamos escutado tão pouco.
Transformámos o corpo num projeto.
Num objeto de desempenho.
Num cartão de visita.
Num perfil.
Num conjunto de números.
Mas o corpo que sente medo, segurança, exaustão, tranquilidade ou tensão desapareceu quase do discurso público.
Paradoxalmente, quanto mais investimos na imagem corporal, menos parecemos capazes de reconhecer os sinais do próprio organismo.
Talvez saibamos calcular proteínas.
Mas já não saibamos reconhecer hipervigilância.
Talvez saibamos otimizar o corpo.
Mas já não saibamos habitá-lo.
Uma Psicologia para outra sociedade
Não proponho abandonar tudo o que a Psicologia construiu.
Seria absurdo.
Proponho apenas uma pergunta.
Será que a disciplina precisa de ampliar o seu campo de visão?
Talvez a Psicologia Escolar tenha de deixar de estudar apenas o aluno.
Talvez tenha também de estudar a arquitetura cultural que o produz.
As formas contemporâneas de atenção.
Os modos de pertença.
A relação com o corpo.
A experiência do tempo.
A fragmentação da comunidade.
A economia da exposição.
As novas formas de isolamento.
Não para substituir a Psicologia pela Sociologia.
Mas para reconhecer que o sujeito psicológico nunca existe fora da história.
Talvez a pergunta mais importante seja outra
Durante anos perguntámos:
"O que tem este aluno?"
Depois aprendemos a perguntar:
"O que aconteceu a este aluno?"
Talvez esteja a chegar o momento de acrescentar uma terceira pergunta:
"Em que tipo de sociedade estamos a pedir a este aluno que cresça, aprenda e construa a sua identidade?"
Tenho a sensação de que muitas das respostas que procuramos na Psicologia Escolar só começarão a aparecer quando tivermos coragem de formular esta pergunta.
Talvez a educação do século XXI não precise apenas de novas técnicas.
Talvez precise, antes de tudo, de um novo olhar.