Novos modelos em Psicologia Escolar… ou apenas novos rótulos para velhas ideias?

Há uma pergunta que me tem incomodado com alguma persistência: será que estamos mesmo a inovar na forma como pensamos a intervenção psicológica na escola, ou estamos apenas a trocar o vocabulário para continuar a fazer mais ou menos o mesmo?

Pergunto isto com alguma ironia, porque o campo está cheio de “novidades”. Programas de competências socioemocionais, educação para o bem-estar, mindfulness escolar, prevenção do burnout infantil, literacia emocional, e agora o inevitável SEL — como se finalmente tivéssemos encontrado a peça que faltava no puzzle da educação.

Mas a pergunta que me ocorre, talvez menos confortável, é outra: se temos tantos modelos novos, porque é que as perguntas antigas continuam a produzir os mesmos resultados?

Quando um aluno não se concentra, explicamos-lhe estratégias de atenção. Quando está ansioso, ensinamos-lhe regulação emocional. Quando se desorganiza, treinamos competências executivas. Quando não se adapta, trabalhamos competências sociais.

E a escola continua, no essencial, a funcionar da mesma forma.

Talvez a verdadeira inovação não esteja a acontecer onde pensamos.

Ou talvez estejamos apenas a sofisticar o mesmo gesto: ajustar o indivíduo ao sistema.

E aqui surge a questão incómoda sobre programas como o SEL. Será que estamos perante uma mudança de paradigma… ou perante uma elegante forma de dizer ao aluno: “aprende a adaptar-te a um ambiente que não vamos mexer”?

Será mesmo “educação socioemocional” ou uma espécie de pedagogia da adaptação emocional ao ruído permanente?

E mais ainda: quando falamos de competências emocionais, estamos a falar de competências… ou de sobrevivência psicológica num contexto pouco regulador?

Outra pergunta que raramente fazemos: e se a criança não tiver um défice de autorregulação, mas sim um excesso de desregulação externa? E se o problema não for ela não saber focar-se, mas o mundo nunca lhe dar a oportunidade de permanecer focada?

Talvez devêssemos inverter algumas hipóteses. Em vez de perguntar “como ensinar atenção?”, talvez perguntar “o que fizemos à atenção?”. Em vez de “como melhorar a regulação emocional?”, talvez “que tipo de ambientes produzem esta necessidade constante de regulação?”.

Mas isso já nos leva para um terreno menos confortável — o da estrutura.

Porque é muito mais simples trabalhar o aluno do que questionar o modelo de aula. É muito mais operacional ensinar técnicas de respiração do que perguntar porque é que um corpo de 10, 12 ou 15 anos está sistematicamente em estado de ativação.

E aqui entramos num ponto curioso da Psicologia Escolar contemporânea: nunca se falou tanto de emoções… e nunca se falou tão pouco de corpo.

Falamos de autorregulação como se fosse um fenómeno mental. Falamos de comportamento como se fosse uma decisão isolada. Falamos de aprendizagem como se fosse um processo exclusivamente cognitivo.

Entretanto, o corpo continua lá — sentado, exposto, estimulado, interrompido, avaliado, comparado, medido.

Será estranho que, neste contexto, surjam dificuldades de atenção? Será surpreendente que o sistema nervoso não distinga bem entre ameaça real e estímulo constante? Ou será apenas mais fácil dizer que “a criança não regula bem as emoções”?

E depois há outra ironia ainda maior: nunca houve tanto discurso sobre bem-estar e nunca houve tanta dificuldade em simplesmente estar.

Talvez não seja falta de programas. Talvez seja excesso de ruído.

Talvez não seja falta de competências. Talvez seja excesso de exigência simultânea.

Talvez não seja falta de intervenção psicológica. Talvez seja um excesso de intervenção em cima de sistemas já sobrecarregados.

E aqui deixo algumas perguntas, sem pretensão de resposta rápida:

Será que estamos a criar alunos emocionalmente competentes para um mundo que continua emocionalmente caótico?

Será que estamos a ensinar autorregulação sem ensinar regulação do ambiente?

Será que estamos a formar indivíduos resilientes ou apenas indivíduos adaptados ao excesso?

Será que a escola está a ficar mais psicológica… ou apenas mais psicologizada?

E, talvez a mais incómoda de todas:

se tudo tem de ser trabalhado no indivíduo — atenção, emoção, comportamento, motivação — o que sobra então para o mundo?

Não estou a defender regressos nostálgicos a uma escola idealizada, nem a negar a utilidade de muitas destas abordagens. Mas começo a suspeitar que, por vezes, chamamos “inovação” ao que é apenas uma forma mais sofisticada de não mexer no essencial.

Talvez o desafio não seja ensinar mais competências emocionais.

Talvez seja ter coragem de perguntar menos “como ajustar o aluno?” e mais “o que estamos a pedir ao aluno que aguente?”

E, sobretudo, talvez seja aceitar que nem tudo se resolve dentro da cabeça de uma criança.

Algumas coisas terão de ser pensadas no modo como organizamos o tempo, o corpo, a relação e a própria experiência de estar numa escola.

O resto pode ser apenas uma forma elegante de continuar tudo igual, com melhores slides e palavras mais bonitas.

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