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Tratar por Tu

Estou de volta. Sem projeto. Ainda bem! Tento a liberdade. Temo a liberdade. Tenho esperado por ela. Pu-la no horizonte. Como na parede dos presos, agora a contagem decresce. Vem até mim a temida, a julgadora última. Faço-te uma pega! Vem, danada! Tenho ouvido muito ruído. Os meus pares conspiram pelos poros das redes sociais. Enxurradas de ideias. A intensidade e a polaridade rasgam-me em metades de cada vez que me exponho pela leitura. Sinto-me esfarrapada. Guardo o meu conteúdo interior em bolhas. Será que resistem a tanta agressão? É tudo tão rápido...e tu? E tu?! Ainda balanceio entre sim e sopas nos dias de vento fino pelas frestas mal betumadas do eu. Trato-te agora por tu! Cada vez mais feneces. Estás tão cadavérico, mas ainda apareces. És como um verniz difícil de decapar - ou é a minha falta de habilidade?! Esforço-me sem fim. Nunca desisto de te erodir. Esfrego com afinco a tua barbaridade e pedacinho a pedacinho vais sumindo, deixando aquele lastro feio, raspado, revelador ...

A Dor e as Árvores

Regresso aqui por necessidade. Ainda bem que não vais ler. Partiste!  A textura da língua - áspera -, recorda-me tempos de inação, de sem-rumo; do entorno que costuma acompanhar-me vindo dos confins do universo - sabe-se lá porquê?! Tão persistente! Melhor não insistir eu, volver transparente: há várias possibilidades: a máscara social; o estertor final... mais não me ocorrem, porque nem importa!  Encontrei-te várias vezes ao longo da vida, mesmo quando apareceste com disfarces. Muitas mesmo. Repetiu-se. Repetimos: o princípio, o engodo e o fim. Independentemente dos meandros da historieta de príncipes ou quase isso. Já sei! Já estudei! São heresias de trovadores, paixões irrealizáveis, narcisismo encapotado, inconsciente coletivo, arquétipos... Mas porquê tanta insistência? Atormentem-se outros! Distribua-se a dor! Tão dor! Desta vez fui Xerazade: desdobrei-me em imaginação. Eras mentira total, indiferença! Dei conta que me sugeriste o suicídio - nunca ninguém foi tão cruel! ...

INTERMUNDOS

INTERMUNDOS 1 Apresentação Mário Aesth e Luísa Bósforo vivem em Portugal num ambiente de pós-singularidade tecnológica, mantendo uma relação frugal e ambígua entre si. Aceitam participar em experiências científicas que se desenvolvem ao longo de viagens míticas pelo Mundo e pela história real ou ficcionada em romances ou livros de viagens. Na verdade não são Luísa, nem Mário, mas as suas instâncias que viajam - uma clonagem que inclui a experiência vivida até ao momento da separação entre o ser original, chamado de raiz, e a sua instância. A fractalização acontece quando se possibilita a reinstanciação sem limite: cada uma pode dar origem a outras. A trama das relações entre instâncias, a complexidade do espaço-tempo, a nova ciência que incorpora as artes, ciências físicas, sociais e humanidades favorece um novo despontar da humanidade. Luísa e Mário protagonizam, além disso, a sua própria história em possibilidades que apenas acontecem nas vidas não-lineares. Nós em Katmandu ...

Pensamentos ociosilly.

A noite foi  dormida aos solavancos: toca o sino da igreja, grasnam as gaivotas. Afinal estás de férias!... Chegas à praia menos cedo que o prometido ao deitar. Seja. Ainda pouca gente. Primeira banhoca. Sossego. Logo vão chegando. Rezas para que os bebés gémeos não fiquem por perto. Ficaram. Esta sustentável. Vão continuando a chegar. " Olhem o Covid; três metros sff..." Decides deixar de seguir quem chega com olhar predador (o teu e o deles) a rastrear a areia. Contagia-te uma certa angústia decisória: põe aqui, é melhor ali, olha o creme, queres que te ponha nas costas, a maré está a subir, está a descer, está fria ou quente - tudo previsto, o maxi silly de praia serve para um debate de perspetivas opostas. Aguentas. Viras o frango... já foste à primeira banhoca, nada mal, ainda não estás satisfeita. Afinal estás quase na alheta, passam por ti às dezenas, sem máscara e sem distância. Aguentas. Pensas, como é bom estares assim, sem ter de fazer conversa idiota, nem contar...

O Amigo de Peniche.

A conhecida expressão que remonta à aliança mal honrada entre Portugal - Inglaterra, também lhe aconteceu a ela, já lá vão umas décadas. Recebeu o amigo em sua casa, com rasgados elogios à sua criatividade, a pedir ajuda: uma peça de teatro infantil, a ser produzida por uma associação com fundos europeus. Pelo meio de boa conversa e um jantar, lá se foram alinhando algumas ideias. Na segunda visita, o amigo pediu-lhe para assumir a criação integral do texto da peça, porque arranjara emprego noutro ponto do país. Ela assim o fez, teve muitas reuniões na dita associação com a presidente, a autora do livro de base, uma conhecida escritora de livros infantis - o diretor de uma companhia de teatro infantil e ouviu falar de um célebre músico português fazer a composição da banda sonora (e o valor milionário que levara). Depois de tudo articulado e da peça escrita, houve lugar ao pagamento. Quando o amigo perguntou quanto cobrou, ficou escandalizado por ser tão barato e instruiu-a para le...

O ciclo de luz

A 30 de março decidiu acabar-se nas trevas. Fechar o nó. Despediu-se do cão, escreveu o bilhete aos filhos e aos pais. A mais ninguém. Dois dias antes soubera do casamento da filha, para abril. Não tinha dinheiro para a prenda. Duas semanas antes convidara a amiga Ana para jantar lá em casa, três antes também. Sem resposta, depois resposta vaga. Em fevereiro não conseguia fazer nada se não dormir e pastar sempre o mesmo documentário que punha na TV, para dar ambiente. Em janeiro pedira conselhos para deixar o medicamento psiquiátrico, detestava-o, limitava-lhe a libido. Queria ler sobre antipsiquiatria. Não, não estava deprimido, felizmente. Voltar ao psicoterapeuta pago pela irmã? Não. Gostara, mas não havia mais nada para fazer com ele. A 31 de dezembro deixara a amiga Ana pendurada na passagem de ano, trocara-a pela amiga Bela, que lhe telefonava todos os dias e com quem tivera um namoro tórrido recente. Mas voltou cedo para casa. Só. A meio de dezembro jantara por várias vezes com ...