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As partes boas da estória

Se me tivesse lembrado que certos momentos são validados mais tarde como especiais, talvez tivesse prestado mais atenção aos detalhes, plasmado momentos em algumas fotos, ou to tivesse dito - mas ia parecer alarve, presunçosa - tolices e irracionalidades banais...Eram dias quase comuns, poderiam ser eternos... tão glamourosos e fincados no presente como costumam ser as experiências totalizantes... Eu não poderia saber que ia guardar esses tesouros num aposento especial da memória, bem aclimatado, reconfortante...e o leque. Vadiar em ruas enfeitadas para as festas populares, mirar o Tejo com minúsculos fios de contas douradas e navegadores solitários por entre o esvoaçar dos teu cabelos - tão giros -, que me tocavam no rosto, atrevidos. Em esplanadas e ruelas - labirintos sem pressa de solução -, os puzzles eram subjetivos. Seguia o teu discorrer sem importância pelo fio condutor da voz entremeada no linguarejar cosmopolita de Lisboa, animado pelo álcool, os aromas e os sabores eróticos...

Encontrei o teu estranho professor da primária, Sandra!

  Uma história real de uma jovem que foi alvo de múltiplas experiências dos sistemas - de educação, da saúde e do trabalho -  durante a sua breve vida. U ma história de inclusão e de exclusão. Foste tão cedo: só tinhas 34 anos!  E tão tarde, para o sofrimento de mais de uma década! Fiquei sempre a pensar que partiste porque quiseste - já bastava! Ainda me lembro de não me sentir capaz de ir trabalhar naquele dia, do que a médica me disse, da lei. Que sabe a lei sobre os nossos afetos?! Eras para mim, meia irmã, meia filha, uma amiga querida, insubstituível. Vi-te crescer - pelo menos desde os primeiros anos da escola primária -, ajudei-te nas aprendizagens, aconselhei-te, fiz-te orientação vocacional, fizeste-me companhia... Mais tarde eras tu que ouvias os meus desaires, me equipavas o computador e resolvias engulhos informáticos. Na escola primária andavas aflita com a leitura. O teu professor era diferente, mas tu até gostavas dele! A tua mãe achava estranho: o profess...

Eu, Acumulador me Confesso

Prom foi carinhosamente batizado assim, pela mamã, desde que fez uma birra memorável por cromos de dinossauros em promoção, que colecionava - já não se lembra ao certo, talvez há três décadas e muito. Prom para os amigos e para si mesmo. Um cromo, é o que tu és - sussurra-lhe a vozinha crítica irritante a um decímetro da orelha direita, onde se instalou o diabinho da enfadonha consciência. Um cromo! Sim, teria muito a contar de irritativo sobre a luta das partes ou outra pathos, mas não! Quer Prom, com o leitor, manter uma conversa fluida - esclarecedora e sem fraturar mais nada em si, nem no interlocutor, por simpatia -, delegando-me essa tarefa. Problemas, quem os não tem?! e a civilização causa ela própria aquele mal estar, como diz o outro. Os caminhos de casa começam pela verificação de soslaio se há conhecidos nas redondezas do prédio, e de vizinhos no elevador e na entrada para casa; com a probabilidade a decrescer de um para outro espaço, a respiração vai-se tranquilizando e qu...

FANTASY WITH PRIME NUMBERS, THE UNIVERSE AND GOD

If the world were numbers, I could imagine a god creating everything that belonged to him, thus, putting a 1 and having it multiply. He would have his first tease, the god, and he would condescend that this firstborn be the Same, the Self and, if he wanted to, self-reflect and add himself to the lazy offspring and later on to the others that would come from other enterprises yet in divine project - because conservative 1 would do little good! God was avenged with the creation of 0. This could absorb everything and add nothing, or on the other hand, create the path of the smallest underworld, but it would already go there. For now, he left him behind. Then he created the sum, the slow increase in things and time, and the multiplication for the rapid progress and filling the expansionist world he desired. He was immediately delighted with this speedy operation that filled the space and time that he also created with things. But by multiplying everything by each thing and each thing with ...

Fantasias com os números primos, o universo e deus

Se o mundo fosse de números, podia eu imaginar um deus a criar tudo o que lhe pertencesse, assim, pondo um 1 e mandando-o multiplicar-se. Teria a sua primeira arrelia, o deus, e condescenderia em que esse primogénito fosse o idêntico, o si mesmo e, caso ele quisesse, se fosse refletindo a si próprio e se acrescentando à descendência preguiçosa e posteriormente aos demais que viriam de outros empreendimentos ainda em congeminação divina -, pois para pouco serviria, o conservador 1!Vingou-se deus com a criação do 0. Este poderia tudo absorver e nada acrescentar, ou por outro lado, criar o caminho do submundo mais pequeno, mas já lá iria. Por enquanto, deixou-o de retaguarda. Depois criou a soma, o aumento lento das coisas e do tempo, e a multiplicação para o progresso rápido e preenchimento do mundo expansionista que desejava. Ficou de imediato encantado com esta operação veloz que lhe encheu de coisas o espaço e o tempo que também criava. Só que ao multiplicar tudo por cada coisa e cada...

Tratar por Tu

Estou de volta. Sem projeto. Ainda bem! Tento a liberdade. Temo a liberdade. Tenho esperado por ela. Pu-la no horizonte. Como na parede dos presos, agora a contagem decresce. Vem até mim a temida, a julgadora última. Faço-te uma pega! Vem, danada! Tenho ouvido muito ruído. Os meus pares conspiram pelos poros das redes sociais. Enxurradas de ideias. A intensidade e a polaridade rasgam-me em metades de cada vez que me exponho pela leitura. Sinto-me esfarrapada. Guardo o meu conteúdo interior em bolhas. Será que resistem a tanta agressão? É tudo tão rápido...e tu? E tu?! Ainda balanceio entre sim e sopas nos dias de vento fino pelas frestas mal betumadas do eu. Trato-te agora por tu! Cada vez mais feneces. Estás tão cadavérico, mas ainda apareces. És como um verniz difícil de decapar - ou é a minha falta de habilidade?! Esforço-me sem fim. Nunca desisto de te erodir. Esfrego com afinco a tua barbaridade e pedacinho a pedacinho vais sumindo, deixando aquele lastro feio, raspado, revelador ...

A Dor e as Árvores

Regresso aqui por necessidade. Ainda bem que não vais ler. Partiste!  A textura da língua - áspera -, recorda-me tempos de inação, de sem-rumo; do entorno que costuma acompanhar-me vindo dos confins do universo - sabe-se lá porquê?! Tão persistente! Melhor não insistir eu, volver transparente: há várias possibilidades: a máscara social; o estertor final... mais não me ocorrem, porque nem importa!  Encontrei-te várias vezes ao longo da vida, mesmo quando apareceste com disfarces. Muitas mesmo. Repetiu-se. Repetimos: o princípio, o engodo e o fim. Independentemente dos meandros da historieta de príncipes ou quase isso. Já sei! Já estudei! São heresias de trovadores, paixões irrealizáveis, narcisismo encapotado, inconsciente coletivo, arquétipos... Mas porquê tanta insistência? Atormentem-se outros! Distribua-se a dor! Tão dor! Desta vez fui Xerazade: desdobrei-me em imaginação. Eras mentira total, indiferença! Dei conta que me sugeriste o suicídio - nunca ninguém foi tão cruel! ...

INTERMUNDOS

INTERMUNDOS 1 Apresentação Mário Aesth e Luísa Bósforo vivem em Portugal num ambiente de pós-singularidade tecnológica, mantendo uma relação frugal e ambígua entre si. Aceitam participar em experiências científicas que se desenvolvem ao longo de viagens míticas pelo Mundo e pela história real ou ficcionada em romances ou livros de viagens. Na verdade não são Luísa, nem Mário, mas as suas instâncias que viajam - uma clonagem que inclui a experiência vivida até ao momento da separação entre o ser original, chamado de raiz, e a sua instância. A fractalização acontece quando se possibilita a reinstanciação sem limite: cada uma pode dar origem a outras. A trama das relações entre instâncias, a complexidade do espaço-tempo, a nova ciência que incorpora as artes, ciências físicas, sociais e humanidades favorece um novo despontar da humanidade. Luísa e Mário protagonizam, além disso, a sua própria história em possibilidades que apenas acontecem nas vidas não-lineares. Nós em Katmandu ...