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Tremeliques

No ano em que vivi com a avó na aldeia, ela um dia acordou aos gritos. Assustei-me e perguntei o que se passava. Ela respondeu com mais gritos!.. Uns instantes depois foi para a porta da rua modulando o grito inicial e começou a ser acompanhada por outras mulheres que a diferentes distâncias faziam o mesmo.  Eu estava habituada a que a avó ficasse perturbada com fenómenos naturais como trovoadas, mas nunca o fizera em coro. Fiquei perplexa: seria alguma festa, algum ritual como o enterro do entrudo, ou outra das muitas novidades que eu observava na aldeia durante aquele ano?! Não ouves?! Disse-me ela por fim! Os tambores? Perguntei eu. Não são tambores! É a terra a tremer! Ora bem..tinha tanto sono e estavam ali umas mulheres gritar por causa da terra - para mim terra era a camada mais fina, solta dos caminhos, que se desfazia em poeira....  São uns tambores, teimava eu! Onde estão? Rapidamente comecei a sentir a fina terra a cair-me no rosto vinda das tábuas do teto, que esta...

O Benfica.

O Benfica era um cão rafeiro, simpático rodinhas baixas, de pêlo curto castanho dourado. Um cão normal, nas suas lides de cão normal, em Lisboa! Um dia, encontraram o Benfica numa aldeia, a 100km de distância. Fechado numa adega, aguardava uns dias para ser trazido de volta para os donos lisboetas. O cão fora abandonado pelo dono, mas miraculosamente seguira pelo faro o carro de um vizinho, durante uns 50 km, que, impressionado, o trouxe ao dono, rendido à sua fidelidade, coragem e extrema capacidade. Era um herói! Pensava o homem, com estes argumentos amolecer coração do dono. Qual quê, o Benfica levou um tiro e foi substituído por um animal de grande porte, felpudo. O Benfica era de uns vizinhos. Nunca pude aceitar esta situação, nem olhar a direito para os carrascos. E esta era uma realidade possível. Isto era a Humanidade. Os donos disfarçavam bem: simpáticos, trabalhadores, negociantes locais, tinham sempre os animais bem alimentados e modos afáveis com eles. Penso que são estas s...

Raízes e Flores

Fui feita à pressa, porque o meu pai poderia ir para a guerra do ultramar e queria deixar por cá raíz, não fosse não voltar; já o meu irmão foi semeado a meio do sono e assim saiu calmo - e ele sim -, com tranquilidade e sem pressas, vai deixar ao meu pai a desejada continuação de ADN. É caso para reforçar que, se tens pressa, vai devagar! Mas não sendo eu o veículo da família para o futuro, posso detalhar algumas influências que me tornaram quem sou, para além dos genes, e assim, com alguma esperança, acreditar que poderão também elas ter continuidade nos pimpolhos da família ou noutros com quem me dou. Com a mãe, aprendi a ser perseverante e dedicada - mesmo contra a corrente -, a ser benevolente e a apreciar a natureza: as plantas e os animais, com amor romântico. Aprendi ainda a arranjar soluções criativas. Do pai, aprendi a ambição pelo conhecimento, os objetivos de vida, mas também os caprichos que, com empreendedorismo, e alguns atropelos, se consegue tudo! Ou quase! Da avó de n...

Tony

Atenção, disse-me ele, Tony com sotaque: Touny! Andávamos, eu e a Lina, nas andanças das malhas e lãs,  e por qualquer motivo relacionado fui apresentada a uma sra. que vivia umas casas abaixo da da Lina e já não sei como foi, a sra convidou-me para ir visitá-la num outro dia e tomar um chá. Pensava eu que iriamos falar de lavores, mas o que aconteceu foi uma apresentação ao seu sobrinho, a viver no Canadá, que fizera uma passagem por casa dela! Eu era uma garota de uns quinze anos e achei a situação do mais caricato e bolorento possível. Mantive o diálogo, ou melhor, fui respondendo ao inquérito do tal sobrinho, que não teria menos de dez anos  a mais do que eu e modos estranhos!... Mais tarde, a sra entregou-me uma carta do sobrinho, já em Toronto que começava assim: Hi Sweethearth... E depois Patati Patatá... Fui ao dicionário para me certificar. Olá querida?! Que grande abuso! Nunca respondi ao pretendente canadiano, que deveria atualizar-se nas artes da sedução. Não que e...

A Lina

Aí está outro nome bonito numa bela rapariga! A Lina começou a conviver comigo um pouco mais tarde, por ser mais nova, mas também porque passava muito tempo na Nazaré, onde vivia grande parte do ano. Era das poucas loiras da terra, mas das pessoas mais espertas, para contrariar o ditado popular. Uma das coisas que mais me surpreendia era que ela, ao contrário das outras raparigas, podia contar tudo à mãe, com a maior sinceridade - todo o tipo de tropelias - , que aquela levava tudo a bem, porque não acreditava em patavina. A miúda tinha um fino sentido de humor e muita inteligência para baralhar a mentalidade da aldeia. Era muito habilidosa, e num dado momento deu-nos para os lavores.  Fazíamos casacos e camisolas com pontos desafiadores e usávamos a Burda para o corte de vestidos. Aprendi imensos truques e técnicas com ela. Das lembranças também constam uns rissóis de berbigão feitos em parceria entre a Lina e a mãe dela, que ainda hoje me fazem crescer água na boca só de lembrar....

O Lavadouro

Ai que saudade me deu quando há uns anos ouvi um trabalho de recolha sonora da água dos lavadouros antigos. Porquê este sentimento?! No Painho conheci três lavadouros públicos e um privado. Havia um ao pé da igreja que foi o que mais me marcou. O lavadouro era um santuário do feminino. As mulheres organizavam-se de algum modo para se distribuírem pelos dias, pelas horas e ainda pelas pedras de esfregar a roupa e respetivo poiso de alguidar. Os alguidares eram enormes e de zinco, podendo haver mais pequenos, de plástico. Num balde, levavam a parafernália de químicos: sabão azul e branco, sabão Clarim, OMO, Juá ou Presto com glutões, lixívia e anil! Tiravam a água com um cabaço que era um pau longo enfiado numa espécie de balde - a forma era aproximada à de um cachimbo! Depois dividiam as peças: algumas ficavam de molho, outras iam corar ao sol para desencardir, ou ficavam logo para a esfrega contra a pedra de lavar ou contra si mesmas num agitar enérgico de mãos e de línguas, que aprove...

De Pedinte

No ano em que fiquei na aldeia com a avó para poder entrar mais cedo na escola, houve um dia em que ela me juntou com outra miúda da minha idade, penso que exatamente do mesmo dia e ano, que talvez se chamasse Ludovina, e mandou-me ao pão a uma casa de longa escadaria externa, lá para os lados da casa da Mila, que nessa altura eu não conhecia, mas fixei o lugar! Eu fiquei desconfiada e então ela disse que me davam doces e outras coisas. Eu não estava a ceder porque não era nenhuma pedinte! E ir ao pão para trazer doces, só parecia que estavam a tirar partido da minha ingenuidade! Não estava para lhe dar essa satisfação! A que propósito iria pedir pão ou doces a alguém que eu nunca vira?! A outra miúda encorajou- me, pois já tinha experiência e qual não foi o meu espanto, que depois de ela dizer uma frase, se abriu a porta com uma senhora cheia de sorrisos e nos encheu os sacos de pano de coisas como tremoços, pevides, bolos de noiva, figos, fatias de maçã secas e sei lá mais o quê....

A Naide

A Naide poderia ter sido a primeira pessoa sobre quem eu escreveria nestas memórias do Painho, mas não me queria desmanchar em emoções, já que lhe tenho uma enorme gratidão, pelo apoio atual que dá ao meu sobrinho no Jardim de Infância e pela boa companhia na adolescência.  Eu já não sei quando, mas foi uma das primeiras miúdas com quem me dei na aldeia e não fora minha colega de escola. Não sei se a Naide tem mais um ano que eu, mas creio que a conhecia por ser familiar de vizinhos da minha avó. Seja como for, a relação com a Naide - que tem este nome tão bonito como ela própria, sinais da ordem superior da beleza das coisas - é portanto sem tropelias, que eu me lembre! Ela andava por lá, pela minha vida ou eu pela dela! Mas a sua marca era calma e doce! Como Deus criou assim uma criatura que nunca vi zangada - zangada a sério?! Sempre assertiva. De modos gentis, há pouco a dizer sobre travessuras. A Naide, conheci-a desde o tempo do irmão mais novo, que faleceu. Ainda me lembro d...

No quarto do Jorge - Confissões

O que íamos fazer para o quarto do Jorge, era a questão mais profunda e enigmática que ecoava dentro e fora de portas do Painho. O que seria?! Eu vou contar o que vi, e andei por lá muitas vezes! Ora bem, o quarto do Jorge era o centro cultural da juventude e também o centro confessional! Era um espaço de privacidade e alegria, onde com o maior respeito, rapazes, raparigas e alguns mais velhos, vinham conversar, ouvir música, saber de livros, material de pintura ou ver a decoração do quarto, que variava! Filosofava-se sobre a existência e sabia-se  das novidades que interessavam à juventude: novas discotecas, boatos sombrios, excentricidades, livros e discos, enfim! Apreciava-se alguma obra do Jorge: poema, canção, ou reciclagem! E era isso malta velha malidicente! Era um local espetacular de uns seis metros quadrados, onde cabia um mundo, que ia rodando pelo quintal à vez, e à medida que cada um se libertava do jugo da idade menor, se estendia até ao Canadá, à Suíça, a Lisboa e a ...

Mila

Eu convivia pouco com a Mila. Ela e o João Garcia, hoje conhecido himalaísta, passavam por mim na birisga, montados nas suas bicicletas, que já lhes faziam parte do corpo. Bem! Na velocidade possível, pois lembro a Mila corcovada em esforço nas subidas com a sua pasteleira. Os dois ciclistas tinham comportamentos comuns: aliviavam o traseiro do selim, parando aqui e acolá para dar um olá e trocar dois dedos de conversa, mas ficavam-se pelos anéis, de tão apressados que andavam! O Garcia, não sei porque o fazia, parecia-me simplesmente irrequieto, mas a Mila era porque trabalhava para o seu pai. Lembro-me dela em pose militar, pernas abertas, cabeça erguida, a vigiar a rega da horta; emanava uma força e coragem extraordinárias!  Era uma força viva! Regava, sachava, transportava. Não me lembro de falarmos de escola! Eu achava-a mais velha e nem me metia com ela, sempre tão de passagem - nem tinha assunto! Parecia um vento que passava por mim! Mais tarde, começámos a conversar um pouc...

Cuidado se Fores aos Gambozinos

Cuidado porque o Ti Manel Amaro... Bom, vou explicar. O Ti Manel Amaro tinha umas hortas ao pé do rio Arnóia, em terrenos bem férteis, mas, infelizmente para ele, à beira da estrada, que finalizava mesmo ali, excepto para quem atravessasse o rio - o que era fácil de acontecer no verão, com as águas escassas dessa altura. O Ti Manel Amaro, tinha também umas vinhas, onde mimava um belo pessegueiro tardio. Coitado! Não só a passarada, como também o ancestral Homo Recolector, gostava de recolher ao bolso uns belos pesseguinhos para depois da janta, particularmente ao fim da tarde, já no pacífico lusco-fusco, que torna a visão mais dúbia..."Parece que tá ali além uma coisa a formigar, ó Tónho!". "Tens razão Mélha, há ali um lombrigar." "Deixa homem, pode ser alguém que se sentiu apertado. Entra cá pra dentro pra me ajudares a acender o lume pró jantar!..." E assim, o Ti Manel Amaro, achou que tinha de pôr cobro à evaporação dos seus pesseguinhos! Vai daí, resol...

Saltimbancos e Bonecreiros

Por vezes, chegavam à aldeia os saltimbancos, os malabaristas, os bonecreiros e os palhaços, com vida itinerante, para espetáculos mais primitivos do que o circo. A minha estreia foi onde hoje é a praça, perto da casa da Rita: montaram um palco e dispuseram cadeiras. Penso que, para terem rendimento, cobriram as laterais e no fim do espetáculo pediram umas moedas, mas não estou certa disso. Faziam divulgação com algum alarido, distribuindo panfletos, se a memória não me trai. Como não havia distrações destas habitualmente, tinham um certo sucesso. Ao divulgarem umas às outras, as pessoas já antecipavam o riso. Preparávamo-nos com a vestimenta domingueira e uns agasalhos, que a noite estava fria, e subíamos a rua do Ti Raúl. Passávamos pelo salão de dança - olarilas, pois havia uns! E chegávamos finalmente à encruzilhada de ruas onde acontecia a praça. Trocávamos umas boas noites e algumas informações de estado com quem não víamos há mais tempo e esfregávamos as mãos de contentes, em pe...

Ir ao T`Zé Moleiro

Algumas vezes, poucas para o meu desejo, acompanhei a avó Gracinda que vinha do Casal do Bosqueiro, onde vivia, buscar farinha ao moleiro do "lugar", como ela dizia, referindo-se à parte central da aldeia. A avó respirava com dificuldade e tinha que fazer a viagem lentamente,  que era transformada em passeio, visita a conhecidos, atualização das notícias correntes e das mais escandalosas! Caminhávamos devagarinho, a avó com muitas curvas, a da barriguinha - que não afligia ninguém-, os dois peitos generosos, em movimento de fole; a testa curva e bela como uma abóbada celeste estrelada e calma, o rosto arredondado emoldurado por um cabelo negro, que eu sabia extralongo, enrolado em toutiço e depois as duas perninhas que faziam de armação para as múltiplas esferas! Ela falava com quem encontrava, como as formiguinhas - fazia uma conversa breve -, talvez para não demorar demais ou porque falar também a cansava! Eu não ligava nada às conversas, não me lembro de uma que seja! Fica...

A Ponte Pedonal sobre o Arnóia

Quem não passou já na pequena ponte pedonal sobre o rio Arnóia, junto ao cemitério, que permite um belo atalho na direção de A- dos- Francos?! Seja para trabalhos agrícolas, ou algum desvio a olhares curiosos, a pequena ponte tem a sua história. E essa história está ligada à minha família. O meu avô vivia da outra banda do rio e, como sabem os mais velhos, um dia o fluxo levou-o para a eternidade, ou apenas o trouxe de regresso para o cemitério ali ao lado: as voltas que se dá para chegar mais cedo aonde se estanca o tempo!... A passagem sobre o rio - que no verão, nem ribeiro é -, mas no inverno se entusiasma mostrando-se viril, era um caminho de calhaus rolados, um pouco achatados, a tremelicar: um caminho precário! Após o incidente dramático com o avô, o meu pai juntou-se ao Ti Arroz e ao Ti Manuel Ranicha e iniciaram o empreendimento da pequena ponte. O pai tratou da compra do ferro, mais propriamente das duas linhas de elétrico, que na altura andava a ser desmantelado e era acumul...

Mena

A Mena era uns anitos mais nova do que eu e futura herdeira de empresas, bens imobiliários e, quiçá, financeiros também, mas por ora, trabalhava que nem gente grande, num ambiente de construção civil, portanto com rapaziada que ela, de boca bonita e formas sexys, tinha que afugentar com maus modos e voz forte. Era ver a doce Mena a levantar um vozeirão a quem lhe aparecesse ao balcão, pois exceto para os amigos, corria todos pela mesma bitola!  Era uma grande vendedora: se não havia verde esmeralda, aconselhava o grés, que agora é que está na moda e até porque se quiser o verde esmeralda vai ter de esperar sabe-se lá quanto tempo, talvez um ano e o trabalho até nem vai ficar tão bonito! Sem grande concorrência na zona, pode-se dizer que a Mena foi a decoradora de interiores, paredes e chão, e ainda de complementos e acessórios para cozinhas e casas de banho, de toda a região, de Painho à Boiça, Alguber a Caldas, penso eu! Sempre que eu entrava numa casa ria-me para dentro a pensar ...

A Geração Yé-Yé do Painho

A minha prima Maria Júlia Santana, uns bons anos mais velha do que eu, adolescente na altura, garantia-me que "agora a moda é dançar Yé-Yé". E mostrou-me como era: fazia uns gestos circulares com os braços e gingava as pernas. Sorri! Por mim tudo bem! Venha o Yé-Yé, que eu quero ver e aprender - pensei! Era domingo e as garotas tinham marcado encontro na casa da minha prima. Lá foram chegando de fato escolhido, perfume comum e alguma laca ou brilhantina, alvoraçadas e alegres, a falar pelos cotovelos. Combinaram ir buscar ramos de palmeira, já não sei aonde. Ataram as pontas dos mesmos no topo e, uma de cada lado, seguravam os caules. Desataram a cantar e assim fizeram uma marcha pelas ruas da aldeia. Os barretes subiam nos alcoólicos ensonados; os cães ladravam; as mães coladas às filhas - não fossem os rapazes atrevidos e as línguas afiadas, roubar-lhes o corpo ou a alma -, viravam-se surpresas entre o sorriso e o sussurro; quem estava em casa, vinha à janela; os cafés esva...

Madrinha

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A minha madrinha tinha só mais 14 anos do que eu, mas sempre desempenhou o seu papel na perfeição. A primeira imagem que tenho dela foi na altura da preparação do seu casamento. O convite a cada conviva era pessoal, feito diretamente, o que eu acompanhei algumas vezes. Lembro-me da alegria dela e dele nessas ocasiões. Ele era um rapaz que eu considerava ser alemão. Apesar de originário de Rio Maior, já vivia há uma década na Alemanha e a mim, parecia-me que tinha absorvido os modos estrangeiros, o que incluía uma rara delicadeza e simpatia para com todos, sendo que a que mais me agradava era a que ele tinha para comigo e para com a madrinha - porque eu estava a tentar perceber se ele era bom para ela. E sim, era daqueles como eu nunca vira antes, que pegava ao colo, assim do nada, oferecia flores que colhia pelos campos, dava beijinhos. Estava aprovado! Depois lembro-me do casamento deles. Fomos de Lisboa. O nosso Vauxall avariou pelo caminho. Mas lá se recompôs. Eu saí do carro e mi...

Ti Milha

A Ti Milha, que não nomeávamos assim, sem rir em coro, eu e o meu irmão, era nossa tia avó e dava-nos o maior mimo! Tinha a azáfama costumeira das mulheres da família naquela geração. Vá-se lá saber porquê, ela e a irmã Amélia, não paravam quietas. Já a minha avó, sua irmã mais velha, fazia as obrigações externas e logo passava para o matutar: era uma máquina dedutiva, uma vez que deduzia da vida dos outros a sua, pelo menos no que tocava à relação com o mundo, pois vivia em confinamento voluntário. Para visitar a Ti Milha tínhamos de arranjar boleia, o que era raro, ir de bicicleta ou fazer uma viagem ainda grande para as nossas perninhas frágeis. Éramos uns magricelas - o terror da mãe -, que nos enfiava Lipobiase para dentro e se afligia contando-nos as costelas! Após a viagem, tínhamos lanche rústico pela certa. O melhor pão caseiro, chouriço, linguiça ou presunto, tudo da casa. Doces também, no tempo deles. Ah sim! Havia tempo de doces, rente a festas da comunidade ou algum aniver...

A Branquinha

Quando eu era pequena, tinha um grupo de amigas na vizinhança e outras que visitava afoitando-me estrada afora, que eram colegas de escola. Mas, um pouco mais nova, ficava apenas pelas ruas adjacentes à minha casa, com as amigas vizinhas e da mesma idade. Menos uma: a Branquinha. A minha mãe fazia um trejeito de boquinha para dizer aquela palavra irritante! Toda ela se lambuzava, como se estivesses em idílio alimentar com alguma guloseima de longa duração no palato.  Quando perguntei à minha mãe o porquê - um ano ou dois depois do forró ter começado - da nomeação de "branquinha", daquela estranha miúda, esquiva, que não falava nem brincava com ninguém...ela respondeu que eu era carocha e ela era branquinha: era a cor da pele! Enquanto ela se explicava, a minha mente, dilatando o tempo, levantou-se várias questões: estaria a minha mãe a chamar-me de carochinha como na história do João Ratão?!; estaria a desvalorizar-me ao ponto de me comparar às carochas, que eram da família d...

Jingle Bells com a Bela

A Bela era uma rapariga da Costa da Caparica - a passar férias na aldeia, tal como eu -, de hábitos urbanos e irreverentes. Para ela, tal como para mim, os dias de verão às vezes custavam a passar: o langor, o tédio...Vogávamos pelas ruas, íamos à Naide, à Mena, passávamos pela Guida, ou talvez pela Mila, enfim...mas nesse dia estamos só nós as duas. A vida era uma aventura com a Bela! Espontânea, impulsiva e destemida, tornava possível, o que nos parecia ficção; era uma rapariga com ideias e cheia de iniciativa para ultrapassar limites, além de uma verdadeira coach motivacional para os cautelosos. Não éramos amigas chegadas, mas fazíamos uns ajuntamentos e rondas à procura de aderentes a uma qualquer causa em ebulição. Naquele dia, estávamos as duas na casa dela, quando se lembrou de ir aos gelados. A prima vendia-os ali mesmo ao lado, pelo que a compra em si era desinteressante. Para apimentar o trajeto, montou-se num muro entre quintais e foi-me encorajando a segui-la. Confesso que ...

Mari Requêta

Hoje comprei nêsperas. Ao comê-las, com gosto, captei no meu pensamento a lembrança da Mari Requêta, que tinha uma nespereira no quintal. De cabelo à rapazinho, fungando com a permanente alergia, era magricela independentemente do que comesse e tinha a pele áspera e ressequida, o que a levava a peniscar as frações que se soltavam e a espalhar metodicamente o creme hidratante: Nívea, pois claro! Falava pelos cotovelos e repetia tudo, quando ao grupo se juntasse mais alguém. Sempre sorridente, tanto passava informações úteis como as maiores maledicências alheias. Como era inocente, todos lhe perdoavam, embora partilhassem o desejo de lhe mandar um trapo à boca. Por isso mesmo, era considerada uma boca de trapos! A Mari Requêta tinha uma família diferente do comum. O pai, embora da terra, era uma pessoa diferenciada, muito educada, quase urbana. Ouvi que, no passado, fora denunciado por um vizinho à PIDE. Terá ido para a prisão? Lembro o pai da Mari Requêta a chamá-la frequentemente -...

Em Família

Duas raparigas e um rapaz, pai e mãe, viviam nos arredores de Lisboa, num local cujo crescimento populacional levou à sua ascensão a cidade. A mãe fazia costura para fora; o pai era empregado bancário.   O homem teve a ideia de fazer uma sociedade criminosa com uns conhecidos e passar informações úteis para ganhar muito dinheiro repentino na bolsa de Salazar. E assim foram adquiridas diversas vivendas em locais de certo charme e um extenso apartamento em zona nobre da cidade de Lisboa. Seguiram-se viagens, aristocráticos hábitos e clubes para o pai. Os garotos deram-se mal com as mudanças, particularmente os dois mais novos. Os pais brigavam a torto e a direito. A mulher, aborrecida com o chorrilho de amantes; ele, sem paciência! Acabava tudo à murraça. A mulher achava que o filho esquelético, por ser homem de 13, 14, 15 anos, iria defendê-la do marido, mas este escondia-se, apavorado, debaixo dos lençóis.  Confusos, rapaz e rapariga mais novos, experimentavam os seus corpos i...

Noites Vãs

Estou sentado à minha secretária. A cismar. A gata do jardim expira a sofreguidão em gritos lúbricos. A memória asperge o champanhe do meu casamento: clap! Fchchch! Não me demoro neste flash. Outro esguicho traz-me a lágrima que turvou a primeira vez que vi o meu filho em aromas de éter. Inspiro longamente - o ar cheira a bactérias em decomposição das folhas mortas da begónia aqui à frente. Tenho a janela do quarto escancarada. Está um friozinho de primavera marota! Retorno ao vegetal de eleição, agora orlado de prata lunar. Tenho tido longas conversas com este meu "pé de laranja-lima", o meu mindinho. Recebo conselhos. Mas não sou um romântico. Fecho a janela porque está frio e quebro a conversa onde calha, deixando a planta a falar sozinha, ou talvez com a gata. Faço voz paterna para trazer os meus podengos prá mesa. Fracasso. Segue-se um ronco hitleriano. Por magia, tenho num instante, a mesa plena. Olho para o design dos dois rostos. Saíram à mãe! Nem piam! Nem para pedir...

Finalmente Garotos!

Os primeiros anos do Liceu  abril 26, 2021 Quando cheguei ao 3° Ciclo de hoje - que naquele tempo era o primeiro ano do Liceu - , não levava amigos ou conhecidos. Pagava o preço da determinação! Muitas colegas tinham ido para a escola comercial. Neste novo mundo, tinha a vantagem de conhecer o local, pois mantinha-me em Alvalade. A turma era um mimo e pela primeira vez tinha garotos. Eu que já olhava para os de 15 e 18 anos, achei-os uns eunucos. Mas logo me conquistaram com a sua imensa gentileza! Nunca vi um grupo assim de rapazinhos: eram uns cavalheiros, uns gentleman. Ainda me lembro dos seus modos delicados, da sua voz, em tom baixo, - excelentes verbalizadores - que não nos atacavam com força bruta nas aulas mistas de educação física. Adorei a experiência! Éramos fifty-fifty em número de meninas e meninos. A professora de Inglês teve a triste ideia de falar só em estrangeiro, logo no nosso primeiro ano. Que angústia! Em compensação arranjou-nos a cada um um nick name que ado...

Crescer, Crescer, Crescer

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A entrada no ciclo preparatório foi vivida com sentida alegria e curiosidade. Novas amigas, muitos materiais escolares com cheirinho bom! Ainda me lembro de snifar a papelaria da escola. Podem rir-se, mas eu tive paixões sensoriais, como o cheiro do guache, o som do xilofone, o aroma humano do ginásio, da bola de basquete, a textura do barro, e tantas, tantas outras experiências sensoriais. Porém, nem tudo eram rosas nos primeiros tempos: desorientava-me no edifício da escola, não encontrava as salas, não conseguia perceber o horário, distraía-me nas aulas e chegava a dar respostas obtusas. Fui até censurada por distração e mau comportamento! Além disso, experimentei, pela primeira vez, ter negativa nos testes: logo à estreia, de português e matemática. A matemática parecia-me absurda: contas com letras?! Só poderia ser brincadeira! Não dei importância a parvoíces. Já a português, reparei que a minha nova amiga tinha bons resultados e era uma grande leitora de lazer. Sendo assim, inici...

A Professora Malvada!

A professora Virgínia tinha apenas 18 anos e era daquelas amadoras colocadas pelas terras recônditas de Portugal para ensinar o povo a ler, escrever e contar; adorar o poder instalado; conservar os bons costumes; ser humilde e continuador do papel de género. A professora tinha direito a uma casa do Estado e, com sorte, a um marido de "boas famílias", com terras, na aldeia! Claro que eu, com seis anos, não sabia nada disso. Fui para a terra dos meus pais viver com a avó para poder entrar mais cedo um ano na escola. Pensando bem, não se compreende. Seria por influência social local?! A verdade é que a sala estava a abarrotar com alunas de todos os anos da primária. Algumas, como eu, tinham que levar uma tábua para amparar os cadernos e livros e sentávamo-nos em banquinhos individuais. A professora via-se e desejava-se para ensinar todas. Talvez por isso, andasse sempre stressada. A professora Virgínia não me ensinava praticamente nada: dava-me uma qualquer banda desenhada e man...