Mensagens

Advogada? Eu?!.

«Do que as amigas de infância se lembram!» - Pensava eu quando já adulta ao reencontrar no autocarro  a amiga de brincadeiras Maria do Rosário e ela me perguntava se eu sempre tinha seguido para advogada. Fiquei perplexa e neguei alguma vez ter tido esse desejo. Ela estava também segura e deixou-me convencida: tu querias ir para advogada, dizia ela, para defender as pessoas das injustiças! Ora, tinha transformado esse o objetivo no de ajudar as pessoas a lidar com os problemas e desafios da vida, mas vendo bem, talvez tenha ficado aquela chama! Não acham?! Tirando as artes que me apaixonavam, mas que por birra entre pai e filha não cheguei a frequentar (eu queria pintura e ele arquitetura), fiquei a balançar ciências e línguas e escolhi as primeiras porque considerei mais abrangentes. Logo ali adiantei a hipótese de psicologia. Pensei: o mundo vai precisar sempre de entender as pessoas, portanto tem futuro e é fascinante! Pelo meio apaixonei-me por matemática, física, introdução à ...

O Mundo era Belo!

Quando eu era pequena e brincava com as minhas amigas e às vezes com meninos, na rua, pelos recantos, às casinhas ou aos jogos tradicionais, o mundo resumia-se àquela pequena bolha e nada era feio, nem o que depois aparecia degradado nas fotos a preto e branco, nem os nossos penteados, às vezes com uma madeixa espetada, eram problema, nem as roupas que só sabiam ser mais bonitas ou normais! Apenas as crianças sujas e descalças sairiam do padrão. Os pais tinham as profissões que tinham, só os carros, a uma dada altura começaram a ser minuciosamente avaliados pelos adultos, mas nós não ligávamos. O que era importante era o parentesco familiar e a distância a que se vivia - praticável ou não para um encontro! De resto, estava tudo bem! Eram raros os conflitos e a vida decorria com simplicidade e alegria no tempo livre, que era muito! Mais tarde, com a ida para lugares distantes, para os estudos pós primários é que o mundo começou a complicar-se e com histórias de arrepiar, perigos por tod...

Antes do Pai Natal

Antes do pai Natal chegar ao meu conhecimento, só havia o menino Jesus. Era ele que descia pela chaminé do fogão, tão estreitinha - só lá caberia o pequeno menino Jesus do presépio, mais ou menos do tamanho do da Igreja. Muito mais tarde, já eu grandinha, é que apareceu o rechonchudo velhote de barba de algodão e vestes vermelhas, que obviamente nunca iria passar por aquele estreito, só se voasse como o escuro papão, sobre os telhados, e fizesse descer os presentes por uma corda. A verdade é que nessa altura já não importava a mentira contada às crianças, pois elas já sabiam do que se tratava. E aquele senhor nunca foi credível - ninguém era assim tão obeso! O menino Jesus era então o protagonista do Natal. Muito seletivo, exigia cartas explicativas de uma lista curta e depois caprichava, quase sempre rejeitava os pedidos ou transferia para algo equivalente, na opinião dele, pois eu discordava. Onde já se viu trocar um chorão por uma boneca toda de plástico, até o cabelo?! Como se pode...

Saudades de Alexandria

*Ah, aquele lugar, no tempo anterior à Segunda Grande Guerra!* Saudades absurdas de ti Alexandria! Vim de navio, aproveitei uma linha especial de verão com a desculpa de poder estar perto de Durrell na inauguração da livraria francesa L' Hirondelle e com sorte revejo alguns dos meus conhecidos. Apanho o elétrico na avenida e delicio-me com as vistas da janela - ai que sensação poderosa, química -, ver esta azáfama cosmopolita do lugar do coração. Não amo mais nenhum com esta intensidade. É uma pertença mútua. Sinto-me em casa! O chiar dos freios nos carris é a abertura de uma qualquer ópera por criar. Senta-se ao meu lado uma beldade exótica, longos cabelos negros espelhados, com um peso de molde caído nos ombros, revelando um ziguezague nas frestas das mechas angulosas, os lábios carnudos de África, a luz sombria do khol nos olhos penetrantes, com o arrebitado traço de uma árabe ou talvez seja judia. Perfumada! Um encanto que me faz esquecer de assinalar na campainha a saída, mas ...

Na Rede - Dom Juanito

Um homem, se não se cuida, não sai incólume desta experiência! A sequência de mulheres, os encontros no café, que já se repete por economia mental, o almoço que se oferece em casa também com lista de menu restrita ao que melhor sabe fazer, o mesmo lugar na mesa para elas, como se fora um festival...dar um tom prático e quotidiano à refeição, sem aparato, resguardar todo o sinal romântico, poupar-se de compromissos e memórias espúrias para o futuro, evitar conversas pormenorizadas que lhes dêem identidade - enfim, não vou repetir! Tudo por poupança e alguma estratégia. Alcançar rapidamente o objetivo a pouco mais de um palmo de pujança - oxalá venha ela! Avisar a candidata de possíveis ou prováveis adaptações de percurso no enlace íntimo. Tudo configurado: a sequência, o palavreado. No entanto, as primeiras horas serão mais gerais, fala-se de ambições mais sonhadoras, de finalidades, como os utópicos descarados nos governos. Depois é desgarrar o objetivo como eles costumam fazer. Tudo c...

Horizonte Sensual

Da chaise longue mira o horizonte rente ao nariz e à unha do pé pintada em vermelho carmim e vê estender-se a coluna de bruma azul a fundir céu e mar. Maria declina a cabeça, ainda ensonada, para o peito iluminado de bronzeador e sol da manhã. No horizonte, agora, um ponto e vírgula navega tão longe ao lado do copo de sumo de fruta silvestre. Aparecem aromas florais e um pontilhar sonoro de pássaros que se juntam ao langor das sombras estiradas na relva húmida - uma língua comprida a moldar-se ao relevo dos arbustos -, e é nesse preciso momento que acorda nas mãos dele, delicadamente convocando os tendões e músculos do pescoço para a combustão lenta da líbido. Permanece assim, longamente, enquanto a consciência dela parte em devaneio e os lábios provam o sal da maresia e uma brisa leve escorre pelas feições e deleita-se no véu-vestido a acariciar as ondas do corpo. Como as flores de longas pétalas e a protuberância dos estames, anuncia-se o ato fatal de misturar temperos férteis...Ah ...

Uma Casa de Férias

A casa de férias foi outrora de uma família. A veraneante sabe de dramas passados, mas tal não lhe desperta nenhum sentimento negativo. Procura algum sinal plasmado na mobília, em recantos, objetos, cheiros, mas só sente a vontade da dona de torná-la bonita, confortável, uma extensão de si mesma e da sua maternidade! Se sofreu - ora, sabe-se que sim!- levou essa dor consigo, porque aqui só deixou tranquilidade, acolhimento.  A casa tem personalidade e os objetos que ficaram da mudança - sem glória, na sua anomia -, não deixam de compor um todo que a acalma, sem que nada se destaque. Compacta, a casa recebe-a num abraço caloroso sem afetos negociáveis que a prendam a reciprocidades... Diria que ali jazem as mães do mundo com o seu amor incondicional e ela é a sua filha felizarda! O sino da Igreja próxima pontua o tempo cortado em fatias finas; os bêbados da taberna da esquina eternizam cada ano no seguinte - são sempre iguais nas suas alucinadas conversas: murmúrios, espasmos, decla...

A Escritora Genial

As palavras existem naquela sequência por ela inventada que é única e ela sabe-o!  As sensações que me alavancam essas palavras, fujo de algumas, por me desventrarem e verterem o desespero em sangrar lento e eu não posso dar-lhes esse poder!  Protejo-me delas, tão potentes nas minhas entranhas. Não posso deixá-las entrar e remexer o corpo, trocar os químicos, mudar o sítio dos órgãos, desorganizar o bem-estar dormente que me protege do real cru!  A escritora que me perdoe! Capitulo de vergonha!  Mas ela, facínora, corta, esfrangalha, lima onde dói! Ai! Enrola as palavras numa confusão que a mente não tem tempo de alisar e vai um sentido já a fluir e outro ainda empatado lá atrás - espera lá!- e invade-me de mais fragmentos de sensações, tanto acumular de pequenas partes sem todo à vista! Uma aflição! Ela não acaba o trabalho, abandona-me num estado incompleto!  Cada palavra é um borrão de cor entregue à influência de outras cores em enxurrada e eu para dar algum...

A Praia de antes e de agora.

A memória traz-lhe uma moleza moldada em peso na areia e carícias de mãos namoradeiras, mas não tem a certeza dessa verdade! Talvez fossem alguns segundos, ou só uma vez! E na infância, que na praia se prolongou até aos quarentas, o jogo, o grupo, a brincadeira, a boa disposição, os lanches, a organização da agenda da sombra e do sol, os rituais: do chapéu, da água de beber, da ida ao mar...risos, risos! Mas também não está absolutamente certa dessa energia! Agora a praia é outra, rápida, solitária, o mais possível silenciosa, sem ardis ou ardores de pele, sem namoros, sem tensões e negociações, com o fim no bar, um petisco a gosto, a bebida escolhida, um gelado até - às vezes -, vulgar, mas a fazer ponte com o passado, onde nada mais joga a favor da memória!  Há duas praias por certo, a do passado e a de agora. Inconfundíveis! O mar é mais calmo, menos aventuroso, a areia tem uma temperatura a jeito, sem escaldar, sem adornar o langor nem a líbido. Tudo calculado, agora! Embora, d...

A Rapariga Que se Perdeu a si Mesma

A rapariga sentia-se confusa, cansada de uma semana de insónia. Acordava e adormecia, mas não descansava. Tinha pesadelos que lhe pareciam reais de abdução para uma nave extra-terrestre, onde ficava deitada a ver os seres translúcidos de tamanho pouco maior que humano a injetá-la com um líquido verde seiva e ela sentia posteriormente uma lassidão progressiva que a imobilizava e lhe retirava os sentidos até se apagar a consciência! Isso acontecia recursivamente, já não sabia como se esconder, pois era sempre apanhada, geralmente em sua casa, ali mesmo da cama. Elevavam-na, faziam-na passar o teto, as paredes, já meia dormente e perdida dos sentidos, até dar conta de si num espaço de luz néon azul esverdeado, num silêncio absurdo, tratada como uma cobaia. Depois acordaria na sua cama, cansada, muito cansada! Queria pedir ajuda, mas já calculava que iria ser pouco entendida! Tinha cuidado!  Ousou contar à amiga que lhe tinha dado o livro e até pressionado a leitura, após ela lhe ter c...

Da Profissão - espíritos.

Quando a psicóloga conversou com o rapaz lingrinhas sensibilizando-o para não fazer bullying com um colega obeso, ele, empertigado perguntou-lhe retoricamente: sabe se eu não tenho também problemas, até maiores do que esses?! e rematou " mesmo que tivesse, nunca lhos contaria!" e a psicóloga, confiante concordou, que falariam doutras coisas, não daqueles problemas! E depois em sessões seguintes falaram cada vez mais dos problemas de que não se podia falar, assim disfarçadamente, até que o rapaz assumiu e contou pormenorizadamente o que se passava com ele: falta de dinheiro, violência doméstica e o que considerava ser, a notícia falsa da morte do pai, na qual não acreditava! E a mãe foi chamada e contou uma história que só importa nesta parte: punha a mesa, sentavam-se e ela dizia "agora façam de conta que já comeram" e levantavam-se! Mas o rapaz não estava incluído. Houvesse ou não comida ele estava proibido pelo padrasto de se sentar com ele à mesa, pelo que a mãe ...

Da Profissão - ser nada!.

O rapaz fora-lhe apresentado como tendo "qualquer problema, parecia atrasado!". Viera da Guiné para o 12 ano, até que decidiram reposicioná-lo no 10 ano, e posteriormente num curso tecnológico, mas não evoluía na aprendizagem em nenhum dos lugares. Quando conversou com o rapaz não lhe detectou dificuldades no diálogo, mas também não adiantava grande coisa: falava de banalidades...entretanto chegou-lhe ao gabinete o irmão, de 14 anos, por problemas de comportamento, também vindo há pouco da Guiné e havia vários outros irmãos na escola.  Quando se lhe propôs, ao mais velho, formação num Centro de Formação Profissional e se indicou a documentação necessária, o rapaz começou a chorar e a dizer que não podia ir porque não existia, não era ninguém, valia menos que um objeto! E quis sair, sem nada mais falar. Mas pouco tempo depois, o mais novo avisava que estava de viagem marcada para ir viver para a Suécia com familiares e que tinha 17 anos. Face à evidente falsificação, a psicólo...

Da profissão - tempos imberbes.

Há muitos anos atrás, ainda ela tinha apenas a especialidade inicial que lhe permitira desenvolver as primeiras funções de conselheira de orientação escolar e profissional e estava em transição para as de psicóloga educacional, portanto ainda sem a formação em clínica, a não ser aquelas aulas no hospital em que os psiquiatras pareciam divertir-se a mostrar aos futuros psicólogos situações limite, e ela chocada e sem gosto por emoções gratuitas, faltava a algumas, que não faziam falta, pelo que via acontecer naquelas a que ia! e, dizíamos, ela ainda estava numa fase imberbe das novas funções, que foram sempre sendo acrescidas, primeiro técnica e cientificamente e depois com pouco mais do que burocracia e gestão...quando viu, na escola, um rapazinho de pequena estatura a correr atrás das raparigas para lhes tocar os cabelos. E elas fugiam e riam!... O seu fácies denunciava, o que lhe pareceu uma séria deficiência intelectual, mais do que isso, era quase simiesco. Faltavam alguns dentes e...

O Jantar Romântico

Ela foi apanhada de surpresa. Era ainda um primeiro encontro. Tinham combinado ir jantar. Poucas horas antes ele informa que tem o peixe a descongelar. Ela não quis apresentar-se como frágil e concedeu na alteração, pelo menos da sua intenção! Afinal era mulher feita! Quando chegou foi recebida com simpatia! Após uns sorrisos francos de satisfação entre ambos e a apresentação dos cantos da casa, foi instalada na sala por entre fragâncias agradáveis de uma vela. A luz indireta e ténue, que ela escolheu das alternativas que lhe propôs, combinava bem com o espaço cuidado e minimalista, com alguns toques de personalização numas fotos dos filhos e memórias de viagens, alguns detalhes da sua coleção que habita outro local da casa...e ele fora cozinhar deixando-a num banho musical de extremo bom gosto, que pensando bem, ele explorara na conversa anterior... Quando a refeição ficou pronta, com aromas, qualidade e detalhes interessantes, ele orientou-a para a mesa, puxou-lhe a cadeira a sorrir ...

A Impotência

Eu sou a impotência do homem e trago algumas histórias. A primeira é a do Zé João. Eu fui chegando devagarinho, a ponto de ele selecionar uma gama de mulheres, preterindo outras. Não vou dizer mais nada sobre este assunto particular para não ferir susceptibilidades, mas reduziu as hipóteses a duas pequenas, por minha causa. Ainda hesitou um pouco por outra, pela mesma idade do Zé João, mas de um estilo já tão conhecido! Quantas mulheres assim namorara ou tinham vivido com ele?! Decidiu-se, por fim, por uma das duas. Mais nova do que ele, aderiu à experiência, de vivência em casal, como ele gostava. A moça tentou alguns negócios, como adquirir uma nova casa paga por ele, só que o Zé já tinha más experiências e não era parvo, apesar de embeiçado, e dela parecer dar conta do recado - de mim, diga-se! Era uma simulação quase perfeita, até que ela precisou duns trocos para umas obras de monta lá na sua terra e ele contribuiu, porque a tarefa se dificultara após um AVC do Zé. Mas depois houv...

O Fumador - série Mariana

Sabes Mariana, aquele gesto de levar a mão aos lábios a aspirar um beijo que é depois largado no ar para seguir viagem até se espetar numa bochecha ou noutro lado, atrevido ou desastrado?! É esse gesto, Mariana, que lança o fumador para o campo afortunado dos afetos, espalhados a quem os apanha. Faz biquinho, aspira, depois de aproximar da boca, a mão insuspeita, e arredonda o gesto ao retirá-la, enquanto os fios caprichados de fumo, vão de modo lasso, em redemoinhos e parafusos até se espraiarem ou chegarem, como os beijos...mas mais reais do que eles! O olhar do fumador, se reparares, é bem diferente do beijoqueiro; neste caso, expressa-se afetado e circunspecto, mostrando a imensa classe dos deuses do Olimpo! O cigarro é um sexto dedo, que se lhe espeta distinto para o céu, como um ponteiro sideral e permite ao fumador manter em posição curiosa, suspensa no ar, a mão que doutro modo  levaria ao bolso ou a qualquer berloque. E a graça que tem, deixar pendurado o cigarro a apontar...

O Palacete

O palacete dos avós Bernardes fica junto à estrada militar, já à saída da capital. Na época áurea, quando o autocarro inglês da Carris passava, no piso mais alto, os passageiros levantavam-se com curiosidade para espreitar alguma extravagância ou novidade, como a grande piscina, os carros de gama alta às vezes ali estacionados, as belas e sofisticadas mulheres, uma festa, ou o que quer que fosse, certamente diferente daquilo de que eram feitos os seus dias, excepto os apresentadores da rádio, esses partilhados pelos dois mundos, ao vivo ou em ondas hertzianas. Mas isso era o que eu ouvia dizer, sobre o passado. Na adolescência, a minha mãe ia às quintas-feiras e sábados para o picadeiro e apanhava o autocarro na paragem anterior, por pudor e privacidade, mas sobretudo para ter tempo de subir ao piso de cima e, também ela, entre o povo, se erguer do banco quando o autocarro passava pelos muros da sua casa, para saber o que eles queriam ver e sempre se surpreendia ao ouvir os sussurros e...

Desmarginada - Série Mariana

Sabes Mariana, há quem tenha, como os rios, margens bem delimitadas e curtas, e flua, geralmente, em vales abruptos; outros marginam consoante o caudal ou o humor do terreno, mais ou menos jovial ou carrancudo.  E nas nascentes e olhos de água, os primeiros fios que irão juntar-se depois, podem por enquanto desenhar regos consoante a vontade de brotar que os anima! Nem se vê como margina esta origem, toda ela é difusão e tensão liberta e só depois a gravidade e o relevo combinam o trajeto a dar-lhe, sem ter em consideração qualquer vontade, por certo imatura, do broto. É assim que sou às vezes, como um começo continuo (serás tu?!): vibrante e criadora, sou desmarginada! E noutras, espraio conversas imensas por deltas improváveis, e aí sou ainda, desmarginada! Mas há os que, bem delimitados e em curso estreito, se atiram sofregamente ao mar! Eu não! E tu, Mariana? É no percurso mais longo, quotidiano, funcional, que definimos a tolerância de limites entre nós e os outros, assertivam...

A Partida

Quando ele partiu deixou um vão que se encheu imediatamente de saudade, sugada como água para um buraco na areia... E na beira-mar, ela esperou paciente até a conformação, ou a areia, aplanarem o desnível, pois se até um castelo, ali se deforma. Ficou sentada perto da linha de corte das ondas mais atrevidas com espuma em filigrana, às vezes já suja, e não se importou de estar meia molhada e ser já tarde para secar. Perdeu-se a ver os padrões das ondas a teimar contra o areal. O que querem?! Furá-lo, levá-lo a ceder, só porque sim?! e depois continuarem mais além a mesma tarefa?! Às vezes acalmam e parecem estar em segredos umas com as outras, até que alguma voz se eleve e cresça em força para atacar a areia mais longe ou chegar a Ela na beira menos tangível, ainda assim alcançável?! Outras vezes ergue-se numa zanga tremenda que tudo quer rebentar! Explode em fúria, asperge uma área imensa... Mas não importa! O buraco que ele deixou na areia dela custa-lhe tanto em dor, apesar do seu ta...

Ai a preguiça! .

A vontade molinha a dizer do lado direito: "não faças!" E a outra, do oposto, supostamente contrária, a não dizer nada! E Ela a concordar com ambas, pois quem não fala...!  - "Isso, não faças!" Ai que concordância que se lhe deu, habitualmente tão crítica.  - "Mas não pode ser! Penso que.." , cogita Ela num rumor desmaiado a tropeçar no silêncio comprometedor. - "Não penses", retine a primeira.   E Ela a pedir auxílio a quem quer que seja. - "Falta-me a vontade", queixa-se, lamurienta!  - "Ora ainda bem", diz o diabinho do lado dextro, voluntarioso. (Mas que azar que no cérebro está tudo cruzado e quem ganha em palavrar para o lado da linguagem que manda no autocontrolo da gente, é o malvado!) - "Queres que te faça um desenho?!" e ri, sádico, da impotência do lado esquerdo contrapor para o hemisfério direito que, entretanto, adormeceu ao largo de uma bela piscina de água salgada, no meio do monte alentejano, para os ...

Amores do Quotidiano - Poesia Rude.

Ele, atrapalhado,  deu-lhe um beijo sonoro  na orelha!  Oh, que estrondo azelha!  E envolveu-lhe o ombro num abraço  e acertou na parte dorida.  Ai, a ferida!  Queixou-se ela,  mais dele, do que da mazela! E lançou a maozinha  em cima da mão dela, roubando um afago doméstico.  E ela fincou-lhe um olhar  de tolerância curta.  - Estás retraída!  e ela muda enviou muitos sinais  com trajetos de cadência meteórica.  E ele retirou a mão  e pôs-se a desenhar arcos  de condução  sinfónica,  intercalados  com a conjugação dos dedos da mão  esquerda com os da mão  direita, a sugerir a reconciliação.  E ela aceitou  por ora as escusas,  sendo que registou  no cadastro  que lhe estava a fazer,  os acontecidos... E ele queria já tudo,  com pouca dedicação  e nenhum  comprometimento.  E ela resistia  às tentações,  mais do que às te...

Mariana - Série

Sabes Mariana, porque as mulheres calçam salto agulha?! É para ficarem mais leves e tomarem balanço para voar. É só um ameaço, uma tensão de mola! Estamos sempre a pensar vê-las ejectar num ângulo de quarenta e cinco graus. Quando se deslocam em calçada difícil como a portuguesa, é uma graça vê-las titubear a marcha e puxar o salto preso por azar. E na passerelle, elas mandam um pé para a frente do outro, enérgica e sucessivamente, para  darem uma ideia de pressa e de atividade, já que lhes falta o espaço na passadeira e o motivo: andam só a pavonear-se com expressão de gato, entediadas. "Mas às vezes o salto é sólido e de tacão alto e outras médio ou raso!" - protesta a Mariana. - Digo-te que também é de relevar as unhas! Repara, são ornamentos das pontas das quatro patinhas; assinalam os limites entre elas e quase tudo. Por exemplo, as unhas pintadas, sobre uma folha de papel - nem vês o que está escrito, prende-se-te o olhar nas setas dos dedos, finas; ou a competirem com ...

Ah, o amor?! .

Amor é... lembra os postaizinhos da minha jovem adultícia, fofos, com desenhos simples de um Roberto que o Google não me ajuda a encontrar o apelido, mas me dá outro por alternativa, o Roberto Carlos - obrigada Google! e os postaizinhos do primeiro Roberto, ensaiavam uma resposta plausível na segunda página, que nos deixava emocionados. E lembra também as inconclusões dos poetas em que ele é e não é: o amor não segue a lógica aristotélica. Mais tarde, os ensaios sérios sobre amor e paixão, já com umas certas certezas, que certamente se perderam de novo, não foi Alberto Alberoni?! Nunca foi provado que o amor não possa nascer de uma relação imposta e que não seja uma impostura a predestinação ou a escolha aturada! Os serviços de apoio ao encontrar de um amor, são uma fraude! O amor é para alguns, como Yuval Harari, mais uma ficção, como a religião, ambos destinados a consolidar comunidades e grupos familiares... fundamental para a sobrevivência e progresso humanos! O amor tem muitas ve...

Telma

Telma está rente à única janela que dá para a rua, porque o resto da casa é abraçado por um jardim e pomar - uma conquista que veio com os excelentes ordenados, a venda da casa em Lisboa, e os apoios à parentalidade. Está seminua e sente-se confortável de T-shirt. Revê o termómetro embutido na janela e verifica que estão dez graus lá fora, o mesmo de há meia hora atrás. É outono na Baviera, as crianças estão na escola, o marido a trabalhar e ela de baixa. Olha as duas mãos, brancas e pequenas, sem verniz, unhas rentes mas bem cuidadas. Vai à casa de banho buscar um creme de mãos, cruza o olhar com o dela mesma no espelho e vê-se igual ao dia anterior - na rua, as raras vizinhas, espantam-se com a magreza; perguntam se está doente - "umas coisinhas de nada!", desenrasca num bom alemão. Já cá está há uns bons anos e é inteligente, especialista em sistemas e, sobretudo, muito determinada e persistente. Qual magra?! Saudável! Não perde tempo a explicar que é vegan e cuida de todo...

Os Animais e Nós .

Os animais são idolatrados pelo ser humano! As redes sociais estão cheias de provas de que os animais domésticos ou selvagens são ternurentos e fiéis, esqueceram a predação... E também os apreciamos no prato! Os programas e livros infantis têm predominantemente personagens animais.Num teste psicológico de personalidade, dito projetivo, o pêlo animal relaciona-se com a afetividade, e ver animais nas manchas é muito comum. Mas a relação com os nossos pequenos domésticos, com o seu número a aumentar exponencialmente, o cão e o gato, também é sinónima de solidão, desilusão com outros humanos e, para além de colocar questões de sustentabilidade ambiental, esconde a faceta de posse sobre o Outro. Os domésticos são, de certo modo, os nossos escravos do afeto. Não?! E, os animais são sencientes, seja um gato ou um porquinho bebé - o leitãozinho da Bairrada, ou de outras receitas -, a perninha, o lombinho...tudo de animais, a maioria das vezes com a vida mais miserável do planeta: nascem em cat...

O Homem do Pífaro

O homem chegou e sentou-se nos degraus do pelourinho, no meio da praça medieval! Olhou à sua volta e apreciou os vasos de flores pequenas e coloridas a penderem dos "balcones" de madeira em talhas caprichadas; as casas de pedras retangulares de granito escuro exibem a intimidade húmida nas frestas. Viu a hera da floreira, que está na esquina da praça com a rua Alonso, trepar para sair dali, pelos ares - pensou, mas duvidou. À esquerda, a loja do alfarrabista e ao lado, a das velharias; já por trás e sem olhar, lembra a farmácia, logo seguida da ervanária - não sabe se a Zertolinda ainda lá lança as cartas. Do outro lado, só há portas cerradas, com batentes de chamar, sem uso. Nos andares de cima, em toda a volta - menos nas casas fechadas -, já não sabe se conhece alguém. É onde cuidam das floreiras, talvez mirando a do vizinho para que não seja a mais linda. Faz uma brisa fresca, é fim de tarde de outono, poucos se atrevem a ver o sol partir - fecham-se nas suas casas -, e e...

A Ilha da Zé .

Voltei à ilha da Zé, acompanhada do Tim e dos outros três.  Como eu adorava aquelas aventuras arriscadas, as passagens secretas, os adolescentes e o cão, com capacidade para vencer os adultos malvados! E... para gáudio da minha mãe, abriu-se-me na altura o apetite, mais do que com o óleo de bacalhau em versão simpática: Lipobiase, com sabor a banana (obrigada mãe!). As hormonas podem ter dado uma ajuda, mas os piqueniques dos cinco eram tão sugestivos.... Uma aventura dos cinco era um mergulho fundo na imaginação! Ontem voltei à ilha! Já sabia que ia ser diferente. Mas queria saber quanto. Claro, ela é muitos mais pequena agora e, pior - em vez de ser longe da civilização, fica ali perto da enseada junto ao vilarejo onde vivem os pais da Zé.  Senti-me quase observada enquanto andarilhava pela ilha com os meus amigos - afinal já na altura éramos seis, que eu também por lá andava...Bem, tal como vocês, aposto ... mas não calhámos a encontrar-nos por lá! O túnel, com os contraban...

Histórias para a Mariana

Sabes, Mariana?! aquela língua comprida que alguns homens têm ao pescoço? Às vezes é de seda, outras de imitação dela. Nunca pensaste porque a têm? Ah e nunca é apertada diretamente ao pescoço, precisa de um colarinho. Vê comigo: são umas asas pequeninas e a comprida e afiada língua. É bom de ver! Eles conseguiriam voar, embora voos curtos, com aquele tamanho de asas. Como as galinhas. Talvez. E, com as duas patinhas traseiras ou fazem um V para as fotografias de corpo inteiro, ou então enfiam-nas geminadas por baixo de uma secretária de algum poder ou muito poder, de onde emanam ordens. E nas reuniões sem mesa, cruzam-nas apontando uma ponta estilizada e por vezes brilhante ao interlocutor, oscilante como uma cauda. Ah e Mariana, a língua é porque é isto que eles fazem: usam o verbo muito, muito, na palavra dita ou nas cartas, memorandos ou ordens. Sempre a palavra. É porque voam rasteiro e metem palavras a escorregar como a seda, mas a penetrarem além do seu próprio corpo, o espaço d...

Rethinking love .

O amor entre adultos não é apenas uma questão íntima. Tem consequências na motivação, no ânimo para a vida, na estabilidade emocional, na organização da vida familiar, na vida dos filhos, se dependentes, na saúde mental e na vida social, no trabalho, enfim! Por isso, admira ser tão pudicamente negligenciado nas ciências e serviços sociais. Os adultos precisam refletir e, possivelmente atualizar, o que pensam sobre o amor, as relações íntimas e as sociais delas derivadas. Os sites de encontros existem! As redes sociais comuns também são aproveitadas para promover encontros! O comportamento das pessoas está a mudar! Há que estudar o assunto e agir em conformidade! Há pessoas que parecem acreditar: é agora o grande amor, o ideal!  Tenho observado algumas parelhas de novos amores. Constato que habitualmente há um elemento que divulga proficuamente e o outro cala. Começa logo ali o equívoco. Um assume perante o seu mundo, pais, filhos, alunos, clientes, colegas de trabalho...e o outro m...

Afinal, Já Era - Criminal Profiling

Ah o cheirinho da primavera, as aromáticas do jardim, a madressilva, os canteiros de mimosas. Preferia assim, a viver no centro da cidade. Havia um preço, em tempo e dinheiro, a pagar, mas não se importava. - Hola Javier!  E assim começa mais um dia na rua que não é avenida, felizmente, mas dela beneficia em acessibilidades. - Hoje trago uma bomba, diz o Mota. O caso do suicídio suspeito vai ser aberto... não é esta a bomba!... O homem já está preso por outro assassinato! Ui! Deve ser um psicopata! Mas desta vez fez parceria! E o móbil foi dinheiro, tal como provavelmente para o suicídio! - Ai Mota! Caramba que nem acredito! É dia 1 de abril! Ahaahhahh! - Desengana-te! É mesmo verdade. Infelizmente para as vítimas! Desta vez foi em Sintra. Tinha-se mudado para um palacete! - Ui! Subiu na vida! Deu o golpe do baú com senhora idosa?! (Clara) - Mais imaginativo! Começou uma relação com mulher latino americana, já com nacionalidade portuguesa há muito, e vários filhos, alguns já indepe...

O Tico e Ela

O Tico foi salvo da boca de um cão, ainda em bebé, já depois de outro da ninhada não ter tido essa sorte. A sua protetora foi a mulher a quem gastei o nome de mãe: ó mãe! a torto e a direito! Talvez pelo stress dessa vez, o gato ficou com eterno medo, curiosamente dos humanos, excepto da mãe dele e minha, de quem era tão carente que chegava a aborrecê-la. Fugia de nós, da família, já visitantes, ou mesmo do meu pai que com ele sempre habitara! A mãe, mesmo quando ia perdendo a vontade de cozinhar para si - porque era seu objetivo e prática de vida, dar, fazer para os outros, mimá-los com comida e manutenções várias domésticas-, a mãe, dizia eu, fazia comida humana só para o gato que gostava de guisado e claro, de peixes vários. Ela repetia, sem sentido, que tinha dois receios: ficar dependente dos outros - e pedia que na sua hora a levassem rápido - e que o Tico ficasse, por lá, desamparado. As vezes que lhe fiz o reparo, pois se ela era nova, ainda de sessenta e muitos - e o Tico tinh...

O Suicídio Suspeito - Criminal Profiling

Chovia como se S. Pedro tivesse tirado a tampa ao céu. Era impossível segurar um guarda chuva. Clara optou por fechar o seu e chegar como um pinto ao prediozinho da rua esconsa ali ao lado da grande avenida da capital. O local lembrava um refúgio secreto à rapariga, que dava por si em grandes elucubrações paranóides desde que começara o estágio, mas logo se ria da sua distorção de pensamento. Chegava! O porteiro de bigodes revirados e desatualizados depressa a socorre e lhe oferece um fato macaco que têm das obras. Aconselha-a a vestir dois, um sobre o outro e dar-lhe a roupa que ele iria tratar de a secar - só o Sr. Javier! Na sala de reuniões já está a equipa completa e vestida de fato macaco, - a expressão de Clara, ao entrar, provocou uma risada geral! Ela acena com um sinal pouco sério de desculpas e todos relevaram, inclusivamente o Sr. Mota, o coach. Então, inicia o mestre, já que podemos começar, apresento-vos o desafio de hoje. Temos em arquivo uma denúncia anónima em que se c...