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Bom Dia Mário

A vida revolveu-se desde aquela época em que nos vimos pela primeira e depois pela última vez. A quarentena. Os telefonemas ambíguos.   No dia 29 de março, creio, um longo discurso sobre os Whigs e o século XIX em Inglaterra adiaram da língua o sabor a veneno. Era o quê, que me dizias?! Era sim, não, à vez, talvez? Que confusão! Aflita, vogava em tempos possíveis e intermitentes na tua estória dos Whigs. Nos intervalos, distraia-me com o aperto no peito e as linhas de pensamento que faziam perguntas e saltavam a resposta, e depois retomava a tua estória mais à frente, da qual só memorizei: os Whigs e a profusão de sentidos do liberalismo. Naquele momento, uma pedra tumular grave e anónima levitou sobre mim e levou dois anos a cair até esmagar por inteiro memórias doces ou expetativas de amor fraterno (ou eterno?!). Qualquer coisa se esvaiu da mente e ma deixou menos capaz, porque o que nos completa, nos faz ser, e o que nos roubam de dentro, nos desfaz. Foi no dia 29, se a memória ...

No Special Feeling

Consultei as minhas entranhas e não estremeci! Eu sei que falámos noite e dia, tivemos encontros de dezenas de horas entre jardins e restaurantes, demos abraços fraternos, ternos e enamorados. Sei que gostaste do meu toque e dos beijos caprichados: sei que sim! Desculpa, então, mas hoje consultei-me e não estava envolto em magia, nem o futuro se tingia de ti. Não entranhei as imagens que guardava de nós nos enleios melífluos do amor. E mais, não me fazia impressão especial imaginar-me a escrever-te umas linhas de adeus; não sentia saudades antecipadas; não me escorriam desejos pelas mãos ao sabor das tuas curvas; nada me fazia pular o órgão das chacras, sentir bêbado do teu néctar, aflorar aos lábios as pétalas dos teus ou sentir pelo avesso o abraço a mim próprio. Nada.    [Nenhum sentimento especial contrabalançava a excitação de ser visitado pela sua concorrente, que está aí a chegar para a próxima semana - vem a uma exibição musical e, depois, vamos finalmente conhecermo-n...

Vicky Martens

Vicky, bela e esguia, é escorregadia do cabelo às pontas de bailarina, a dançar plim-plim na caixinha de música; o tutu a fazer círculos titubeantes e ela de sorriso doce e terno para mim. Eu de cinco anos, em bicos de pés, a espreitá-la à altura da cómoda e a rir baixinho porque o coelho branco, embevecido com a Vicky, se assustou com a sua própria imagem no espelho, saltou e partiu a jarra da madrinha, que eu detestava. Entretanto, a Vicky acaba a corda e fica elegante e calma à espera que eu coma a sopa e cresça: ela talvez aos tombos no sótão e eu na vida. Mas juro que te resgatarei para a minha coleção de bonecos de sandplay, quando for grande e terapeuta, Vicky Martens. E quando eu for roteirista da Netflix, juro, Vicky Martens, que serás a heroína da minha novela debut, com o teu nome por título e o tema, deixa pensar: serás uma bailarina famosa, vamp, de partir os corações e não te decidirás por nenhum dos dois amantes; consequentes atribulações acontecerão na tua vida, assédio...

Avô

Ele sentava-se na arca medieval cheia de iguarias. A arca tinha patine. A fala dele também. Ele gostava da Dona Constança e da Dona Urraca. Eu, sentada de pernas cruzadas nas tábuas do chão coradas de anilina, via as rosáceas vivas das bochechas com os botões dos olhos no topo, os dentes a mastigar as palavras e a língua grossa a molhá-las, e entrava na história dele sem me preocupar com nada, porque era amor, do que ele falava, e eu também o amava. Avô!

Línguas de Fogo

O homem ateou um fogo na fazenda dele. Era a um quilómetro de distância. Uma queimada. Era outono. Subimos à placa da casa em construção para ver melhor. Fervilharam as opiniões, avisadas pela televisão: nada de fogos! Imaginei, à velocidade do eletrão, as mais escabrosas evoluções do caso - eu e os dramatizadores. Afinal não era um descaso. O homem sabia o que estava a fazer. Seguia as regras. Deu filhos e estes deram-lhe netos e aí está a evolução. As línguas de fogo e as da especulação, fizeram cinza. Sei lá quem foram. Tontos!

Necessidade

Gostava de falar agora com uma pessoa...que não fosse especial, nem normal. De preferência, não fosse muito especial ou muito normal, nem se sentisse desses modos. Já conheci tanta gente tão especial ou normal e fiquei tão plena, que agora tal não me faz mais falta; aliás, não tenho espaço na cabeça, no coração, ou na alma - não sei bem como dizer; sobra um pequeno vão, debaixo de uma escada, para me esconder a contar segredos pequenos, comer pipocas e pevides contadas também, desejando sobrar fome por saciar e um pouco de sede, e rir por reflexo dos disparates, pequenitos, sem dramas; medir a palma das mãos uma pela outra - a minha e a sua -, talvez com uma palmadita e um "ó pá!" E depois irmos embora para qualquer lado sem histórias para contar, exceto esta, parva, aqui deixada.

Gentes da Serra

A serpente da estrada da serra causa-lhe náuseas. Vai apertada entre as crianças e os adolescentes no banco de trás do automóvel, provavelmente por causa das suas dimensões: magra, baixa, tímida. A ida foi-lhe apresentada como um ritual: conhecer os futuros sogros. Ela só conhece algumas cidades e um tetra de aldeias aconchegadas umas às outras. Vai apreensiva, com o estômago a querer saltar fora. Nem tem tempo de brincar com o olhar na folhagem a recuperar o território furtado pela estrada. Chegam, o coração salta dentro de uma caixa onde é abafado, ela põe-se em piloto automático: polido, educado, civilizado, mais urbano do que era na realidade, as mãos suavam nos bolsos, o frio esfaqueava a garganta, os pés eram de pedra na forma do sapato impróprio para o clima, e tinha fome, que acabou por confessar, fragilizando a figura empalhada que estava a fazer. Rapidamente, os convivas encetaram uma conversa em rede das coisas deles - tanto por falar estando naquelas distâncias, a maior sen...

O professor de música

Ela e o amigo professor andavam a dar música um ao outro. Não era desafinada, até já se lhe sentira a harmonia, mas de baixo volume e suave impacto, e iam já numa, duas, três ou quatro vezes de encontros, ou até mais, discretamente como se fora uma amizade. Em matéria de sair à noite, ele era muito fixo no local de predileção: uma rua no Cais do Sodré, cheia de amigos das orquestras e respetivos familiares a lançar negócios de bar e restauração. E aí se acomodavam junto à vitrine da antiga loja de roupa ou de meninas, apertando os pratos em cima de um lavatório vintage convertido em mesa, no restaurante sem objetos repetidos - uma moderna reutilização preceituada -, e divertiam-se, assim modestamente, mas com muita tranquilidade. Umas noites a rua enchia até ao excesso e noutras vazava, como as marés. Ela ainda se lembrava das trupes de marinheiros que por ali vogavam, junto com os clientes das discotecas vadias, e uns grupos de curiosos, onde raras vezes ela também se inscrevia, e, cl...

Fui Levado

Fui levado à aldeia de xisto Vindo de outra, caiada Senti saudade da minha gente A solidão violou-me A música ofendeu-me Os falares eram ruído Senti falta da minha mãe e da sua tradução do mundo Eu que me julgava independente Gatinhei Tive sede como no deserto Vislumbre de ser enjeitado Podia despontar-me a morte ali A mim, desconhecido soldado.

A rua dos silêncios

A Rua Berta tem quatro casas, quatro casos. Os vizinhos da esquerda zangaram-se com os do meio e os da direita também. Os da frente são superficiais e neutros. Portanto, a rua tem silêncios em vez de bons-dias. Tem esgares e cortinas com vultos fugidios. Solidões pesadas. Esperas crepusculares pela morada dos ciprestes. Os sons de viver, que se ouvem às vezes, parecem intrusões na pele. Não são naturais. Antigamente, os antepassados daqueles viziinhos eram amigos! Amigos! Ainda me lembro dos sorrisos sinceros e das boas palavras.

Ora Essa, Hem, João Maria?!

Penso que não vou mais falar contigo João Maria. Sempre a depressão e a má disposição a alternar com a felicidade de estar com as tuas meninas; outras vezes,  afundas em silêncios que apenas querem dizer que andas a divertir-se à grande com tudo a que achas ter direito, e não é pouco! A esposa, separada de ti há décadas, deixa-te morar na vivenda, independente; tens bons espaços e até animais, um cão, dois, às vezes mais uns gatos...uma oficina para os hobbies, salas específicas e um quarto quentíssimo de histórias hardcore; o quarto de banho anexo, para as ablações consequentes, e ainda, vizinhos culturalmente interessantes. E apesar do sossego da zona estás a dois pulinhos do centro qb urbano, turístico até...e não digo mais para não te comprometer, mas só acrescentar as boas vistas para o rio e Lisboa ao longe, e as passeatas na lagoa, na cascata, na barragem e sempre as meninas como suplemento afetivo quando faltar a namorada com casa de férias, no Meco ou em Meca e uma santa, ...

Aquelas Mulheres de Portugal

Aquelas mulheres de Portugal, que eram as nossas avós nos anos sessenta e setenta e viviam na aldeia, tinham uma fibra de se lhes tirar o chapéu: tisnadas e calejadas pela vida, possuíam uma figura de que guardamos memória.  Usavam lenço na cabeça em cores sóbrias, o cabelo perfeitamente acachapado e algumas mantinham-no escuro ou madeixado, talvez porque não fossem tão idosas assim, mas chamavam-se velhas a si mesmas e eram as "Ti" qualquer coisa - nomes antigos e deliciosos como as suas comidas. Os olhinhos iam ficando pequenos e baços, com auréolas amareladas por lente e encolhiam para dentro das órbitas enrugando as pálpebras em círculos. E depois, as marcas do riso ou do espanto distribuíam-se-lhes nos pés-de-galinha dos olhos ou no til em bis da testa. Os tiles, como acentuação do longo histórico de pareceres já dados, a pedido ou espontâneos e os pés de galinha como vingança daquelas a quem dobraram o pescoço e enviaram para o lado de lá, garantindo o sustento da famíl...

Dias de Costura na Menina Antónia

Linhas em carrinhos, carretos da máquina Singer; alinhavar, chulear, cerzir, ponto atrás, remates, na fazenda, chita, jérsei, seda ou sarja, às vezes até cambraia, musseline ou organdi; as saias em godés, em plissado, com prega ou macho, travadas ou evasé. A menina Antónia fica à janela do rés-do-chão de sua casa, de onde emana as orientações - que ela assumiu a chefia da equipa -, e, na rua, rente à janela, sentadas em pequeníssimos bancos rasos e duros, assentam as mulheres as saias travadas de onde revelam as pernas torneadas que esmorecem nos chinelos com grossos dedos e unhas largas exclamando nudez vigorosa. As linhas dos alinhavos desmanchados são dependuradas no ombro; os dentes cortam os nós; a língua lambe o dedo para fazer outros, num faz e desmancha marcado pela saliva construtora e pelos caninos tesoura. A visão ótima das mulheres jovens guia a mão certeira com a ponta da linha lambida na passagem estreita do buraco da agulha. Agulhas com cus: grandes ou pequenos, e elas a...

O peixe terrestre - um sonho

O peixe vermelho e gordo dava-se fora de água, tinha-se adaptado e conseguia mesmo fazer uma correria desengonçada com a parte traseira, e saltava como um cão o faz, de alegria, até à mão do dono. Os olhos já não eram simétricos, por esforço de adaptação, ficara com um mais atrás do que o outro. Apesar de estranho, era um prodígio! O gato era meigo e cheio de feridas no dorso. Aguentava os tratamentos sem protestar. Até um ratinho feloso foi adotado, apesar do seu pêlo anunciar alguma doença, mas não conseguiu vedar-lhe a entrada, apesar do nojo de imaginá-lo escondido entre os lençóis da cama. O gato, a que se juntou uma gata velha, eram aliás grandes amigos do rato e do peixe.

Um Gato de Morna

O homem era um enfezado! Erguia o queixo e punha uma expressão séria. Se abria a boca, aparecia um dente incisivo que era metade do outro, exibindo-se um escuro retângulo no desnível, negro e decerto húmido, mas logo os lábios carnudos (sim senhor!), cobriam tudo e os olhos redondos com pestanas radiais como a Maggie Simpson olhavam para nós, impassíveis. Conforme os dias, a carantonha do homem mudava cento e oitenta graus. A Mulher, calhou a vê-lo em dias maus, mas noutros, as fotos, mostravam menos fealdade, diria mesmo que, por vezes, parecia bonito! Acomoda-se este ser na sua miúda, Morna, que se finge quente e muito moldável e geme e brada e declama mentirosa que ele lhe é fatal e a melhor escolha! E o tonto acredita, e enche o ego até lhe saltarem os bolsos para fora com o recheio de dinheiro que Morna lambe! Ah que casal tão complementar! Ela recebe os juros da vaidade que lhe insufla no ego inchado - quero vê-lo rebentar! - talvez estoure o outro dentinho e vá embater na garraf...

O 31

Era meloso e entrava de finhinho a meter conversa: que bom, que lindo, olhe sou bom rapaz, e tenha cuidado com, e gosto - repetia-se - e sabia bem porque sabe bem ser apreciado, só porque sim. Ele era daquelas pessoas que, pegando confiança, lá estaria a mandar-nos aos ares e pegar-nos na queda, o que faz rir a bandeiras despregadas qualquer bebé e os eternos bebés que guardamos dentro de nós, sem ser por querer, mas porque é assim, pronto! E ele insinuava-se e ela admirava a renda que fazia com as palavras, a renda e o algodão doce, as pipocas, as fábulas, os contares infantis e mimados da província, do campo, da praia, das heranças culturais de uma geração e porque sim, apreciava o senhor. Mas  o senhor das palavras encantadas era desdobrável em mil caricaturas - foi o que ela descobriu assim que ele se apresentou em pop-up, muito saliente e evidentemente seguro de si, a pender para o campo vital dela e ai Jesus!, ela escondeu-se por trás do silêncio, fez uma cara carrancuda para...

As múltiplas sombras de Otávio

Ah o Otávio, o Otávio; o Távi, o Távinho! Lembro-me dele, impávido ao tempo, sempre o sorriso comedido, a significar coisas diferentes dos sorrisos nas outras pessoas, muito firme nas suas extravagâncias - devemos classificá-las de extravagância ou de misoginia?! - o Távi muito certo das suas certezas, funcionário público, daqueles casos tão caricatos da norma, que poucos são tanto assim! Ele era esse tanto, essa exceção de tanta normalidade. Perdoem a contradição, mas penso que sabem do que falo. Olha eu conheci o Távi quando ele era diferente, deixava-nos a trabalhar no grupo e com toda a lata ia ler o jornal para o café,  sistematicamente! Quem diria, depois tão rigoroso com os outros, desde que se tornou meio-chefe. Meio-chefe é chefe intermédio, daqueles que sobrevivem a mandatos e mandatos dos líderes principais que fluem entre os vários ministérios ou mesmo vão a outras vidas, e eles sempre lá - muito típico, aliás! Eu conheci um Otávio inovador: imaginava maneiras de fazer ...

Um Jogo Real

Um Jogo Real novembro 01, 2021 Os jogos reais (Real Games) servem para ensaiar competências e foram iniciados nos Estados Unidos da América no treino para a guerra. Porém, o seu potencial é enorme, e a gamificação alastra pelas atividades humanas, usando e abusando dos mais básicos mecanismos de sobrevivência humanos e da tradicional ignorância que deles temos. Não se trata de verdadeira ignorância, mas da necessidade da sua ocultação na sombra do pensamento e da autoconsciência, porque nega muito do que aprendemos e do que fomos educados para acreditar.   Mas este é um parco enquadramento, não é um ensaio sobre o comportamento humano: uma pequena estória apenas, vivida algures, ontem, hoje e amanhã, por aí, pelo mundo. Procurai nas salas de espera dos aeroportos e nas selfies das redes sociais! Heminssen era um homem extrovertido, o seu trabalho permitia-lhe e exigia-lhe muitas viagens dentro do país. No entanto, a Noruega é difícil para os humanos naquela fase sem luz, e quanto m...

O Desenvolvimento de Porto Mastim

Um enclave nas falésias, bem apertado, estreita três ruas perpendiculares à margem do rio e afaga entre cada fileira de casas e a rocha, uma espécie de pombais humanos, feitos de contraplacado, lata, ferro e esferovite, a que o tempo acrescentou algumas paredes de tijolo e persianas nas janelas. As casas de baixo misturam gerações e níveis de vida. Umas repetem a traça, são pequeninas, de primeiro andar, outras de rés-do-chão e quintal, às vezes com cobertura de onde oscila, ao ritmo do vento, a quinquilharia comprada na feira; noutros logradouros, o higiénico cimento dá o mote da desolação a tanques de lavar roupa ancestrais de utilização duvidosa, ou, pelo contrário, exibe-se um investimento no grelhador e nas cadeiras à espera do sol ou da refeição, congeminadas com a mesa e a toalha de plástico. Ocasionalmente, por algumas frestas das janelas, a música popular espreita descarada e estridente, mas o povo é, habitualmente, recatado. Uma ou outra casa mais alta, com especificidade art...

Bruxas e feiticeiras andam por aí entre homens e mulheres

Tu podes, meu amor, ter a pálpebra descaída. Podes ser só inteligente e agradável que já és o máximo, mas eu, meu amor, desgasto-me com todos os ângulos para que sejam prefeitos, ou quase, às vezes um doloroso quase, afastado, e sofro, e tu achas justo que eu sofra e pensa-lo a olhar entre mim e o vazio no centro da minha testa, com uma das pálpebras dos teus olhos a descair. E se viras a cara para o mar, ou porque passam umas pernas giras, vejo o perfil da tua cabeça descontínuo, da calva ao cabelo sobrevivente a criar uma bola de massa abolachada para trás e eu devo olhar para outro lado ou apreciar-te colado com o olho vesgo às pernas da jovem. E tens um rebordo curvo na barriga que te enche de alegria - até parece! Perdoas-te enquanto te faltar a vontade da dieta e do ginásio; já eu, serei olhada com desdém se me apresentar nesses propósitos. E eu sou a bruxa má se me queixar, a vitimizada, até as tuas amigas, a tua mãe, as mulheres da tua referência vão concordar, porque elas são ...

A Desconfiança

Ele chegava aliviado do trabalho, já a respirar fundo, após ouvir o chilrear dos passarinhos e ver as abelhas a laborar entretidas nos canteiros, parou junto à árvore da janela, inspirou fundo, pensou "hoje a empregada não veio?", porque a janela do seu quarto estava fechada, fez uma festa à gata da rua que por ali poisa, meteu a chave à porta do prédio, depois à da caixa do correio, tirou um envelope volumoso e umas cartas com faturas, pô-las debaixo do braço e abriu a porta de casa lançando-se quarto adentro e espojou-se na cama violentamente, sorrindo aliviado. As cartas espalharam-se por ali. Ficou a olhar para o candeeiro e a respirar fundo e depois reparou melhor no envelope maior e rasgou-o: apareceram fotografias da namorada em esplanadas, à porta de prédios, à entrada de carros, numa praia, e aos beijos... Deu-lhe um baque no coração e temeu pela sua saúde coronária frágil. Depois retomou o desfiar de fotos! Parecia de um filme de detetives privados! Não era verdade....

A Esperta Expert

Ela era jovial, brasileira, longos cabelos negros com extensões, olhos mel, formato indígena de face e corpo normal, um pouco baixa, mas grácil. Tinha agenda! Ele era um pouco mais velho que ela, uns sete anos, casado, criador de uma empresa que ia de vento em poupa, internacionalizando-se. Ela engravidou. Ele não queria que vingasse, mas ela fez um plano. Ele era muito jovem, uns vinte e poucos anos, e foi fácil de seduzir. Um mês depois ela informou-o de que engravidara. Mostrou a maior vontade de constituir família com ele e envolveu-o num projeto de vida em comum. Tinha uma filha já de 8 anos!, disse-lhe.  Prepararam a apresentação aos pais, até porque o rapaz vivia com eles e era nessa grande casa que se iriam ajeitar: bem localizada, uma grande vivenda com mata e piscina; tinha-se iniciado na empresa do pai, após o curso de gestão. Estava combinado! A mulher marcou encontro com o homem mais velho e pôs as suas condições. Após protestos e negociações, estabeleceram um acordo! ...

Os Novos Enamoramentos

Incapazes de ser humildes, homens e mulheres não se amam mais, o mais das vezes. Podem colaborar e partilhar economias e logística, mas cada um tem a sua coqueluche animal para afetos profundos - ou partilham a mesma.  Os animais oferecem a sua boa disposição, aceitação incondicional, obediência - vá lá um capricho ou outro -, tocam a nossa pele sem pudor, e deixam-se acariciar, não têm problemas para pensar, ou resolver, não sofrem de dores de cabeça, não amuam.... Mostram amor em cem por cento do tempo. E não cobram. Se se fizesse o mesmo a um humano, ele ficaria com ideias de extensão das responsabilidades, a tentar mudar alguma coisa no outro, a pretender controlar o seu comportamento. Com o animal, não é só uma relação assimétrica favorável ao humano! Na verdade, é a relação ideal para um humano: assim ele domina, controla, e o afeto é puro, só ele mesmo, sem agenda. Há quem prefira formas humanas, talvez uma boneca japonesa em tamanho real, mas falta-lhe tudo o que é pele e e...

Um Conto Misterioso

O marido prometeu-lhe uma viagem surpresa. Enquanto se dirigia para casa, sorria por todas as frestas do corpo e a mente começou a fazer prólogos preparativos e a criar cenários em horizontes românticos. A mulher expandia a sua satisfação através da pele que esticava e melhorava a cor com um carmim de saúde, os olhos brilhavam à vez na sombra das pestanas alongadas, o cabelo adquiria um viço de juventude e os aromas de terra e citrinos surgiam em sequência pelo caminho, onde viu canteiros de flores que nunca tinha observado antes - no percurso habitual para casa. Uma canção compunha-se-lhe no ouvido, e flashes do casamento, do nascimento dos filhos, desfolhavam-se à sua frente. (...) Não se lembrava bem! Como dizer? Queria...como ... - Dulce! Dulce! Querida, estás a ouvir? - Eu...estou confusa! Conheço-te? Quem és? Ele chorou e logo virou o rosto. Mas não foi a tempo, ela vira e chorou também, uma lágrima soltou-se, uma ligeira aflição, e de novo só o presente, as palavras soltas, tudo...

O EnCanto

Quando ele canta, desfia a música em enredos de harmonia; a voz ocupa espaços táteis, por explorar! Fala do mel e de aromas quentes, betacarotenos e notas amadeiradas sul-americanas. O  crispy   finaliza-lhe a composição: a textura da nata que se derrete pela língua ávida afora.  [...Ai a vida cheia de químicos de neurotransmissão e o cantor a explorá-los num trilho sagrado, com desvelo...]  Quase inerte, pausa o canto numa aguarela de águas verdes cristalinas - praias paradisíacas das Maldivas -, e logo abusa da serpentina viscosa da voz; do borboleteio das tónicas; do suspense fatal dos sussurros.. Insolente, vira as costas, quando iria irromper o espasmo do encanto que provoca.  «Canta para mim as flores e as cascatas do Taiti, as suas águas lisas e opalinas, etéreo e vestalino ser!» Acordo do transe: batuca o coração descompassado já em primeiro plano; a voz dele forra de seda e veludo o cenário, enchendo totais sem borda. Agora oiço-lhe um bis repetitivo se...

A Senhora do Ministério

O grupo era já antigo, com mais ou menos um ou outro e juntava-se para passeatas animadas que corriam muito bem. Daquela vez, porque estavam em férias e eram quase todos da Educação, resolveram ir à feira medieval, onde combinariam a semana no Algarve. Iam só umas tantas meninas. A senhora do ministério iniciou o percurso da feira dentro da barraca de uma cartomante, deixando o resto do grupo à espera. Todas animadas, e bem vividas, aguardaram alegremente. A senhora do ministério foi a todas as outras ofertas de adivinhação e não se sabe qual delas a avisou que algo não iria correr bem na próxima viagem ou passeio. Claro que era estranho começar assim a planear uma viagem, mas todas, de bom humor, não ligaram à premonição.  Chegado o dia, uma delas avisou que só poderia ir no dia seguinte. Partiram então sem ela, sem problema algum! A senhora dos mistérios conjecturou que talvez, fosse àquilo, que a senhora das cartas se referira. A menina que chegou um dia depois, fez tão boa viag...

Uma tarde de outono

O outono trouxe dias indecisos, mas hoje o céu azulou. Estive a compor o meu último livro e, inevitavelmente, reentraste na minha vida como um fantasma. Vejo-te a ires de Alvalade a Algés. Um Algés álgico com muitas memórias para ti e para mim. Nenhumas nossas! Mas vejo-te no teu carro, a partir do teu próprio olhar, do teu pensamento, de alguma moleza e apaziguamento enquanto deslizas a velocidade baixa pela marginal. A torre de vigia inclinada sobre o Tejo atrai o teu olhar, é quase um vulto - e pensas que has de vir com ela ao Siesta ali perto. O sol a derramar-se em laranjas e dourados e tu em paz, seguro agora de que ela te quer, tanto que te está quase a convencer a casar. Logo tu, que te sabe tão bem a solidão, daquela voluntária, que é só carregar no botão, ou no ecrã do telemóvel e marcar um encontro, e o sexo decorre! Estás feliz, agora, sem te preocupares em mudar a situação. Talvez lhe digas que sim, já que tanto insiste.  Lembro bem de como é conduzir pela marginal ao ...

Deuses ou Darwin e Ele.

Os favos das abelhas foram criados por deuses ou por misteriosos seguidores de Darwin. Não por Ele! Já as casas da Encosta e as favelas, são garatujas a lápis de crianças geradas em impulsos grávidos. Por Ele?! As torres das cidades são menires arquitetados por fetos adiados em barrigas lisas, germinadas por carros de linhas aerodinâmicas. Por Ele, certamente! A diferença entre os três aglomerados está nos tempos de maturação da líbido. Em reviravolta, o Mundo tem torres, favelas e encostas em abundância e abelhas em extermínio - são desordens ecológicas, frutos precipitados de urgência e vaidade; futuros breves garatujados por arquitetos apreciadores de  lotaria. Despenham-se de qualquer modo todos os modos juntos em futuros incertos nas mãos de deuses ou Darwin. Ele também! (Ele - Homo Deus, a caminho do pós-humano, do superhomem)  

Registos de vida.

A minha vida está quase toda por escrito. Quando acabar de escrevê-la, fico limpa. Reservadas as memórias entre os folhos das páginas e as diatribes do scroll, talvez estime alguns escolhos mais rudes com ampulhetas psicométricas, ou ampare os excessos de pele com andaimes terapêuticos. [Daqueles ainda não submetidos a prova, livres de controlo apertado, espectrais] Após esse trabalho estarei purificada sem participar em rodas na serra da lua ou do sol, com marcas celtas, mandalas e pedras benzidas por rezas new age com hidromel. A laca que vou pôr em tudo, emprestará uma eternidade razoável em termos de autoestima familiar e não vai ficar ninguém para recordar, melhor, não ficará memória sólida em gente humana; já não direi o mesmo das catacumbas das bases de dados digitais e seus algoritmos a funcionar: é possível que restem de mim, alguns avatares, em subducção. 

Houellebecq - Insubmissão

[Conversa imaginária com o personagem principal do livro Submissão, de Michel Houellebecq, após o final da história narrada] Que miséria de produção científica senhor professor, hem?! Em cada início de ano cativava uma aluna! Em cada início de ano, a sua fama, levava a que algumas alunas se perfilassem para isso - demasiado fácil! E nas férias, elas assumiam com outros as coisas sérias. Porque o senhor professor era um homem vazio, obcecado por performance sexual, que não se sabia divertir, monocórdico e desinteressante - depois de dissecada a sua tese, que mais ficava?! Um corpo dormente, meio flácido, sem reação, sacando argolas de fumo deitado na cama, a usufruir do desnível de poder com a mão sobre a coxa jovem. E além disso, sem namoro, sem passeios ou bons restaurantes, ou lhes apresentar a família...  Nem conhece o seu país! Enfronhado na Academia - muito me rio só de imaginar!... - com as duas pequenas muçulmanas no lar, vai esgotar a pica, a energia vital que tinha, reativ...

Trechos de vida 2

 Já ia nos trinta e muitos, quando se apercebeu de um trauma fundamental: a morte da criação, nome dado aos animais domésticos. A frieza com que se criava e se matava em grande sofrimento, o animal, sem qualquer empatia, destruíram a sua confiança na humanidade, pois se nem os que estão próximos se comovem?! E não a poupavam, apesar de ela não ser uma criança criada na aldeia e estar desprotegida, ou por algum motivo ser mais sensível. Quando se sentia em perigo, mesmo que simbólico, era assolada pelo sentimento que captara dos animais a serem assassinados, os seus gritos, o jorrar do sangue, a alegria dos matadores, a transformação do ser em carne, as refeições em que participou, na altura sem sentir repulsa - observava aturdida. Foi mais tarde que tudo se compôs na sua mente, aí pela adolescência, altura em que já não assistia a tais atos. Mas foi nesse tempo que os medos fóbicos a subjugaram e começaram a mandar na sua vida, escolhendo por ela. Mas o pior foi ter perdido a confi...

Trechos de Vida 1

 "Vou-me sentar ao pé do meu marido" - disse a mãe, levantando-se do sofá, do lado dela, para se encostar ao marido, no outro sofá, a 45 graus daquele onde se encontrava. Marta ficou com a saliva bloqueada na garganta, a sentir-se miserável. "Quem não tem o amor dos pais, não tem de mais ninguém", era o que a voz do íntimo lhe dizia obsessivamente desde pequena. Estava tão carente. A precisar de uma carícia física ou verbal... Não seria de esperar que a mãe lha fizesse, não tinha uma única memória inteira de um carinho ou toque dela, que não sentisse a dureza da aliança na face, em bofetada. Nem ao menos uma conversa corrente, a ouvir a voz mais doce do mundo, que é a da mãe. Marta sentia-se muito confusa, mas não conseguia deixar de sentir o amor pela mãe e curiosamente, também sentir o dela, embora... Talvez em fragmentos vagos de um peito a amamentá-la, algumas frases "não façam sofrer a miúda" quando os cães rosnavam, não propriamente os cães, mas o pa...

A Encosta - Resiliência.

[Anapaula, a mãe quer-te contar uma coisa: vamos mudar para a Encosta outra vez e temos que arrumar os nossos pertences.] Não, a mãe de Anapaula, Briona, não fala assim como os professores. Ela faltava à escola quando era pequena, ficou com o quinto ano. Não gostava dos colegas, não a integravam, gozavam com a roupa de feira e diziam que cheirava mal. Não fala assim, mas ninguém pode falar por ela sem distorção, que seja então esta a seu favor. Briona vivia em casas da Câmara, em casebres ou em barracas. Às vezes levavam-na a visitar a mãe que estava presa e o pai que estava preso, mas poucas eram essas vezes, porque tinha muito trabalho a tomar conta dos cinco irmãos. Briona ia buscar água com uns garrafões e poucas vezes ia ao banho. Era difícil. Aquecer água nas panelas. Mandar os irmãos para a rua. Vedar as frestas para que não espreitassem, ou os outros miúdos da vizinhança. As baratas. Os ratos. Os piolhos. Tudo tão difícil! E conheceu o Clóvis que tinha hábitos de consumir droga...

Histórias da profissão - A Área de Social.

No terceiro ano tínhamos a Cadeira de Psicologia Social. O professor Pina Prata gostava de falar do triângulo relacional e da importância da cadeira vazia...enfim, da sistémica. Os seus assistentes, o Luís Miguel e o Zé Manel, acabados de licenciar, eram muito animados. Debitavam investigação, aquelas experiências famosas da psicologia social. Saltavam para cima das mesas, empolgados! A matéria ficou bastante no ar e nós agitados, um pouco sem parâmetros. O colega Rui, da Madeira, gostava bastante do triângulo do Pina Prata, parece que ainda o vejo a comentá-lo! Várias meninas se entusiasmaram com o congresso internacional de terapia familiar sistémica, a Paula, a Isabel e outras e aceitaram participar como recepcionistas e outras funções na organização do evento. Aproveitaram para comprar vestidos e se aperaltar. Muita vaidade por ali ia e eu pensei que aquela Psicologia Social não era para mim! Enganei-me! Sempre foi uma área que me interessou e foi por ela que me entusiasmei pela es...

Histórias da profissão - psicanálise vs psicolinguística.

No segundo ano deveríamos optar pela cadeira de Psicanálise ou pela de Psicolinguística. A maioria dos alunos escolheu a primeira. Sei que fui assistir a uma aula de um professor de Psicanálise, muito corado, que ria e dizia coisas estranhíssimas. Era uma aula teatral. Ou seria circense?! Eu era uma miúda séria na altura e virei-me para a Psicolinguística. O professor era competente e muito educado. O grupo de alunos muito pequeno: reuniamo-nos à volta de uma mesa no laboratório de psicologia. O professor discorria. Havia muita informação técnica, física sobre o som. Ficávamos ensonados naquelas três horas. À minha frente, o Pedro Ayres de Magalhães dos Madredeus, talvez também o Paulo Landeiro e mais três ou quatro colegas de quem não me lembro. Todos em grande esforço de não deixar mal o professor. A matéria era interessante, mas ... Foi útil, alguma dela, a restante perdeu-se na memória. Era uma cadeira pesadota, entre o fim da tarde e a noite, a fome a apertar para o jantar....No a...

O Verdadeiro Significado de Empresa Familiar

Gorgi é alcunha, Lott é apelido, ela anda por aí! De novo à beira de algo comprometedor! A cobertura na empresa de vinhos é-lhe útil para fazer contactos com bons partidos, viajar e não ter grande concorrência. João Lopo, do Alentejo, tinha-se divorciado, focava a sua atenção no trabalho de gestão vinícola e ela era uma negociante. Simpática, prometia sucessos, apresentava resultados - uma linguagem de gestão orientada para os mercados internacionais - sabedora de detalhes técnicos, abria-lhe a garrafa exibindo tudo o que a promovesse, o peito roliço e harmonioso na camisola discreta na cor, o traseiro ondulante semi escondido nas calças quase básicas, a perna cheia, adivinhada, enquanto em paralelo lhe lançava desafios de práxis muito masculina e o distraia a entrar e a sair de um registo para o outro, desprotegendo-o face à sua eficácia felina! E acabava onde ela queria, e depois ia introduzindo temas conservadores a apontar para casamento e ele aderia ou não! Não aderiu! Às vezes, c...