Mensagens

O Centro Comercial de Alvalade

O Centro Comercial de Alvalade nasceu em 76, lembra-me o Google; o resto vem mesmo inteirinho do rabiar da memória. O maior destaque vai para o aroma que nos recebia, quer entrássemos pela porta principal, quer pelo túnel do metro: indescritível, irrepetível! Na cafetaria, disposta ao comprido do corredor, havia babás de rum a piscar-me o olho, e eu, pois sim! Já que estava mesmo no paraíso, lambuzava-me! Depois, fazia o percurso do corredor principal vendo os retratos a carvão, uns livros expostos, marroquinaria e outras distrações visuais, puros cenários sem figuras de grande relevo; virava à esquina e metia-me no beco onde me aguardavam as águas cristalinas das Caraíbas ou da Ilha da Páscoa, ou de outros paraísos!... Pequenos e delicados tesouros brilhavam na luz dos foco de halogéneo, num fundo de escuridão da montra da joalharia. Os tetos ofereciam uma música  jazzística e, de entre todos os mergulhos disponíveis, eu apontava os olhares do coração à pedra de água-marinha, que ...

A Criança do Homem

A Criança é uma centelha, a potência do Homem Novo. Educá-la não tem importância realmente: vê-nos intervir na sociedade? Os filmes, os jogos digitais, a violência - incomoda-nos?! Espalhamos valores pelo Mundo?! Ah! Pois não! Apenas a Escola e o poder político a ela associado, nos importa! Os resultados estão praticamente garantidos. A nossa Web está bem espalhada pelos órgãos do poder! Temos influenciadores eficazes! O recrutamento de praticantes de primeira linha é feito entre os professores, os professores de professores... É por isso que não fluímos ao sabor da ciência capitalista. Não nos é superior: fazemos-lhe frente; utilizamo-la quando conveniente; deixamo-la passar por entre estudos, rankings e PISAdelas, porque realmente não nos tocam - já pensaram porque nos deixam incólumes, apesar da aparente oposição: somos autores na grande hecatombe que eles avaliam, e, no entanto?!..  Não é do nosso interesse defraudar rituais de base que ensinamos aos nossos da primeira linha, c...

Rapto

Estava a ver uma foto do Mário no passeio ribeirinho, quando senti um baque na cabeça e perdi os sentidos. Quanto tempo depois - não sei -, encontrava-me no leito do Tejo, rodeada por amuradas, Lisboa em exposição, dourada ao sol, e eu sozinha naquele iate enorme. Chegou entretanto um sujeito alto e muito moreno, diria que angolano, e sentou-se na mesa pequena e convidou-me ao mesmo. Obedeci sem dizer palavra, muda de espanto. Apresentou-se: "Senhor knock", foi o que me pareceu ouvir. Desejava-me uma boa estada, com tudo ao dispor, de alimentação, cuidados de enfermagem, piscina e ginásio, massagem e muito mais. A troco esperava que lhe desse opinião sobre uns quantos assuntos de políticas públicas. "Política", balbuciei a medo! Sim, iria ouvir uns tantos forsighters e eu seria um deles. Não ousei pedir explicações. Mergulhei o olhar na piscina central que começava a iluminar-se por dentro e estendi-o depois aos pormenores de luxo a que só agora me permitia aceder. ...

Aventura

As duas amigas gostam de acampar uma vez por ano. No grupo delas poucos se entusiasmam com isso, portanto costumam ir sozinhas.  Naquele ano tinham combinado ir dar uma volta por Sanabria, assentar em Los Robles, e fazer a viagem por etapas desde Lisboa.  Encontraram-se em Vila do Conde na casa da tia de uma delas. Era uma quinta senhorial de uma burguesia outrora poderosa, mas agora decadente. A tia era uma figura digna de um livro. Na extensa mesa retangular, a família e as atuais visitas almoçavam e faziam uma conversa, por certo, habitual. "Os caseiros eram quem agora mandava na quinta", dizia a senhora: "tinham-se apoderado" em troca de serviços e produtos agrícolas, aproveitando a falta de vontade de trabalhar generalizada; eram donos da casinha em frente e compravam cada vez mais terreno à tia, regalias e poder negocial. Ela, que podia fazer? A idade avançava, uma filha era doente, e a outra, adotiva - tomara ela ser ajudada.  O garfo de prata antigo furava o...

O Relógio de Sala

Era um senhor, o relógio de sala herdado. Posava cheio de dignidade dentro do seu nicho de madeira muito patinada! Ao abrir a portinhola: "cuidado para que não se quebre o vidro" -  parecia arrepiar-se a sua voz rangente. Mas eu só ia fazer-lhe cócegas na intimidade das rodas dentadas e procurar a chave da sua vida de corda. Havia um buraco para o tlão e outro buraco para o tempo. Ele ria-se da minha atrapalhação: confesso não saber bem o que a chave faz acionar. Assim desnudado, via-lhe a pele do mostrador de papel com ligeiras imperfeições, os dois ponteiros autoritários e a roda dos números pasmados, cansados da observação. "Agora é uma; agora são duas", ensinara-me a ver o tempo quando eu era pequena. "Tlão-tlão" disse incansável a cada hora da minha vida e de todos da família; conseguiu compensar com primor as horas em correria com as interminavelmente lentas: o balanço deu sempre certo, sem sobras ou défices. Ah e aquele enervante rigor de tic-tac, e...

Os balões

As crianças subiam, cada uma em seu balão de hidrogénio; tal como elas, eram coloridos. Umas mais alto ou depressa do que outras e ela lá no meio, plo meio. Olhou para baixo e um cabrito, mais um vitelo, uma ovelha, um gato, olhavam pedintes. Eram os animais já mortos, alguns comidos nas festas recentes; outros, pobre errantes, sem lar humano. Para eles não havia balão de sobra. Percebeu que estava mais próximo desses animais do que de muitas crianças que via subir céu afora. Mas tinha cores. Os animais eram a preto e branco e o pêlo parecia de algodão, apetecível. Lançou a mão para baixo e cambaleou um pouco no ar, os bichinhos deram saltos, mas não se chegaram a tocar. O balão subiu um pouco, depois mais; a menina viu um ponto no monte: a casa da família, o traçado das quintas e terras agrícolas e desistiu de procurar manter os amigos animais sob a vista. O ar era puro e um pouco fresco demais; os balões começaram a soprar ar quente na direção das crianças; várias passaram por ela, o...

Zimba

- Que frio, Zimba! - diz ela. - Protege-te aqui debaixo - cuida ele. Ao bafo da tarde segue-se uma surpresa gélida no ar. Chuvisca. Os dois, sob o espesso sobretudo, saem da casinha coberta com hera. Dão uma corrida. - Amanhã... - hesita ela. - Sim querida, amanhã vou-te levar a Lisboa. - Mas, não é cansativo para ti?! E além disso tens os compradores a visitar a casa. - Mudei a data. Não te preocupes. Não se preocupava! Os seios arfavam. Já dentro do carro, ela chorava em silêncio; os pingos de chuva a modelar-lhe o rosto. Ele a conduzir; o olhar focado na estrada. Ela revezava-o no regresso. Nas suas mãos, o Ford seguia a estrada ondulante como um zombie.  A comida soubera-lhe mal, um sabor a metal na língua concorrera com a caldeirada de peixe do rio. Regressados a casa, subiram para o quarto, que se mantinha sem porta ou parede, no andar de cima. A pintura amadora das paredes, feita pelo homem, era naif talvez, com espirais de desenhos populares, e a decoração incluía xailes so...

Miss Mena

A turma do décimo tinha aquela composição: grupinhos, parzinhos, uma certa competição pela nota; uns da Avenida de Roma, outros nem tanto. A Mena tinha penteado à Malvina da telenovela brasileira, embora a franja se franzisse depois de esquecer o alisador. Não tanto quanto as saias rodadas de tecidos florais, num estilo um pouco fora de moda, mas a mãe era costureira. Ninguém se importava com a roupa da Mena, que tinha uma expressão de rosto delicada assente num corpo de mulher - não dera por crescer! Debatia-se sem grande sucesso para arranjar melhores notas - ficava pelo rés-vés; tinha um namorado também alto, um pouco mais velho, que a vinha esperar ao portão, mas de quem fazia mistério.  Um dia, correu um rumor que, ainda na fase imperceptível, zuniu e varou veloz como uma rajada de vento, fustigando a turma em movimentos de seara: "qualquer coisa, vejam, que estranho" - e mais comentários que de novo se fundiam e texturizavam em zumzuns. Finalmente veio-me parar às mãos ...

Clarisse e as Formigas

Clarisse não tinha ficado estampada entre as folhas do livro da primária, a contar formigas. Saira dele pela calada, vindo apreciar o labor das abelhas e aprender sobre os movimentos precisos que lhes permitiam conversar à sua maneira. Às vezes, de papo para o ar, numa clareira, vigiava os bandos de pássaros e os de patos; imaginava outras tantas ligações a constelar na floresta, nos céus e mares, entre os animais, as gentes e suas cidades. E no futuro, quando isso se soubesse?! Clarisse sentia um impulso para a revelação, mas a ninguém conseguia contar. Às vezes tentava - o quê Clarisse?!, a mim é que...; e não voltariam ao tema. - Clarisse, não me interrompas, deixa-me acabar. Acabar por dar uma desculpa para não ouvir no tempo ditatorialmente destinado à fala de Clarisse. Não havia tempo, oportunidade, vontade de alguém enxamear com Clarisse. Logo ela que tinha umas ideias sobre isso de dançar, fazer bando, pandã, e contagiar tudo! Tingir! Texturizar! E até à distância: Wallace e Da...

Madressilva

As copas dos pinheiros mansos recortam ondas no céu pálido, ao anoitecer. Contêm, num manto espesso, todo o palrear dos últimos pássaros. Os ninhos estão prontos. A gata da rua clama por vida nova. Tudo se apronta e eu lanço o fio do olhar à madressilva. Procuro, fixando a vista, os recantos onde escondia saquinhos de dor. Em tempos, salpiquei a planta com miradas sofridas por dó de mim. Ainda não a limpei. Ainda lá poisa a memória e reencontro os alçapões. Porém, o olhar já se distende pelo ondular dos pinheiros, acompanha a imensidão da noite que se acomoda nas copas, mansas e idosas, donas da contenda do dia, plenas de presente e prenhes de primavera. Tanto! E eu deixo para outro dia o trabalho de desempacotar as dores antigas. Aspiro o aroma forte da madressilva. Suspiro. Aguardo. A noite deita-se no pinhal. Já não ouço os pássaros, nem a gata. Agora, um mocho ao longe; o repuxar do travão de mão. Deixo-me estar! Ou ir! Uma azáfama, quase imperceptível, por certo de contentamento f...

O quinto filho

Depois de quatro filhos e alguns enteados a Né vem completar o quadro com o seu quinto assumido. De ambos os lados - leia-se, dele e dela -, há uma harmonia perfeita de objetivos. Nunca escolheriam alguém fora do leque: sem estatuto ou dinheiro. Ela tinha que ser bonita e alegre, claro!; ele, sem barriga. Entretanto, o homem é picuinhas e ela é menos "bem" do que se faz parecer e mais aflita com as contas. Mas é empresária de sucesso, se não hoje, no passado. E isso chega! Né não tem demasiado tempo para dedicar a Afonso, o que é ótimo, para não dar sufoco! Os outros filhos servem de entretém e já quase não dependem dela, mas lá lhe vão ocupando o tempo! Filho é parasita, mesmo! E há a querrucha, mais tardia, mas de boa lavra, que garante vivacidade familiar e a ligação a uma importante fonte de rendimento: o seu pai!  Afonso é sério, quase sisudo, porém acha-se muito fino de humor e de outras coisas; é introvertido e amante de literatura. Escreveria bem, se escrevesse alguma...

Ai que dor! O Duarte

Podia ser o título de uma série. Um psicólogo escolar guarda memórias arrepiantes dos alunos que conheceu! Deviam ser contadas, desmontando e recombinando, ficando anónimas e perdidas no tempo... O Duarte, nome inventado agora, tinha apenas 15 anos. Ficava alterado nas aulas, em turbilhão emocional; às vezes fugia da escola, saltando a vedação e fazia longos quilómetros a caminhar. Uma vez contorcia-se de dores no peito e chorava. Muitas vezes chorava, mas daquela agarrava-se a si mesmo, na zona do coração, tremia e dava ais. Ficou na maca um tempo, em sala própria, e a psicóloga com ele, fê-lo falar e tentou o relaxamento. O rapaz contou-lhe os flashes que tinha da sua cadela a ser morta à facada pelo padrasto, que era talhante. Imaginam?! Tomava o cocktail de medicamentos psiquiátricos, tinha a CPCJ, vinha de outra escola, não aguentava estar dentro de uma sala de aula. Mal sabia ler! A mãe, mulher de aspeto muito estragado, vinha sempre que solicitada. Parecia ter debilidade intelec...

Pela Avenida das Forças Armadas

Hoje penso por aqui na Avenida das Forças Armadas. Alguma saudade, talvez do vigor de subir energicamente este local por onde tanto passei, convivi - enfim, vivi! Não tenho grande memória para detalhes, surgem-me flashes. Muitos. Desde o café A Pátria, com a sua jukebox, o restaurante chinês mais abaixo - quantas vezes o frequentei?! Por quase todas as mesas passei! - até à geladaria - onde fui poucas vezes, creio que não esteve lá muito tempo. Cá em baixo, a Feira Popular, frequentada desde a meninice e depois por várias fases na vida, incluindo o almocinho de frango, ouvir os pregões atrativos dos empregados dos restaurantes e ainda dar uma voltinha pela bruxa, o comboio-fantasma, o poço da morte, ver as rodas e jurar não as experimentar, encontrar alunos do centro de formação, lembrar a birra do irmão quando era pequenino - uma vida, ali! Cá fora, na esquina - será com a 5 de Outubro?- onde eu ia ao telefone preto, com o contador de períodos, acertar encontros, ou afinar vendas - si...

Nádia

A Nádia era um junquinho, dobrava-se facilmente à menor brisa, e, no entanto, não quebrava! As desavenças com a mãe já tinham barbas, acusavam-se mutuamente na esquadra da polícia - era um estilo de vida. Interpelada, a mãe repetia acusações ao ex-marido, que agora vivia bem: casara de novo e tivera filhos. Outros filhos. De vez em quando vinha buscar as duas que tinha com ela, que tudo fazia para lhes dificultar a ida. E, realmente, a Nádia detestava o pai, por nada mais do que por ter "deixado" a mãe. A mais nova não vestia camisolas ou tomava partido e assim lá andava feliz. Já a Nádia parecia o tal junquinho, frágil, fácil de dobrar, teimosa - vestia a pele da mãe despeitada. A mulher trajava de negro como uma viúva, sem estilo, apenas se encobria, se dissimulava a inveja, o despeito ou o desejo. Era a perfeita vítima e aí estava a prova: a filha infeliz e difícil. Para seu horror, a Nádia também a detestava a ela. Mas um dia mãe e filha fizeram as pazes. Passeavam, tinha...

O ovo de Clarice

Voltei à Clarice. Tinha-a deixado para trás enrolada em angústias: eu e ela. Desde que a vi num vídeo que me começou a ler os seus contos, com a voz arrastada, sopinha de massa, ar de mimo e aquele jeito de desenhar olhos, exótico, e a boca a derramar realidade, como sangue numa ferida recente. Tudo nela encanta e dói!  Então ela me tem contado os seus contos antes de eu adormecer. Hoje dei-lhe uma hora do dia. Ele já vai alto, os pássaros devem ter cantado, os ramos adormeceram ao sol, sem bulício e eu, ouvi apenas a Clarice contar-me O Ovo e a Galinha. Por vezes, pedi em súplica: "pare aí garota, me deixe pensar" - e usava o tempo para me sentir metafísica - e eu nem sei o que isso seja -, mas era um imperativo de transcendência que me acometia. Clarice não comentava. Retomava, tranquila, a sua leitura, ou o seu contar do ovo, quando eu me dispunha a ouvi-la! Vi Moisés, de Frida Khalo! Ouvi uma filosofia meio-espírita, que talvez conste em algum evangelho não corrompido jun...

O Miguel e a Dislexia

O moço tinha um sorriso cativante, olhos como faróis azuis em moldura loira. Bonito e confiante como um vendedor de casas. Chamara-o por motivo inespecífico: "havia de ter qualquer coisa, pois não aprendia". Conversámos animadamente e pedi para ler. O Miguel tentou-o, a chorar. Foi um choque! A tia era quem o criava e contou o problema no nascimento e que uma psicóloga já dissera que tinha dislexia.  Não sei se era da linha cognitiva-comportamental prevalente, mas no meu curso desvalorizavam-se estes "diagnósticos" e acrescentava-se com ironia: "agora todos têm dislexia"! Atirei-me aos livros. Foi muito árduo explicar aos professores as necessidades do aluno; eles protestavam que aquele aluno não podia estar naquela escola. Estávamos no início dos anos noventa. Cheguei a ter comigo um membro do Conselho Executivo e lá se fizeram adaptações. Dali em diante, fiz uma jura: "iria ser expert em dislexia" e assim tentei, fazendo várias formações e apre...

O Enxoval

Quando quero referir-me a um rol de coisas, geralmente inútil, designo-o por enxoval. Quando era pequena, havia essa estranha coisa do enxoval! Via as mães pôr numa arca: naperons, lençóis, e outros panos. Ofereciam às garotas, desde pequenas, tecidos bordados, aprimorados, úteis, para um futuro em que seriam mulheres casadas. Eu quase não tinha nada. Mal me apercebi da congeminaçao para nos formatar, resmunguei e deliberei que não queria enxoval. Tomei-o por violência contra a autodeterminação do meu futuro, mas não pude impedir todas as ofertas. E assim, um paninho de tabuleiro da avó amorosa, ainda vive na minha casa - vi-a comprá-lo e não percebi ao que se referia; foi a primeira oferenda. Mais tarde, tive que perdoar a avó por não vislumbrar a minha emancipação. Às vezes, as mães abriam as suas próprias malas de enxoval, onde residiam lençóis, atoalhados e rendas inúteis, que pareciam guardar o futuro passado. Sonhos. Não os "metiam a uso", por pena, diziam, mas era mais...

Sem título - porque me esqueci!

Uns anos depois já não te vejo nos sonhos, nem viajo contigo no tempo. Lembras-te de nós em Alexandria? Em Paris? Em Lisboa, no final do século XIX, ou no Aglomerado de Núncio, na Era da Espiral?  Nem sombra já fazes; não me ocupas espaço, ouves, lês, tocas, influencias; não jogas comigo, trauteias ideias, estimulas oxitocina, nem eu a ti. Não, não sei se ainda respiras... Nem se eu estou realmente viva... Que não és um nada, também é verdade! Serás um rasto de um esquecimento em avançado estado de decomposição. Nem um bafo se sente! Nenhuma emoção! Nem a ausência é presente. Que estado fátuo te atingiu: uma não-existência; uma voz extinta, difícil de acreditar que viveu. Não tinhas perfume?! Não rias?! Ou rias?! Era quente a tua voz?! Ou fria?! Falavas ou apenas te repetias para a tua audiência interior e me deixavas assistir, bater palmas efusivas e adorar-te?! A tua história era tua, ou uma história contada para pareceres ser o que não foste, és, ou serás? Os teus amigos são-no ...

Memórias

Hoje chove a cântaros. Lembro o som da água a cantar nos gargalos, a sair ou a entrar nos cântaros de barro que guardavam água fresca no loiceiro da aldeia, abaulado para se poderem virar os pesados e bojudos recipientes, facilitando a saída da água para os copos de talha bastante formatada. A água sabia a hortelã. Talvez não a hortelã, mas a algo verde e fresco. Sabia a quê? À infância. Íamos buscá-la à fonte, a alguma distância e com esforço. A água. A infância. Combinávamos a composição do grupo e a hora. Metíamo-nos pelo atalho que passava pela bagaceira. O cheiro forte, o monte de entulho negro à porta. Quem lá estaria dentro e o que faria? Era para mim como uma central nuclear, com especialistas obscuros dentro, em equipamentos incompreensíveis, suor e labor alienados; ainda por cima, homens: estranhos seres de que conhecia poucos exemplares e mal. Mas o caminho era trilhado a bom ritmo, sem tempo para apreciação de paisagens. Apenas me refiro a elas porque se me instalaram na me...

Um sonho prévio à guerra

Só para recordar, registo o que lembro. Na primeira parte, quase nada recordo, senão estar a conduzir por estradas confusas e a negociar caminhos com alguém. O que importa é que, ao recordar, me vieram à memória pedaços de outros sonhos, em viagens e lugares pormenorizados. Adiante, o que me incomodou foi a segunda parte do sonho! Chegámos à casa da Cris, que é no Douro: uma casa grande, porém sem a glória que eu imaginava. Passei de carro por ela e fiquei nos momentos seguintes, a recordá-la, mesmo dentro do sonho. Tinha uma pintura arenosa e irregular de um amarelo pálido, um telhado de telha canudo, rósea, um logradouro, e mantinha uma janela aberta, onde por entre as cortinas a esvoaçar, se escancaravam uma dúzia de fotos do filho de Cris, com deficiência, sorrindo. A cortina estava arredada para que bem se visse o melhor da casa: o filho! Sei que a casa tem piscina, mas depois de chegarmos, acoitámo-nos no primeiro piso, amedrontados, e que não foi possível sair, pois a ação que s...

A Catequese

Ia à catequese, porque sim. Iamos todos. A Cila foi a minha primeira catequista. Era adolescente. Ensinava orações. Quando decorei o Pai Nosso, embora andasse embrulhada com o conteúdo, ganhei um santinho. Fiquei orgulhosa e o meu sentir valorizou o santinho. Comecei a ver-lhe cores bonitas. Cores que raramente via, de pintura religiosa renascentista, provavelmente. Uns castanhos avermelhados, penso recordar. Uma grande nitidez. Um homem de outros tempos, com outros trajes. O rebordo era recortado, o que também era importante. Era uma estampa retangular que mostrei em casa e perguntei o que fazer com ela. Punha no livro de missa. Deveria ter um, mas não me lembro. Já do véu, sim. Era beije, de tule bordado, com rebordos reforçados e ligeiramente curvos. Era novidade estar com a cabeça num véu. Não sabia o que sentir. Mas diziam que tinha de ser, recordando uma série de castigos e penalizações divinas, mas exercidas na terra - isso e se mastigasse a óstia. Esta, mal a provei, duas ou tr...

O Seu Lado Solar

A brisa flui, doce, pontualmente urgida por pequenas rajadas que logo esmorecem no traquitar dos ramos da vegetação farta, mas tranquila, quase de jardim, lá fora. A casa volta a ficar iluminada pela luz indireta do pequeno morro cor de terra em frente à janela e das poucas nuvens de passagem lenta, mas determinada, ...e tudo lhe reenvia a luz daquele sol nostálgico que antecipa a primavera. Os amarelos e vermelhos pálidos-aguados da luminosidade encaixam perfeitamente na memória da casa do amigo. Estava a vê-lo de nariz empinado na direção do sol, a dizer-se feliz por estar ali de nariz empinado para o sol - tão só isso! Era feliz! Ela fixava-lhe o perfil, e sem querer apreciava o seu estômago dilatado, em bola - também este lhe parecia em regozijo e empinado. Nada afetava o amigo! Endurecera na política desde a faculdade e há menos de uma dezena de anos que a abandonara, de pútrida, a definhar... "Quanto contribuira para esse mau desfecho?", era conversa que não sabia fazer...

Adeus às coisas

As coisas sobrevivem-nos. Esta é uma ideia chocante! A "minha vida" em contagem decrescente, em convívio com obsoletos objetos, móveis, lápis, a casa, a roupa - tanta coisa que teima em ficar depois de mim! De mim! Eu, que escolhi, trabalhei e adquiri cada uma delas! Eu que as desprezo e relativizo o seu valor: apenas coisas! Elas, em vez de mim, podem ficar! Sinto uma náusea. A descoberta do valor temporal das coisas e de mim, sujeito, choca-me! Não consigo inventar ou esventrar uma ficção que solucione, ou ao menos alivie, esta sensação de iminente perda total! É incrível! É inacreditável e todos os seus sinónimos. Fico perplexa com um lápis que não se gastou nas últimas décadas. Há muitos mais! Há muitas coisas que duram, perduram. Outras expulsei, doei, eliminei - até essas me visitam a memória. Como livrar-me do passado que me ultrapassa no futuro, que durará, que será menos punido pelo tempo?! Consumo muito café: acelera-me o metabolismo. Penso muito! Canso-me! Amo! Tan...

Um sonho em tempos de guerra

O homem era alto e vistoso e muito interessado em  iniciar a relação com Helena. Tinha, no entanto, que levar a família de barco, numa espécie de procissão, para fora do país, até passarem a fronteira, remando contra a maré. Aconteceu que, ao chegarem perto da fronteira, - que era uma queda de água artificial, em que a água corria ao contrário da direção lenta dos barcos -, uma barreira de fogo surgiu repentinamente ao longo da linha superior da barragem e, depois, contaminou todo o declive onde a água escorria, até ao limite inferior, junto à superfície. Voltou a subir, essa barreira de fogo, de modo maquinal até ao ponto superior da barragem. A família - mãe e pelo menos uma criança -, foi corajosa, apesar do susto; já o homem, desmaiou e, de futuro, fazia-o sempre que contava ou se falava do acontecido.  Regressou, veio ter com Helena. Enquanto o aguardava, a namorada do homem belo, pensava que não sabia o que lhe oferecer, como se fosse o aniversário dele. Estava em duas p...

Au Martinique

Porcy teve um pesadelo em que lhe roubavam o gato após o namorado insinuar a viagem à ilha francesa. A prima fora lestra a atrai-lo pelo lado hedonista. Iria pelo prazer de ir. De resto...era o resto, o que menos importava! A prima era o veículo do prazer da viagem! Porcy veria o seu gato ir, de prima! Cinquenta por cento da percepção de felicidade é genética, os outros cinquenta distribuem-se por fatores do contexto e da personalidade, alguns ligeiramente mutáveis. Então será sobre esses que ela tem de exercer o seu foco libertador. É que não merece a dor, a dor da perda do vínculo primário, a dor dos jograis e dos cátaros, a dor de corno andaluz, a dor das canções e dos poemas a sangrar, nem a dor - muito menos essa - dos obsessivos assassinos! Ah! Não! Há que treinar a dialética (de si para si) do pensamento racional, encorpar a dor em narrativas e imagéticas de expulsão, falar com cadeiras vazias  como Perls, amolecer os excessos em respirações diafragmáticas, mente plena, ment...

Palhavã

Palhavã era um nome que estava alojado na minha memória com umas pernas altas em pijama hospitalar e um rosto que pouco conhecia, mas que era dO Amigo do meu pai. Uma amizade que se estendia entre as mães de ambos e havia visitas e cartas entre elas, o que era muito estranho, conhecendo o meu lado paterno. E depois disseram-me que morrera e eu nem entendia bem a morte, muito menos a de um amigo com letra grande. E assim guardei na memória o assunto, para compreender mais tarde. Naquele dia, ela marcou encontro comigo à saída do hospital de Palhavã. Apareceu no anoraque amarelo que eu lhe dera, o cabelo também amarelado, o que me chocou, e um sorriso tímido e preocupado. Tinha um nódulo na tiróide e precisava de fazer um exame. Acompanhei-a à Avenida da República e vi como se apoderou do medo e não o contrário. Recebidos os resultados, era benigno e ficava sob vigilância. A primeira memória de Palhavã, afinal andava a fazer mossa: sempre que subia do metro na praça de Espanha, sempre qu...

Don't Don't Look Up - mas não me chamem Dibiasky

O filme Don't Look Up estabelece um fluxo reverberante com o espectador. É sobre o comportamento do próprio espectador projetado numa situação ficcional; o espectador reconhece que se vê no espelho a si mesmo!; depois volta a fazer tudo como se fosse só mais um filme; e assim se cumpre a previsão. Em Don'T Look Up, Peter Isherwell, o dono do mundo e da empresa BASH, tem dados que lhe permitem saber quase tudo de quem quer que seja, até sobre como vai morrer, e usá-los para o que desejar. No Brasil, todas as crianças e adolescentes forneceram dados sobre a sua subjectividade sócio-emocional (portanto, psicológicos), via questionários aplicados pelo sistema educativo. O PISA e seus ramos trabalham com afinco para generalizar esta avaliação (e intervenção posterior, colocada no currículo) em todo o mundo. Esses dados das crianças brasileiras, são já parte do big-data universal. Essas crianças, podem um dia ver-se confrontadas com um Peter, provavelmente em forma de crédito social ...

Uma ligação estranha a um lugar

É um local muito apreciado! Os turistas costumam querer fazer-se fotografar ali, com o canal por cenário e os coloridos barcos de matriz fenícia. Também ela já tivera que posar algures por lá, sempre constrangida, por um não-sabe-porquê e pelo contraste com a satisfação dos seus companheiros, em cada viagem - umas três; por aí. E iam aos doces típicos da região cheios de gemas - que até isso ela detestava na altura, agora não tanto. Foi mudando com o tempo, mas esta repulsa pela cidade que todos adoram é visceral e mística.  Logo na primeira vez, num grupo de família alargada do marido - hoje e desde há muito, ex-marido -, passeavam num qualquer jardim, mas a ela só lhe dava vontade de fugir:" vamos embora, vá lá, não gosto disto!" Nem se lembra se o chegou a dizer, talvez sim, pois nessa altura era muito de boca no coração, e então julga lembrar-se do comentário e do olhar esbugalhado: "como é possível não gostares disto?!" E lá aguentou, contariada, e nunca mais s...

Deixem -me

Nem que eu crie um deus menor  para poder dizer deus me livre  de ser um projeto  de ter um projeto  de criar um  de participar nele  deus me proteja  dessa gente  dos projetos! dos colaboradores  dos inovadores  da inclusão  dos amigues...  Deusinho  estou fora  das promissoras ideologias  do início do século passado promíscuas com as novas tecnologias  e a globalização deixem-me em paz! deixem-me pensar! deixem-me ser, sendo, como sou de qualquer jeito incalculado onde paire a pele da dúvida e haja um local amplo  como despensa  para surpresas e defeitos  encantos e sombras  deixem-me estar  vendam-se para aí construam torres de Babel  prefiro a honra do cigano! a borda de fora!  ser observador sobrevivente  e escolher  não estar. 

Coisas da Vida

Esta mulher acha que sabe da minha vida! Escreve sobre mim: passei de mentor a musa! Acerta pontualmente - como no pontilhismo Seurat consegue mostrar a paisagem com falhas aqui e acolá. Hoje, por exemplo, depois das compras de última hora para a noite de Natal, telefonemas e combinações, estamos no final do almoço, com as garotas dela em algazarra a falarem por telefone com metade do mundo dos dois hemisférios e dos vários pontos cardeais. Ela passa por mim e acerta-me com um beijinho casto quando voa de sala em sala, de quarto em quarto, em particular frequência para a cozinha. Percebo a ideia, também conto ajudar, mas por agora estou a passear pelas redes sociais e a ver as mensagens natalícias dos amigos e, apercebo-me que a Maria me está a provocar - não se limita a imaginar a minha vida, como se põe a remexer no meu passado e faz questão de mostrá-lo, assumindo que eu vejo a sua página. Bem, é Natal, não vou implicar, até porque o faria apenas comigo mesmo. A minha atual é ciumen...

Desejos de Lagosta

O meu velho ouvia falar de lagosta como de um manjar mítico - eu era de caviar. Para ele, óculos de sol e música clássica faziam parte do mesmo exibicionismo de classe e ele lembrava dia de cães a perseguir os colegas grevistas afoitos, e eu e ele lembrávamos do Marcelo Caetano a falar de certos pescadores de águas turvas e de uns senhores encasacados que diziam muito bem e batiam palmas na televisão, em sincronia, presumo que em tempos fixos. E havia a Lagosta que era tão mítica que o meu velho, que se recusou sempre a ouvir música clássica e a usar óculos de sol e também não teve cão, guardou-se o desejo de Lagosta como último reduto do palácio dos desejos. Andou de avião, fez as viagens  que desejou ou lhe impingiram e gostou de todas. Comprou o forninho saloio de pão, plantou as árvores para a industria alimentar, e as exóticas, dobrou-as ao clima e, às vezes, venceu. Pôs os filhos na universidade, antes podia dizer que eram bons alunos! Enfim, realizou-se dentro do possível, m...

Inutilidade

Penso que sou preguiçosa na escrita. Revejo pouco. Quase nada corto. Quando vejo o que outros escrevem... Bem!, fico perplexa se hei de melhorar ou desistir. Mas tem um lado que posso chamar de existir, ficar mais rica, uma esperança de ser lida, que me mantém a dedilhar como uma tola! Não vale a pena, claro, como tudo o que fiz na vida, foi apenas um processo de oxidação, uma energia transformada segundo a lei de Lavoisier, um pontinho visível num caos desnecessário. Tanto fazia ter existido ou não. Nada, absolutamente nada nem ninguém ficou tocado com esta existência: inútil! Mas difícil de gerir, para mim! Uma ovelha. Mansa. Encurralada. Às vezes a tentar outro caminho, mas logo revirando para não ser esmagada. Como será o fim que se avizinha?! Torturante?! Mais do que a minha própria vida?! Palavrinhas boas - ouvi-as, mentirosas! Nos momentos-chave, só os meus ecos! Apenas um gato! Um gato, me amou! E vá lá, um gato, amou-me maravilhosamente. Tive sorte com o meu gato! Tenho dentes...

As tuas escolhas

Os dias sabem-se a si mesmos. Há quem os conte. Eu deixo o calendário e o folclore das datas especiais fazerem isso. Sei que me arrasto contra um muro que avança em meu sentido. Sei que a minha vista alcança outros seres que verei embater antes de mim. Ainda mais, isso! Sei todos os dias que perdi a minha caixa de ressonância, mesmo que só a tivesse tido por uns breves meses. Estava talhado assim e eu reconheci-lhe o valor, e também o vi partir - foi o muro da indiferença que o consumiu e agora preciso folhear as páginas gravadas das nossas conversas porque a memória, claro, mente! Mas basta-me correr os olhos nas linhas que escreveu, três ou quatro, para logo me achar faminta: será que já está pronto o livro para ser possuído?! Eu, humilde, possuir a tua escrita clara e escorreita. Culta. Mata-fome para mim. Porque será que não escreves? Nem um artigo? É um desperdício gastares o teu latim por aí. Só faz-de-contice. As tuas escolhas! 

No Clube Náutico

Tenho por paisagem o interior do restaurante do Clube Náutico, a vista do teu meio-corpo à minha frente na mesa; do lado esquerdo a vidraça continua, atravessada por veleiros lentos e faíscas que o sol empresta às ondinhas de grão fino. Pausei o olhar nesta azáfama de ruído branco visual e tu questionaste: estás triste? Eu estava desconfortável, mas talvez não soubesse fazer conversa sobre uma provável intuição de tristeza. Não tivera tempo de compreender. Mas hoje, passados dois anos, consigo ir a esse momento e responder com a pergunta: o que queres de mim? Como és capaz de ser amoral e tolo - que vergonha sinto, por não ter sabido que eras banal - enganado por uma que ama tudo, em particular a tua conta bancária! A comida, a espetada de lulas com gambas, era só sofrível, o teu ânimo era insuficiente; do vinho nem me lembro! Nos olhos só queimavam os flashes de luz das ondas, as velas às curvas por ali, negras algumas, a estrada pouco cuidada lá em baixo, o empregado com simpatia de ...

Lavagem da cabeça

Sento-me na cadeira reclinada  indicada pela cabeleireira para lavar a cabeça. Cumprimentos, escolhas do menu dos champôs, complementos e promoções. E depois das banalidades ela começa a sessão de massagens no crânio. Ainda me atenho a inquirir onde terá ela aprendido, se é reflexologia, mas logo os botões começam a desligar um por um até ficar a ouvir a música das pontas dos dedos em arcos perfeitos de pressão, o cansaço e a má disposição a escorrerem para o cano da água, o peito em expansão respirando sem bloqueios e solto uns mudos: "isso", "aí mesmo", "pode repetir"? E sem ouvir um único som do que nem disse, a cabeleireira massaja a meu pedido telepático e até para além dele, fazendo esquecer que o tempo tem partes que nos subjugam através dos relógios. Acordo depois, meia dormente, para a música do salão, sabendo que se quiser amolecer ainda mais, é só fazer a máscara a quente e ficar por ali a hibernar mais cinco minutos! Muito obrigada, ensaio dize...

Primeiras reflexões sobre a minha biblioteca

Um dos melhores presentes da idade é poder escolher recordar um estado mental associado a cada fase da vida. A biblioteca pessoal tem um papel de destaque nessa função autobiográfica. A minha não emagreceu com transplantes, destralhe, divisão por separação ou divórcio: mantém-se intacta. Por isso, nela há uma arqueologia de tempos, modas e maneiras de ver. Enchi-a descontraidamente, sem impulsos de obsessão colecionista: um riacho calmo de correntes de doce curso ao acaso da passagem por pequenas livrarias, da feira do livro ou de alfarrabistas, cortado pontualmente por vagas tendências associadas à profissão, ou a curiosidades do momento. Tem também deliciosas revistas que guardam as viagens de sonho que não fiz, e os manuais das que realizei também constam, e até coisas soltas e dissonantes, mas que me importava ler. Uma tímida penetração newage, só para saber o que era, uma pitada de orientalices. Mas houve expulsões: umas tantas ofertas que remeti para bibliotecas externas. Na minh...

Jantar a quatro

Disponho as vasilhas de gupza de gengibre, óleo de colza, e wasabi, na mesinha de apoio - aprecio o aroma delicado e exigente! Distribuo os quatro pratos kavakza pela mesa do jantar. Coloco a jarra restaurada, como agora é um must e nela um arranjo frugal e elegante com as linhas da vida e as outras. Na verdade, mandei trazer tudo pronto! Ainda me seguem?!  Marco a temperatura do forno. Olho as mensagens e digo, displicente, ao casado, que o amo. Desligo de seguida o telemóvel para me concentrar no modo eco-inside. Avanço no corredor, passo a porta, ligo o jacuzzi, pequeno luxo que me ofereci no ano passado. Esperem. Ponho uns aromas a queimar. Se querem saber, gosto de jasmim e ylang e ylang. Acrescento algo mais, é segredo, e um óleo veicular de amêndoas doces. Essencialmente gosto de sentir que faço coisas antigas e uso óleos com uma certa ascese e rótulos de pureza - essências de extração natural por doutos como o Dr. Fherrenci, da Alemanha -, dão-me o ambiente autêntico e crep...